O facto de a FLL ainda não ter começado, não me impede de começar já a desgraçar as finanças naquilo que é a minha literatura de conforto. Mas, tendo a edição completa das tiras de Calvin Hobbes, para quê repetir-me com as suas coletâneas especiais? (Vamos fingir que é coisa que me pergunto muitas vezes). Devo dizer, em meu abono, que na edição que adquiri vem plasmado um autocolante vermelho com as seguintes palavras: "Só para colecionadores". Acho que isso me isenta de mais justificações. Mas, façamos de conta que esta razão - mais do que válida - não é suficiente, porque há duas outras razões de peso para adquirir este catálogo. A primeira: uma introdução pela mão de Watterson aos dez anos da sua carreira como cartoonista - um texto com cerca de sete páginas recheado de curiosidades sobre o formato escolhido e a sua evolução, os materiais usados no desenho de Calvin & Hobbes ou as dificuldades de criação desta BD histórica.
A segunda: o facto de o autor fazer acompanhar cada uma das pranchas, selecionadas por si para esta exposição, de um comentário que versa ora sobre a inspiração para determinados quadradinhos, ora sobre os seus aspetos técnicos, todos eles mimosos textos que oferecem pequenos insights sobre a sua generosidade e humildade artística.
É esta aproximação ao autor, um autor de culto, sem dúvida, aquilo que transforma este já de si magnífico catálogo de uma exposição da Universidade Estadual do Ohio, no ano de 2002, numa edição de luxo.
Nele, cada uma das 36 Páginas de Domingo preferidas de Watterson se mostram tal como chegavam à editora: desenhadas à mão, a carvão e tinta da China, e demoradamente coloridas a aguarela. Para esta exposição, um critério atípico para uma BD humorística: realismo e veracidade.
"(...) estava certa de que os visitantes começariam por sorrir e sairiam com os olhos húmidos de lágrimas."
Estas palavras pertencem a Lucy Shelton Caswell, curadora desta exposição, mas servem igualmente bem para descrever a experiência desta leitura.