É muito relevante, mas este formato de livro parece-me sempre demasiado curto para a ambição temática das obras. Algumas funcionam bem apesar de curtas, mas neste caso fiquei com a sensação de que precisava de um maior aprofundamento.
Ao longo das páginas, somos confrontados com vidas atravessadas pela ruptura da realidade partilhada. O livro trata a psicose , como uma experiência profundamente humana marcada por perplexidade, medo e, sobretudo, solidão. Quando alguém vê ou ouve algo que mais ninguém percebe, instala-se um isolamento radical. Não apenas social, mas também ontológico em que a própria realidade deixa de ser um terreno comum. Um dos méritos da obra é romper com o imaginário simplista que associa psicose apenas à esquizofrenia. O livro lembra que os episódios psicóticos pertencem a um espectro muito mais amplo e que podem surgir de forma estável, intermitente ou mesmo como um episódio único na vida de alguém. Estas páginas refletem um retrato sensível da fragilidade humana quando a realidade se fragmenta. A sua força está na capacidade de provocar empatia, mostrando que a psicose é muitas vezes uma experiência profundamente solitária.
É um livro que se lê rápido, bem fundamentado, bem escrito, interessante, acho que com informação acessível para quem não seja da área mas simultaneamente aprofundado qb. A minha realidade profissional faz-me desconhecer o contexto prisional, e achei essa parte bastante educativa, embora depressiva. Hesitei pelas quatro estrelas porque gostaria que tivesse sido um livro mais desenvolvido e mais consistente. De resto, e da realidade que eu conheço, pareceu-me bastante factual.
Em média, 33 mil caixas de antidepressivos são vendidas diariamente em Portugal. Talvez este número devesse obrigar-nos a olhar com mais atenção para aquilo que preferimos não ver: a saúde mental e tudo o que a rodeia.
Em Aquilo que Vi no Escuro, Margarida David Cardoso conduz-nos precisamente para esse território invisível. O livro mergulha no sistema psiquiátrico e judicial português e revela um conjunto de histórias humanas que raramente chegam à superfície do debate público.
Desde os anos 70 que a investigação científica tem sido relativamente consensual numa constatação desconfortável: a esquizofrenia surge com maior prevalência nas classes sociais mais baixas. O livro não apresenta esta realidade como estatística fria, mas como biografias concretas — vidas atravessadas pela pobreza, pelo abandono institucional e pela incompreensão social.
Uma das revelações mais perturbadoras é estrutural. A Direção-Geral da Política de Justiça não conhece o número de internamentos preventivos. Esta medida nem sequer existe de forma autónoma na lei: aparece diluída dentro da prisão preventiva, o que significa que nem sequer é estatisticamente visível. A invisibilidade não é apenas social — é administrativa.
Entre as várias histórias, a de Peter ficou-me especialmente. Há um momento em que um doente diz simplesmente: “eu sou filho de alguém.” A frase ecoa muito para além do contexto clínico. No fundo, talvez seja essa a lembrança que o livro insiste em devolver-nos: todos somos filhos de alguém.
Mas talvez a parte mais inquietante seja esta: quando a sociedade falha, esperar-se-ia que o Estado social funcionasse como rede de segurança. O que o livro mostra, porém, é muitas vezes o contrário. Em vez de amparar, o sistema empurra ainda mais para a margem. Em vez de cuidar, exclui. Em vez de proteger, por vezes maltrata.
É talvez aí que o escuro do título se torna mais literal.