Em Os imortais, Paulliny Tort, vencedora do prêmio APCA e finalista do Jabuti com Erva brava, surpreende o leitor com uma obra ambientada na pré-história e realiza um feito literário singular: reconstruir um mundo anterior à linguagem tal como a conhecemos, mas pleno de complexidade, pensamento e imaginação.
Neste romance tão próximo de uma epopeia, Tort narra a trajetória de um clã de neandertais em um cenário hostil, marcado pela fome e pelas intempéries. Guiado por figuras conhecidas como Homem, Mulher e Velha, o grupo atravessa vastos territórios em busca de sobrevivência. Após um conflito com outro agrupamento, uma criança sapiens é incorporada ao clã. Afastando-se de visões estereotipadas sobre os primeiros hominídeos, Tort cria uma narrativa de aventura que também se configura como uma fábula sobre a origem da humanidade, e propõe um retrato especulativo do convívio entre duas espécies.
Ousado e original, Os imortais celebra o poder inaugural da mente ao mesmo tempo que investiga as relações humanas elementares e o espanto diante do inexplicável, como o fogo, a morte e a doença. Com um estilo cristalino e envolvente, mas ainda assim poético, Paulliny Tort nos lembra que nosso elo com o passado é inquebrantável, enquanto o futuro da chamada civilização talvez seja mais frágil do que costumamos supor.
Paulliny Tort nasceu em Brasília (DF). É jornalista e mestre em Comunicação e Sociedade pela UnB. Erva brava (Fósforo), seu primeiro livro de contos, foi vencedor do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) e finalista do prêmio Jabuti 2022. Estreou na literatura em 2016, com o romance Allegro ma non troppo (Oito e Meio), semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura.
Parece que vivi junto a Menina, a Mulher e o Homem, naquele clã, nos dias dessa leitura. Paulliny conseguiu escrever uma história convincente sobre os neandertais e os sapiens.
Apesar de ser um livro incrível, curioso e interessante, sobretudo pelo enredo inovador (ao menos pra mim), não é um leitura fácil ou palatável. A autora não disfarçou as dificuldades imaginadas, bem como as já conhecidas, da vida dos nossos ancestrais. A fome, a doença, a luta por sobrevivência, tudo isso de uma forma muito crua e direta.
"Não é que seja o dever da ficção edificar ou ensinar, ou nos transformar em bons cristãozinhos ou republicanos, eu não estou tentando me alinhar com Tolstoi ou Gardner. Eu só acho que uma literatura que não esteja explorando o que significa ser humano hoje em dia não é boa arte." - David Foster Wallace, em entrevista a Larry McCaffery, 1993. Terminei essa semana a leitura de Os imortais, romance de Paulliny Tort publicado recentemente pela editora Fósforo. No livro, acompanhamos um clã de neandertais em um mundo hostil, onde a morte está sempre à espreita, mas onde também surgem, ocasionalmente, beleza e esperança.
Dividido em quatro partes, o romance acompanha diferentes membros do clã (o Homem, a Mulher, a Menina) enquanto o grupo tenta sobreviver a um ambiente hostil e em constante transformação. A leitura flui rapidamente, e é impressionante como Paulliny consegue nos colocar naquele mundo. Quando terminei o livro, fiquei com a sensação estranha de estar abandonando uma família real. Como se tivesse realmente habitado aquele ambiente, compartilhado seus medos, sua fome, suas aflições.
Não se sabe se os neandertais reais tinham uma linguagem complexa, mas evidências genéticas e anatômicas sugerem que eram capazes de articular palavras. Também existem evidências de que enterravam seus mortos e que usavam pinturas corporais, talvez como uma espécie de ritual religioso. No livro, não constam diálogos, mas os personagens conversam entre si, com palavras ou gestos, ainda que simples.
Mais do que imaginar as conversas entre os neandertais, o livro me fez pensar na experiência subjetiva de ser um neandertal, em seu diálogo interno. Não apenas como viviam, mas em como era estar dentro daquela mente. Os membros do clã não têm nome, privilégio reservado apenas a alguns indivíduos com funções específicas. Ainda assim, os personagens nunca parecem genéricos. Pelo contrário, suas emoções, medos e desejos são profundamente reconhecíveis.
A história do clã de Os Imortais também encontra paralelo com A Estrada, livro pós-apocalíptico de Cormac McCarthy que também li recentemente. Nas duas histórias, as necessidades imediatas para chegar ao dia seguinte quase sempre se sobrepõem a ideais mais elevados, como frequentemente acontece a nós, humanos pós-modernos do século XXI. Em ambos os livros existe a sensação constante de acompanhar vidas já condenadas historicamente. O leitor sabe que os neandertais desaparecerão; em A Estrada, tudo indica que a humanidade caminha para o mesmo destino. Ainda assim, os personagens continuam amando, cuidando uns dos outros, buscando alimento, tentando sobreviver por mais um dia. Aí é que os dois romances encontram aquilo que David Foster Wallace descrevia como a obrigação mais fundamental da literatura, explorar o que significa ser humano.
As duas histórias orbitam em torno da mesma pergunta: se tudo me for tirado, o que ainda resta de humano em mim? Em Os Imortais, essa questão ganha uma dimensão ainda mais fascinante porque Paulliny tenta imaginar a subjetividade de criaturas cuja experiência interna está ainda mais distante da nossa. É verdade que a autora não sabe, nem teria como saber, como era realmente a consciência de um neandertal. Mas, ao imaginar essa experiência e nos colocar naquele mundo, o romance nos aproxima emocionalmente de seres separados de nós por quarenta mil anos.
A leitura me fez pensar muitas vezes em como estamos condenados à própria consciência. A experiência subjetiva talvez seja a única prisão da qual jamais poderemos escapar completamente. Nunca saberemos como é realmente ser outra pessoa, muito menos um neandertal. Esse é um dos maiores poderes da literatura, nos aproximar do outro, ainda que de forma incompleta, como uma vida emprestada.
Também é significativo que, tanto em Os Imortais quanto em A Estrada, o fogo apareça como elemento sagrado. Literalmente no romance de Paulliny; simbolicamente em McCarthy, na ideia recorrente de "carregar o fogo". Em ambos os casos, o fogo parece representar algo mínimo e essencial da experiência humana, a ideia de continuidade, de transmitir o que há de humano adiante.
A autora consegue trazer verossimilhança para uma história sobre a qual sabemos apenas fragmentos: o estágio em que a humanidade se transformava de animais selvagens em algo diferente, ainda incerto. Ela abrange vários aspectos da vida de um grupo, como as relações interpessoais, o uso da pouca tecnologia, a visão sobre o sexo, a morte e a incessante luta pela sobrevivência. A interação entre neandertais e sapiens é central para a história, e dá pistas de como uma espécie prevaleceu sobre a outra.