Obras Completas de Aquilino Ribeiro. Inicialmente incluído em Estrada de Santiago (1922), O Malhadinhas acabaria por se tornar numa das mais conhecidas obras de Aquilino Ribeiro quando foi publicado em volume autónomo em 1958 (o autor acrescentar-lhe-ia a novela Mina de Diamantes). Em forma de monólogo, a obra conta-nos a história de um almocreve, o Malhadinhas, um serrano rústico, grosseiro e matreiro, que não tem quaisquer problemas em usar a «faquinha» que traz à cintura para corrigir o que entende por injusto. Defendendo-se à navalhada e golpes de pau (e por vezes a tiro) dos inimigos com que se vai deparando ao longo dos caminhos e da vida, O Malhadinhas presenteia-nos com uma série de episódios picarescos, num tom coloquial repleto de expressões idiomáticas, trazendo-nos o retrato de um Portugal esquecido.
Aquilino Gomes Ribeiro was a Portuguese writer and diplomat. He is considered as one of the great Portuguese novelists of the 20th century. He was nominated for the Nobel Literature Prize in 1960.
Natural son of Joaquim Francisco Ribeiro, a priest, and Mariana do Rosário Gomes, he had three older siblings: Maria do Rosário, Melchior and Joaquim. Destinated to priesthood, Aquilino Ribeiro got involved in republican politics, opposing the Portuguese monarchy, and had to exile himself in Paris; he returned to Portugal in 1914, after the Republican Revolution of 1910.
He was involved in the opposition to António de Oliveira Salazar and the Estado Novo, whose government tried to censor or ban several of his books.
He married twice, firstly in 1913 to German Grete Tiedemann (ca. 1890-1927), by whom he had a son Aníbal Aquilino Fritz Tiedeman Ribeiro in 1914, and secondly in Paris in 1929 to Jerónima Dantas Machado, daughter of the deposed President of Portugal Bernardino Machado, by whom he had a son Aquilino Ribeiro Machado, born in Paris in 1930, who became the 60th Mayor of Lisbon (1977–1979).
Sempre que pego num livro do Aquilino, começo por estranhar, mas depois acabo por entranhar. O vocabulário é tão rico e cheio de palavras que já não fazem parte do uso corrente, que o início é sempre uma luta. Neste caso, surpreendi-me ainda com a quantidade de palavras e expressões que julgava serem de uso exclusivamente transmontano, e que vim encontrar neste Malhadinhas beirão: um cibo/cibinho (um bocado/bocadinho); “e eu na fresca ribeira” (eu “na boa”/”na maior”), entre muitas outras.
Mas depois do choque inicial, habituo-me e começo a apreciar. Foi o que aconteceu com este livro, que na realidade é composto por duas novelas: “O Malhadinhas” e “Mina de Diamantes” - esta segunda não a levei até ao fim, a transição de ambiente, enredo e linguagem (parte da história passa-se no Brasil) era tão brusca, que não me apeteceu continuar, fica para a próxima. Quanto ao Malhadinhas, a personagem bruta e gozona começou por me irritar, mas depois acabei por me render ao seu sentido de justiça e à sua língua afiada.
Relato autobiográfico façanhoso num Portugal de serranias em hermetismos comunitários, por um narrador tão fiável quanto a sua Via Verde para o Céu. Mina de Diamantes, por seu turno, narra a visita de um emigrante singularmente lúbrico que do Brasil vai à terrinha no interior do Portugal beato, esportulando e rabaçando (como diria Aquilino), que a geografia muda mas os Homens nem por isso.
O Malhadinhas, a long monologue, given its height, is less a register of sound than a psychological register. So much, so that prosodic corruption had disdained an abundant and easy source of picturesque. Reproducing the language of a rustic, I no longer say faithfully but artfully, would result in an arduous and incommensurable literary work. So he did filter it, more in substance than form, to spare the verbal gold and its precious nuggets.
At Mina de Diamantes, I was concerned about the climate of the same mountainous area, but wholly current and beaten by the stiff and hot winds that blow from the sea. I am presumptuous to assume that the version I present of the “Brazilian” of today, evolved and so far removed from the Camillian “Brazilian”, will become classic. Dede is anticipation. Freudian, bandit, wide and improbable, generous and crook, he hosts all the notable gifts representative of the progeny of the mystical-bourgeois matronage, which is today’s society, fertilized after the Great War. (...)
Regresso aO Malhadinhas, quase trinta anos depois, sem nunca ter deixado de frequentar o Aquilino, não tantas vezes, porém, quanto devia, ai de mim. Porque a leitura de qualquer livro do homem da Nave traduz-se num imenso prazer, físico inclusive. Isto sim, é grande literatura, é a escrita em estado vivo, e que assim permanecerá enquanto houver língua portuguesa. Como disse há dias, em amena cavaqueira com um editor esclarecido, o Aquilino é brônzeo!...
“Quando comecei a pôr vulto no mundo, meus fidalgos, era a porca da vida outra droga.”
Frases como esta foram como mato no Malhadinhas. Frases que transportam à infância e horas a ouvir os mais velhos. Frases que nos levam a décadas de interior profundo: o Malhadinhas é uma curta biografia de tantos homens portugueses.
Mina de Diamantes é a outra história do livro. Apresenta o Portugal rural com crítica de costumes mas sem o poder do Malhadinhas.
Este livro reúne duas novelas de Aquilino, a clássica O Malhadinhas e a picaresca Mina de Diamantes. É um emparelhamento adequado, dado que apesar das aparentes diferenças temáticas, tocam no mesmo cerne - a falsidade do caráter humano, impiedosamente dissecada pela pena aquilinista.
O Malhadinhas transporta-nos ao Portugal profundo e rural da viragem do século XX, embora não se sinta muito a localização temporal. É um retrato de um caráter atemporal, rural e empobrecido, de vistas limitadas às aldeias e regiões limítrofes. Seguimos as aventuras de um homem que não é todo um herói. Senhor do seu nariz, inquieto e por isso bom almocreve e negociante, incapaz de domar as suas paixões e àgil no uso da navalha e varapau, vive num constante confronto com o mundo que o rodeia. Um mundo que é em si impiedoso, cheio de violência latente e pobreza. Apesar dos acometimentos de violência que o levam a fugas e prisões, o Malhadinhas safa-se, constrói a sua vida e amanha a sua leira. Morrerá de idade profunda, em paz, terminando os dias na beatice de quem se quer reconciliar com deus após passar uma vida a fugir das leis da igreja.
Malhadinhas não é nehum herói, mas também não é vilão. É apenas um sobrevivente, produto do substrato de pobreza, ignorância e violência de um país de paisagens bucólicas e miséria aldeã. De certa forma, este retraro impiedoso de Aquilino lê-se como o reverso de Os Meus Amores de Trindade Coelho, esse elogio de uma singeleza e humildade rurais que oculta o desaire da pobreza.
Mina de Diamantes é uma novela deveras picaresca. Seguimos aqui o regresso triunfal de um emigrante à terra natal. Mas desenganem-se se esperam uma história de benevolências e bondades. Estamos longe disso, e não há na novela nenhum personagem que não seja corrupto - aquela corrupção que é amoral, porque sistémica e condição essencial de sobrevivência social.
O regresso não se dá por saudades da terra, mas por necessidade. O emigrante singrou na vida num Brasil graças a ser bem apessoado, bem falante e cair nos regaços das esposas entediadas de banqueiros. Tornou-se funcionário municipal, o que lhe permite meter a mão em inúmeras negociatas na cidade. Concupiscente, cede aos enquantos da jovem esposa de um rival, e percebe que um regresso temporário a Portugal é a melhor forma de escapar aos riscos de uma bala vingativa, enquando o ultrajado não se acalma. Claro que sendo uma figura que tem de dar nas vistas, a viagem transforma-se em périplo de notoriedade, com reportagens nos jornais a detalhar a partida e chegada de tão importante personalidade.
Por cá, é recebido como um grande senhor, sendo-lhe rendidas as mais profundas homenagens e condecorações. Transformado em comendador, regressa à terra natal, uma típica aldeia empobrecida das beiras profundas. Claro está que vai atrair a cobiça de todos. Não há quem se safe, não há quem não arranje esquemas ou pedidos para sacar dinheiro ao supostamente rico comendador, que na verdade é pouco mais do que um mero e mediano funcionário corrupto. Toda a região se desdobra em salamaleques e homenagens, em pedidos para que o benemérito beneficie as terras. Para piorar, o retornado não mete travão à sua alma lúbrica, e depressa seduz sobrinhas e afilhadas, o que o coloca em novas complicações morais que se resolvem com a dose certa de notas de conto.
Se em O Malhadinhas há um moralismo na violência, em que apesar de todos os sarilhos em que se mete e provoca o homem tem um fundo de bem, Mina de Diamantes não há quaisquer modos de moral. Todos são corruptos, o emigrante comendador revela a corrupção trazida pela urbanidade, mas a sociedade rural a que regressa revela-se igualmente corrupta, disfarçando a amoralidade com que espolias os outros, vende as filhas e procura amealhar trocos fáceis com a capa da religião e probidade social.
Está aqui o ponto que torna as duas novelas iguais. Aquilino não disfarçava a desumanidade de uma ruralidade de pobreza, ignorância e violência debaixo de romantismos de piedosa honestidade. Nas duas novelas, a sociedade é impiedosa como condição de sobrevivência, safa-se quem mais porfia, quer seja no enganar, no pedinchar ou sarrafar. No fundo, é um retrato que não sendo bonito, representa a realidade crua de um Portugal passado. Mas, quando leio esta crueza aquiliniana na forma como desmonta as falsidades do caráter humano, não deixo de olhar para a sociedade contemporânea que nos rodeia e pensar que talvez estes traços se tenham mantido, apesar da nossa modernização.
Neste 2 em 1, com O Malhadinhas (4.5/5) a abrir as honras e A Mina de Diamantes (3.5/5) a fechar o pano, Aquilino Ribeiro revela, mais uma vez, ser dono dum vocabulário riquíssimo que nos desafia e humilha enquanto lemos. Ao mesmo tempo, Aquilino Ribeiro confirma-se como um escritor com um apurado sentido de humor, sobretudo em O Malhadinhas, onde o impetuoso protagonista, António Malhadas, almocreve de profissão, dispara metáforas dignas de nota a torto e a direito, à medida que vai inventando as suas desventuras voluntárias. A Mina de Diamantes, que acompanha a visita de Diamantino Dores, “de alcunha o Dedê”, desde o Brasil à sua aldeia natal na Beira portuguesa, não tem, na minha opinião, nem o charme nem a graça d’O Malhadinhas. No entanto, não deixa de ser uma leitura deslumbrante sobre o Portugal das gentes do campo, ainda que pontualmente marcada por traços duma mentalidade misógina e racista, inescusável fruto da época.
Mais um exemplo do génio do mestre da literatura portuguesa. No seu habitual estilo, Aquilino habilmente coloca-nos no mundo da sua personagem, sem cair no habitual erro do estereotipo do homem rude do interior e das serras. Aquilino consegue evitar esta cilada uma vez que ele é um homem do interior, que sabe do que fala, os ambientes que descreve, os hábitos que narra. Não é um escritor à toa que cai de paraquedas numa vila do interior, para passar dois meses numa casa germinada com vista para as montanhas e para fazer investigação para a sua próxima novela. É sobre um autor que vai às suas memórias, vai às suas origens buscar a génese das gentes das aldeias do interior, analfabeta mas humilde, rude mas respeitosa, trabalhadora e séria. Quem é apresentado ao universo Aquiliano deste dificilmente consegue sair. Os Óscares são um prémio político e de tendências, e o mesmo se aplica ao Nobel da literatura. Aquilino podia e deveria ter sido premiado com esta distinção, mas na ausência desta cabe a nós leitores honrá-lo com a leitura das suas obras e a preservação da sua memória através do enaltecimento do seu génio. Voltando à obra in casu, pequena novela que se lê num ápice, com algumas marcas humorísticas e, não obstante o uso recorrente de expressões e palavras que escapam à compreensão do homem médio do Séc. XXI, temos sempre um dicionário sobre a forma de Google à mão para todo e qualquer esclarecimento. E, no caminho, enriquecemos o nosso vocabulário. Obrigado Mestre.
(PT) Não é uma história, são duas. A primeira, que dá o título, são os relatos de um almocreve, o António Malhadinhas, que fala das suas aventuras e desventuras de comerciante nas zonas de entre Douro e Vouga, numa história escrita e publicada em 1928. Numa escrita invulgar, cheia de palavras que não são compreensíveis para muitos, são histórias que se leêm e até vale a pena.
A segunda história, "Mina de Diamantes", trata-se de um português emigrado no Brasil que, rico, decidiu regressar a Portugal. Uma sátira a esse tipo de emigrados numa era onde a pobreza em Portugal era muita, vê-se que foi escrita num período mais tardio da sua vida - é de 1958 - mas o ambiente rural, a dictomia entre campo e cidade, e a escrita invulgar estão presentes. Esta última história é deliciosa de se ler e de uma certa maneira, continua atual.
Mais um périplo pelos clássicos. E afinal não foi um livro foram dois, porque a edição da Bertrand tem também Mina de Diamantes, além do conhecido Malhadinhas. Ambos do mesmo género, aventuras e desventuras da personagem principal. Não é intragável, mas também não me deixou apaixonada.
Uma das obras de leitura obrigatória no plano de Português (à minha época), é interessante como repositório de um mundo perdido, de uma linguagem regional e quase desaparecida. Na altura dizia pouco aos adolescentes que a estudavam, mas é um livro interessante para adultos.
Um livro de leitura difícil e extremamente enfadonha — uma das piores experiências literárias que já tive, sobretudo em contraste com Quando os Lobos Uivam, do mesmo autor, que é excelente.
A leitura de apenas excertos na escola aguça a curiosidade sobre a história de Malhadinhas, essa personagem de um tempo já longinquo mas cujas características se podem encontrar ainda em muitos portugueses deste século e não apenas do Portugal interior. Reler Aquilino é contactar com um Portugal passado mas tão presente, é aprender um léxico esquecido. O que falta a esta “novela” (?) em extensão é compensado com a mestria com que Aquilino Ribeiro brinca com a língua portuguesa e nos obriga, vez após vez, a consultar o dicionário ou um avô que esteja pelos ajustes. Choca a ligeireza e brevidade com que se fala de violação ou violência doméstica, hipnotiza a descrição de paisagens rurais e rudes, adversárias do homem e do seu quefazer, divide-nos a personalidade de Malhadinhas e a naturalidade com que conta e justifica os seus actos. Aquilino Ribeiro é um dos autores portugueses obrigatórios e não se devia resumir a excertos lidos à pressa na escola. “E a vida lá vai... ligeira como uma galga doida, esparvada.” #alernosentendemos