4,5*
Não sei o que significa isso de arte francesa e arte inglesa e arte americana: parecem-me meras designações para catalogadores e críticos e negociantes, representando preocupações inteiramente alheias ao artista. Arte é arte em qualquer país, e um romance é um romance em qualquer língua, e já é bastante difícil estar à altura deste privilégio para ainda complicarmos mais o problema. O leitor, o consumidor, pode chamar o que quiser às coisas, mas deixemos esses pequenos divertimentos para ele.
Deixando, desta vez, de lado a fricção entre norte-americanos e europeus, Henry James coloca o seu protagonista em Paris, como anfitrião de uns serões multiculturais, onde o antagonismo se foca antes noutras nacionalidades também tradicionalmente desavindas. Na casa deste pintor, reúnem-se, entre outros, Madame de Brindes e a sua filha, Paule, noiva de um poeta inglês, Felix Vendemer, o qual, ao escutar o alemão Herman Heidenmauer a tocar piano, fica profundamente impressionado com o seu talento. Desta cumplicidade imediata, nasce a ideia da colaboração para uma ópera.
Dessa opinião, porém, não partilha a senhora francesa, viúva de um militar morto na Guerra Franco-Prussa, que faz um ultimato ao seu futuro genro.
Marie de Brindes nunca poderia falar com Herman Heidenmauer. Era uma limitação de espírito, se quiserem, mas uma limitação que a meu ver estava envolta por uma densa atmosfera – uma espécie de perfeição em declínio – de coisas enriquecedoras e fortificantes. O próprio Herman Heidenmauer, como homem imaginativo e amante da vida que era, teria entrado nessa atmosfera com prazer e ficado encantado com ela enquanto exemplo requintado de tacanhez.
É admirável a modernidade e abertura de espírito de Henry James neste conto, abordando um tema que nunca deixou de ser actual: o chauvinismo que atiça as pessoas umas contra as outras e o papel unificador que a arte deve sempre ter ao manter-se acima da mesquinhez dos nacionalismos.
- Em arte, não há países.
- Sim, a arte é terrível, a arte é monstruosa – retorquiu Vendemer.