* Joao..."Sem sorrir, com ar sério, a menina Kim disse que estava bom tempo porque se aproximava o aniversário do grande líder."
A escrita de Peixoto é fluída e agradável e o livro lê-se num fôlego. Mas a obstinação inicial com a Coreia do Norte e com o desejo de a visitar não resulta em nada a não ser algumas breves reflexões sobre vida e a sobre a família que sabem a pouco..."
*David Pimenta..."Por vezes tenho de escrever algumas críticas negativas que me partem o coração e é o caso deste livro, a nova obra de José Luís Peixoto e intitulada Dentro do Segredo . O escritor viajou até à sociedade “mais fechada” e mais “repressiva do mundo”, a Coreia do Norte, graças às comemorações do centenário de Kim Il-sung, ocorridas em Pyongyang. O que prometia ser um fantástico relato desta experiência acabou por ser a maior desilusão da minha vida. Apesar de nem tudo ser mau, em conversa com uma das minhas tias, descrevi-lhe este novo livro como sendo um relato simples e vulgar de qualquer pessoa, sem grandes dotes para e escrita – e não foi isso que verifiquei no Livro, a única obra que li do José Luís Peixoto.
O que me prometia muita coisa acabou por ser um relato quase “de cabeça”. A sensação que tive ao ler este primeiro livro de literatura do escritor foi a seguinte: várias ideias estavam na cabeça do artista e para as tentar colocar todas em prática acabou por dar este resultado cheio de superficialidade. Essa superficialidade é evidente na quantidade de livros referidos pelo leitor, a informação deles foi colocada em demasia nestas páginas. A meio do livro o pensamento que me ocorria era “o que deu na cabeça deste senhor?”, “aproveitou o nome e reconhecimento para fazer algo com tão má qualidade?”. Nunca desisti do livro a meio por não gostar de fazer isso mas vontade nunca me faltou.
Dentro do Segredo oferece uma visão sem grande fundamento, sem descrições de qualidade. Unicamente pensamentos com pouca lógica e encadeamento que transformam o livro em algo vulgar, pronto a ser largado na estante. Nunca apreciei muito género de literatura de viagens e este desiludiu-me profundamente. O menos mau são os pequenos pormenores que se vão aprendendo e o desamor pelos guias que acompanharam o escritor em toda a viagem, o senhor e a senhora Kim. De resto nada mais se aproveita. Não fiquei maravilhado com isto"....
Vanita "...Mais do que um segredo, este livro é uma mistura de sentimentos. Há tanto para dizer que é difícil organizar o pensamento e estruturar uma opinião concertada, com alguma utilidade. Este não é um livro normal, é uma obra de não-ficção, quase mascarada de reportagem mas impregnada do cunho pessoal daquele que é um dos escritores portugueses mais reconhecidos da actualidade. Começa aqui a confusão: José Luís Peixoto não é jornalista nem pretende ser. Está tudo muito bem, não se desse o facto de este ser um livro que aborda uma realidade a que muito poucos têm acesso: a necessidade de informação credível e fundamentada é uma constante, um imperativo. Infelizmente, são demasiadas as situações em que o autor não está à altura do que se propõe. E não está por sua culpa mas porque, além de limitado quer em termos materiais quer de movimentos, não tem - e isso é evidente - a formação necessária para dar ao leitor o que ele precisa enquanto o acompanha nesta viagem turística à Coreia do Norte.
Como escritor que é, José Luís Peixoto leva-nos com ele numa viagem de pouco mais de 200 páginas - impressas em folhas com uma gramagem bem superior ao usual - ao que o governo norte-coreano decidiu que podia ser mostrado a um grupo de cerca de 20 curiosos estrangeiros. Sem liberdade de movimentos, sem telemóvel, impedido de tirar fotografias, o autor descreve o que vê, mistura com o que sente e conta-nos o que viveu durante aqueles dias. E é uma surpresa descobrir que ainda se vive daquela forma algures no planeta Terra, dói adivinhar o que se esconde por detrás das fachadas apresentadas aos visitantes. Nenhuma dúvida quanto a isto. Neste momento, em pleno século XXI, existe um país onde o pior pesadelo de George Orwell, recriado em 1984, é uma realidade. Uma realidade. É chocante descobri-lo, é importante dar-lhe voz.
A mistura de sentimentos que o livro provoca surge aqui: durante a leitura de "Dentro do Deserto" a nossa identidade passa a ser a de José Luís Peixoto. Temos fome quando ele tem fome, distraímo-nos quando ele está aborrecido, deixamos de tomar atenção quando o assunto não o cativa. Também dançamos com ele, provamos comida que não queremos de todo comer, sofremos com as saudades dos seus filhos. Isto é mérito do escritor, que brinca com as palavras quando as notas que tirou durante a viagem lhe permitem essa divagação. E eis que estamos perante uma das notas menos positivas: é fácil perceber quando temos o bloco de notas de José Luís Peixoto nas mãos. É ainda mais fácil distinguir os momentos que são escritos de memória e quase que se sente o quanto ela nos escapa por entre os dedos. Se até estes sentimentos são uma boa experiência enquanto leitor? Claro que sim. Mas resultam em frustração quanto àquele que é um dos propósitos do livro: relatar uma realidade acessível a um número limitado de pessoas. O desinteresse do autor resulta em ausência de informação e, por consequência, em perda para o leitor.
É uma viagem que vale a pena fazer, é uma certeza. Mas fica o gosto amargo de se querer mais, de se esperar mais. Ainda assim, resta a convicção de que não saímos iguais deste livro. Não se pode ficar indiferente"...
Guilherme Martins..."José Luís Peixoto na sua paixão platónica por sentir as vivências da degeneração ao culto da personalidade levou-o para o interior de um país em que a regulação da economia é controlada pelo Estado. A ausência ideológica leva-o a opiniões superficiais, apesar de ter a vivência da viagem, apenas voltou com visões intuitivas do que é o quotidiano no país da Coreia do Norte..."