«Inocêncio Mendes pensou: estão loucas. Depois pensou: não, eu é que estou louco. Razão tinha a colega Judite: num mundo a enlouquecer, será sensato tentar manter a razão?»
Há pessoas a serem perseguidas nas ruas pelas mais variadas razões. Uma conspiração? Ou apenas o ar do tempo?
Enquanto tenta sobreviver ao caos, a inspetora Judite Furriel identifica um padrão que liga vários episódios de violência a uma narrativa invisível que se infiltra no quotidiano. Quem decide quem merece viver?
Rui Zink continua a fazer das suas, pesando palavras e ideias para lhes devolver a merecida leveza. Como uma criança num salão de jogos, enfia a moeda na ranhura e, com as pinças da grua, tira-nos o boneco.
«Muita gente acorreu ao terreno a tentar ajudar, além das autoridades. E outra boa dose de charlatães, ou mesmo sociopatas, sempre rápidos a tirar proveito do sofrimento alheio, sobretudo se achassem que a compiaxão humana era fraqueza, não força.»
Rui Barreira Zink is a professor at New University of Lisbon, where he graduated in Portuguese Studies and obtained the PhD in Portuguese Literature. Reader of Portuguese at the University of Michigan (1989/90).
Author of several books, among trials and fiction, the novel stresses Hotel Lusitano (1987), Apocalypse Nau (2000), The Substitute (1999) and The Surfers (2001), and the books of account the reality now Color (1988) and Spider-Man (1994), "The Anibaleitor" (2006). Cooperating with the press and made literary translation.
Rui Zink received the Award of P.E.N. Portuguese Club, the novel Davida Divine (2005), has represented the country in events like the Biennial of São Paulo, the Book Fair in Tokyo or the Edimburgh Book Festival.
Vivemos num tempo em que tudo parece acontecer depressa demais — opiniões formam-se em segundos, julgamentos tornam-se públicos antes dos factos, e a verdade dilui-se no ruído. Olga salva o mundo, de Rui Zink, entra precisamente nesse caos, não para o organizar, mas para o expor com uma ironia tão certeira quanto desconfortável.
Uma das coisas que mais me ficou foi a expressão “andar algoritmado”. É simples, quase banal — mas diz tudo. Resume um modo de estar contemporâneo, automático, condicionado, previsível. E esse é talvez um dos grandes méritos do livro: está cheio de metáforas acessíveis, diretas, que não simplificam o pensamento, mas tornam-no mais claro. É, sinceramente, daqueles livros que devia entrar no Plano Nacional de Leitura.
Zink joga muito bem com a estrutura. Há momentos em que interrompe a narrativa para fazer uma espécie de comentário pessoal — quase como se estivesse a falar diretamente connosco. Essa quebra da barreira torna a leitura mais íntima, mais próxima. Como quando escreve: “num romance, ler é sentir com a cabeça. E, se quisermos ser poéticos, pensar com o coração.” E é exatamente isso que acontece aqui.
O livro funciona também como um aviso contra os extremismos. Há uma lucidez muito grande na forma como mostra que o impulso de linchamento não pertence a um lado político específico. Tanto pode vir de “gajos de Alfama” perante um suposto pedófilo, como de uma ativista de esquerda ao gritar “fascista”. A reação primitiva é humana — transversal. Mas o ódio organizado, amplificado e explorado… esse já é outra coisa.
E aqui entra uma das ideias mais fortes do livro: “os falcões da guerra adoram as pombas da paz.” Num tempo em que muitas vezes confundimos passividade com virtude, Zink lembra-nos que o ativismo é necessário — que não basta abanar bandeiras brancas.
Há também momentos de grande criatividade formal, como no capítulo “Olga”, onde ele usa ao longo de todo o texto a expressão matemática “-(P:Q)(PA-Q)”. Uma equação que sugere contradição — e que serve para explorar exatamente isso: as contradições do amor, da vida, das relações. É um detalhe inesperado, mas muito conseguido.
Ao longo do livro, há ainda uma crítica constante — quase uma “bicada” — aos multimilionários e ao poder que concentram. Um mundo onde basta comprar um jornal moribundo e, à maneira de Murdoch, transformá-lo numa máquina de propaganda. Um mundo onde a opinião pública pode ser moldada, inflamável, manipulável.
E no meio disto tudo, Zink desmonta também a ideia absurda de “legal” e “ilegal” aplicada a migrantes. No fundo, somos todos humanos — e o livro insiste nessa evidência que tantas vezes esquecemos.
Talvez por isso, no final, a ideia mais bonita (e mais inquietante) seja esta: quem pode realmente salvar o mundo… são as crianças.
Olga salva o mundo não oferece soluções fáceis. Mas oferece lucidez. E isso, hoje, já é muito.
Neste livro, Rui Zink conta uma história partindo de premissas muito atuais: A facilidade de manipular alguém, os fenómenos de massas, a inteligência artificial, os autoritarismos...
A inspectora Judite Furriel está a interrogar alguém que seguiu um bando de pessoas que ia linchar um homem. A pessoa não procurou saber se na realidade haveria razão para tal (como se houvesse justificação!). Limitou-se a seguir as pessoas! E eu vejo perfeitamente uma situação destas acontecer! O ritmo alucinante em que vivemos não nos permite refletir! Nem se deseja que o façamos! Como surgem outras situações do género, a inspectora decide investigar o que estará por trás destes linchamentos públicos!
Adoro a forma como Zink escreve. Cheio de ironia e por vezes, apontando o dedo ao leitor! Gosto quando se dirige diretamente a quem lê, assim, a meio da história! É uma "pausa" que cria mais ligação com o leitor! Além de tudo isto, há momentos engraçados que me provocaram gargalhadas!
Esquecera a força das palavras na escrita de Rui Zink que, com lucidez e humor faz poderosas críticas sociais.
A narrativa é sobre crimes, por quem habilmente instiga ao ódio a exercer com violência, em benefício próprio, por motivos revoltantes mas não comprovados A justiça do preconceito na linguagem crua de rua numa bem estruturada e fluida história policial que desconforta e inquieta. Judite Furriel sabe da ironia a partir do seu nome, enquanto procura compreender para prender e sabe que, nos grandes crimes, ninguém se sente culpado porque ninguém se acha culpado e até quando a culpa é óbvia. As meias verdades que valem mais e persuadem melhor. Assertivo na visão atual para refletir. E muito rapidamente este trama enreda o leitor como se assistisse a um episódio televisivo. Principalmente quando o Alberto entra na edição e se encontra com a Judite que conhece de longa data. Os diálogos sobem de nível… de diversão. E em 2040 Olga salva o mundo, não sem antes um quase linchamento por um atentado contra o bom gosto.😂
Imaginem um país em que a realidade é frágil e facilmente manipulável. Em que a desinformação e o medo fabricado são propagandeados com a mesma facilidade com que se bebe uma jola no café da rua. Que os comportamentos de matilha seguem aquilo que se lhes apresenta como uma boa história, mesmo que não se saiba muito bem de onde essa história veio. Em que a ironia e o ódio passeiam de mãos dadas enquanto olham de esguelha para aquele estafeta com o seu cubo mágico repleto de artilharia pesada. Esse país podia ser o nosso, mas é só uma ficção de Rui Zink, em "Olga Salva o Mundo". Agora adicione sarcasmo q.b., a olho, como acontece numa boa receita tradicional nacionalíssima.
Este livro oscila ali entre o policial e o mistério, a sátira e o politicamente (mais ou menos pouco assim assim) correcto, e tem até um ou dois dedinhos de medronho, ai desculpem!, de história alternativa/ especulativa. Rui Zink é hilariante, fazendo-nos rir enquanto nos esfrega na cara a nossa própria condição humana que, não raras vezes, pouco de humana tem. Gostei particularmente das profundas conversas da nossa protagonista, a inspectora da Polícia Judiciária, Judite Furriel (e é mesmo esse o seu nome, não é uma piada relativamente ao local onde trabalha!), havidas com diversas personagens num bar esconso, com um cardápio etílico muito especial, assim como toda a mística que envolve o jornal que publica boa e velha literatura, muito tradicional e muito portugeza, por sê-lo em folhetim e fascis... ai desculpem!, ficcional. Os jogos de palavras e as hábeis talochadas em jeito de Revista são mais que muitos, mas é assim mesmo que gostamos das coisas, ora bem!
Ler este livro, neste momento, considerando o avanço da tecnologia e o retrocesso civilizacional que ressalta dos ecrãs e nos entra pelos olhos adentro, é algo hilariante, porém assustador. A precisão da publicação deste livro, considerando escândalos mais ou menos mundiais e os cenários de guerra (mais teatrais para uns, mais mortais para outros), é quase coisa que poderia ser obra da nossa Olga. E bem postas as coisas, isto é capaz de ter rendido um pouquinho mais do que dois linguados.
► Livro cedido pela Porto Editora em troca de uma review honesta.
É um livro que nos transporta para o futuro da nossa sociedade. Descritivo das cenas mas sem explicar a fundo o que realmente está a acontecer. Gostava que o livro tivesse mais profundidade sobre as reais consequências do mundo tecnológico moderno e explorasse mais as dificuldades individuais de cada um de nós.
É no fundo uma sátira à nossa realidade em que as pessoas se matam umas às outras sem verificar realmente se quem estão a matar é culpado ou não.
A Olga é obviamente uma IA boazinha que percebe quem os homens poderosos são estupidos e de certa forma mata-os.
Mas tudo isto acontece muito rápido… não é bem explorado o impacto que a Olga tem na vida de cada indivíduo e quando ela “mata” o Jet e o Biff, parece que é para despachar. O real conteúdo do livro é sobre o linchamento de pessoas inocentes e toda essa investigação. Não sabemos o que acontece à Judite, nem ao Alberto nem ao Ivo. O quê que acontece depois? Morrem todos? São fugitivos para sempre? Enfim… ideia do livro muiiiito boa mas o seu desenvolvimento infelizmente não me cativou como o esperado
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