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Como Caminhar num Pântano

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«[Em Como Caminhar num Pântano, o novo romance de Marta Pais Oliveira] destaca-se a originalidade da voz autoral, que faz um ziguezaguear permanente entre a primeira e a terceira pessoas narrativas. Uma prosa límpida e poética, crítica e cheia de sentido de humor, que conta a singular história de uma mulher que, nas horas vagas, se dedica ao roubo das malas de mão (...).»
Júri do Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho

«Liberdade pode ser isto - nenhum peso nas mãos.» Entre o gesto transgressor e a escrita, aqui constrói-se um retrato íntimo e vívido de quem observa o mundo enquanto o corpo dá repetidos sinais de quebra. Uma personagem consciente da proximidade da morte, mas ferozmente avessa à piedade alheia, que inventa para si um modo singular de estar no tempo - cria legendagens para filmes, imagina diálogos, altera sentidos, como se a linguagem ainda pudesse suspender o fim que se avizinha. A culpa é um bicho de muitas cabeças: culpa de quê?

Na cidade, a narradora de duas vozes cruza-se com figuras laterais e intensas: uma jovem grávida, um amigo esotérico, a dona de uma papelaria. Cada testemunho de encontro revela um fragmento de um espaço urbano entendido como um coro de desajustados, onde todos travam as suas batalhas invisíveis.

Entre lucidez, ironia e ternura áspera, esta história é uma meditação sobre liberdade, perda e resistência, onde a escrita se afirma como um último ato de insubmissão.

168 pages, Paperback

First published March 1, 2026

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Marta Pais Oliveira

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1 (1%)
Displaying 1 - 27 of 27 reviews
Profile Image for Paula Mota.
1,810 reviews616 followers
April 17, 2026
Quando alguém bate com a cabeça deve ser vigiada uma hora, toda a vida.

Somente pela causa a que se destinava, regressei a Marta Pais Oliveira quando publicou “Acaso é Nascer”, depois de não ter ficado nada impressionada com o seu conto “Quando Virmos o Mar”. Foi, portanto, mais expectante que iniciei a sua mais recente obra, apesar de me sentir desde logo atolada nos muitos pensamentos soltos, aleatórios e desconcertantes da autora, produto de um fluxo de consciência exuberante. Apesar das meras 167 páginas, “Como Caminhar num Pântano” exige entrega, para apreender as subtilezas da voz narrativa…

Tenho – também – entrado no túnel do eu. Releio o que escrevo: eu, eu, eu, eu. A náusea do eu. Seguirei na terceira pessoa.

…e, em simultâneo, abandono para nos deixarmos atascar nesta vida aparentemente caótica, nesta mente febril, que tanto se debruça sobre mundanidades num tom coloquial, como se perde em reflexões socorrendo-se de uma prosa sublime.

Vejo a notícia de um homem que se recusa a sair do seu ano. Decorou tudo ao estilo desse ano, são os jornais desse ano, só comprava as marcas que se compravam nesse ano. Aqui está um belo projeto de vida – resistir à passagem do tempo, não alinhar nessa coisa de ir em frente, sempre em frente. Ficar à margem, fixo, raízes fundas. Ficar só e ser o maluquinho. Não deixar a memória esvair-se aos borbotões.

Há uma mulher que rouba malinhas de mão, não por necessidade mas por princípio…

-Segura na mão um livro, uma arma, não segures uma carteira.
- Uma arma?
- Uma arma não é literal, um livro é uma arma.


…que, uma noite, conhece numa discoteca uma jovem que está grávida e passa a fazer parte da sua vida. Há a sensação de que a narradora está no fim da linha e, de repente, a jovem grávida também desaparece tão misteriosamente como apareceu, numa hábil ilusão que pressenti a dada altura e apenas confirmei no final. Numa fase em que perde tudo - o automóvel, o telemóvel, as chaves de casa, a saúde - apercebemo-nos da imagem do pântano. Estará a narradora a afundar-se irremediavelmente nele ou a aprender a manobrar a sua existência apesar de continuar a ser puxada para o fundo? E nós? Não é a vida um enorme e movediço pântano onde não temos outra alternativa que não seja aprender a caminhar cuidadosamente e manter a cabeça à tona?

O girassol tem um ciclo de vida de um ano. Aí está um ser vivo com menos sorte do que eu. O que temos em comum é que também eu sofri de heliotropismo, procurando todo o sol possível. Hoje já não. Hoje prefiro a sombra, não a da sala de espera, uma sombra exterior onde posso desprender-me do dia. Debaixo de uma figueira, o vento brincando com o sol, movendo folhas e cabelos. Não uma sombra demasiado longa, desfigurada. Uma sombra com o tamanho certo de quietude. Tão tristes são as flores de plástico. (…) Assalta-me a vontade incontrolável de comprar uma tesoura de podar, cultivar um jardim. Mas não tens jardim, dirão. Farei um na varanda. Mas é tão pequena! Farei um belíssimo jardim pequeno, o meu quintal. Onde, um dia, pouse um chapim-azul. Um chapim-azul que me dirá encorajo-te a viveres.

É raro, mas a sinopse na contracapa é perfeita: não conta demasiado, não vende gato por lebre, não faz comparações para vender; diz apenas o essencial para chamar os leitores certos ao mais recente Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho. A reler.
Profile Image for Leonor.
86 reviews36 followers
August 1, 2026
"Como caminhar num pântano, quero saber.(...) Mediante a profundidade aumenta o perigo. As raízes são traiçoeiras. Não me poderei deixar hipnotizar pelos sons que embalam, a natureza tem essa armadilha. (...) Só deverei atravessar um pântano em caso de emergência."

Fechei este livro com a sensação de ter passado alguns dias a viver dentro da mente de outra pessoa.

Uma mente caótica, inquieta, observadora, capaz de saltar de um pensamento para outro sem aviso, mas encontrando sempre um fio invisível que une tudo. Acompanhamos o seu fluxo de consciência ao longo de trinta e nove dias, onde um simples objeto, uma conversa ouvida ao acaso, um desconhecido, uma mala, uma floresta, uma mulher grávida ou a senhora de um quiosque se transformam em pontos de partida para refletir sobre o medo, o tempo, a morte, a memória, a beleza, a linguagem e a condição humana.

"Onde há distração, há menos contemplação."

A história existe, mas não é o mais importante. O verdadeiro acontecimento é habitar aquela mente.

A prosa de Marta Pais Oliveira é de uma beleza extraordinária. Poética sem nunca perder autenticidade, oferece-nos frases que parecem conter verdades universais, mas escritas de uma forma que nos obriga a parar, reler e pensar.

"É nossa obrigação existir."

Ao longo do romance, a narradora alterna entre a primeira e a terceira pessoa. O "eu" pesa-lhe demasiado e o distanciamento torna-se uma tentativa de sobreviver ao próprio pensamento. Não é apenas um recurso narrativo; é uma forma de mostrar uma mente que procura manter-se à tona enquanto luta contra o seu próprio caos.

Apesar desse tumulto interior, esta mulher continua a reparar na beleza do mundo. Continua a maravilhar-se com um dispersor de água, com flores silvestres, com a fotografia analógica, com os céus, com a poesia, com pequenos gestos de afeto. Não porque esteja bem, mas porque a beleza também pode ser uma forma de resistência.

"Aprenda a ver a beleza na imperfeição. A técnica consiste em restaurar cerâmicas, encarando cada quebra e rachadela como única. Reconstroem-se as partes e preenche-se a cicatriz (as cicatrizes) com pó de ouro. Aceitar a impermanência de tudo, embelezar a fenda. Tornar a fissura visível. Fazer do defeito força maior. Restaurar-me. Juntar as minhas peças quebradas, iluminar-me com pó dourado, agora sim – obra de arte."

Refere-se è técnica japonesa kintsugi.

Para mim, esta passagem diz bastante sobre esta obra. Não se trata de apagar as fraturas, mas de aprender a viver com elas e, quem sabe, transformá-las em algo belo.

Como Caminhar num Pântano é uma leitura que convida a observar, a contemplar e a aceitar que viver também é caminhar em terreno instável, sem nunca deixar de procurar beleza no meio da impermanência. É o retrato de uma consciência a tentar aprender a viver com a fragilidade da existência.

Foi uma leitura exigente, profundamente humana e uma das mais belas que fiz nos últimos tempos.

Um dos melhores livros que li este ano.
Profile Image for Rita da Nova.
Author 4 books4,887 followers
Read
May 3, 2026
«Esta proximidade da morte marca todo o livro, é uma espécie de fantasma no canto de todas as salas e todos os espaços que a protagonista ocupa. Mas não pensem que é, por isso, uma história pesada: gargalhei alto em vários momentos, quase todos inesperados, em que a ironia e o sarcasmo mostraram ser uma arma da personagem para adiar um bocadinho mais a morte.»

Review completa em: https://ritadanova.substack.com/p/com....
Profile Image for Vera Sopa.
826 reviews82 followers
March 14, 2026
As altas expectativas são tramadas. E eu tenho gostos refinados. Brinco, claro, mas já ouvi vários elogios sobre este livro, premiado, que acabou de sair. E no entanto, merecedor. Um livro muito pequeno mas imenso no que conta em dois tempos verbais. Um mulher que, no fim que sabe próximo, rouba malas para libertar as mãos das mulheres. Na contagem dos dias, do quotidiano em fluxo de consciência, um pensamento flui. No seu caminho cruza com outros em situações delicadas. A vida que, não se planeia. Avessa à piedade ou à auto compaixão é lúcida, terna e irónica. Uma mulher que reconheço. Magistral. Um livro que vou ler e reler com prazer.

“Elas sempre segurando algo, transportando algo mais pesado, essencial ou inútil, as mãos não se podendo expressar, gesticular, como se expressam os homens - tirando-as descontraidamente dos bolsos.”
Profile Image for CCB.
122 reviews80 followers
March 22, 2026
A Marta é uma autora brilhante. Tem uma capacidade única para evocar imagens, para construir narrativas a partir do fragmento, para nos levar através dos fluxos de consciência.
A experiência de ler Como caminhar num pântano é a de saltar entre estilhaços sem nunca perder o fio à meada, observando o quotidiano tornar-se literatura. É um livro belíssimo.
Profile Image for Célio Da Cruz.
47 reviews10 followers
March 29, 2026
Tinha grandes expectativas em relação a este livro e entrei nele sem grande preparação para o tipo de escrita que a autora apresenta. Talvez isso tenha influenciado bastante a minha experiência de leitura.

Este foi o meu primeiro contacto com a autora e senti alguma dificuldade em conectar-me com a narrativa. A alternância entre a primeira e a terceira pessoa acabou por me afastar mais do que aproximar, tornando a leitura menos fluida do que eu esperava. Percebo a intenção literária por detrás desta escolha, mas, pessoalmente, não resultou comigo.

Também tive dificuldade em criar empatia com a protagonista, da qual nunca chegamos a saber o nome, o que até poderia acrescentar um lado universal à história, mas que, neste caso, acabou por reforçar a minha distância emocional. Os seus pensamentos, muitas vezes dispersos e quase aleatórios, fizeram com que me desligasse da narrativa em vários momentos.

Ainda assim, reconheço a sensibilidade dos temas abordados e a forma honesta como a autora explora estados emocionais mais densos. É um livro que certamente encontrará leitores que se identifiquem com esta introspeção mais fragmentada e contemplativa.

Para mim, acabou por ser uma leitura interessante do ponto de vista literário, mas pouco envolvente a nível emocional.
Profile Image for Belisa Nogueira.
174 reviews10 followers
Review of advance copy received from Editora
March 15, 2026
"Como caminhar num pântano, quero saber. (...) Mas isto não é sobre aprender a caminhar sobre o pântano. É sobre saber distinguir quando já se está no pântano, sem o querer."

Este foi um livro que ressoou muito em mim.
Foi uma leitura que me transportou numa viagem até a algumas memórias de infância ("Erva daninha, trevo-azedo, azedinha, trazem-me a memória de chupar os caules na minha infância. (...) E deitar-me nestas flores amarelas."), a pensamentos/crenças da minha adolescência/juventude até ao presente.

"Uma memória dentro de uma memória dentro de uma memória. É isso que eu sou."

A personagem "convida-nos" para uma viagem lenta e reflexiva, mas que pode ter alguma turbulência. Convida a fruir, a sermos nós próprios, a libertarmo-nos do peso supérfluo que nos impede a liberdade e de procurar a nossa singularidade.

"A liberdade pode ser isso -- nenhum peso nas mãos."

Adorei este livro que "pede" para ser saboreado.
Profile Image for Pedro Ferreira Pinto.
6 reviews
July 6, 2026
Escrita intensa, frases curtas, leitura contínua. Ficam frases, ideias, pensamentos…

“Passa-se qualquer coisa com a minha vida. Há uma sensação que conheço bem. É algo como ter um bilhete para um espetáculo e não o encontrar. Tentar uma segunda via, não a conseguir, não encontrar, de novo, a palavra certa que soluciona. Encontrar o bilhete depois de passar a data. Isto sempre assim para sempre para sempre. A oportunidade em aberto e por uma parvoíce não a viver. Ando melancólica, algo que me acompanha desde que me lembro, mas com uma excessiva vontade de novidade. O excessivo sempre me colocou em alerta. Encoraja-te a viver “
Profile Image for Andreia Machado.
255 reviews33 followers
March 23, 2026
Entrei neste livro consciente de que poderia esbarrar numa escrita mais complexa, não fosse a sinopse indicar desde logo que a nossa narradora salta da primeira pessoa para a terceira sem aviso! Mas a primeira frase deixou-me logo bastante curiosa: “Liberdade pode ser isto — nenhum peso nas mãos.”

Li-o em dois dias e confesso que, quando não estava a ler, estava a pensar nesta protagonista tão peculiar, da qual vamos sabendo coisas devagarinho: pequenas notas deixadas sem aviso, a meio de pensamentos ou observações do seu dia a dia.

Ainda assim, o texto exige atenção e uma leitura calma (sim, eu sei, eu li muitíssimo rápido, mas calma, foi num fim de semana com tempo). As personagens com que a narradora se cruza na história não estão lá ao acaso! Não sabemos bem como as pequenas coisas se ligam e não vamos saber facilmente. Saberemos no seu tempo. No tempo que a autora e a protagonista querem que saibamos.

Eu sei, às tantas não faço sentido nenhum, mas também não posso dizer muito mais, corro o risco de vos estragar a experiência. Leiam. A escrita é bonita, melancólica; não é propriamente fluida, mas as palavras ficam connosco, e isso é tão belo!

Pelo meio há belos pensamentos sobre o quotidiano e o mundano, sobre a vida do bairro e da cidade decorrentes das observações da nossa protagonista e uma crítica subtil, com humor, à sociedade e à atualidade: “Seria bom fazer laboratorialmente uma espécie livre de preconceito.”

E há uma mulher dissidente que não se deixa levar, que valoriza e não desiste da liberdade de escolha até ao fim: “Não ser mulher-estátua, pouco se mexendo para nada rachar. Ah, isso é que não.” “Poder dizer não - isso é liberdade.”

Faz-nos refletir, em vários momentos, sobre o papel da mulher na sociedade. Sobre a passagem do tempo e a aproximação do fim. Sobre o que fizemos e o que deixámos por fazer, sobre pequenas coisas (as flores amarelas, a neblina, a praia e o sol no rosto), sobre obsessões e arrependimentos. Sobre as memórias que guardamos ! Sobre humanidade!

Tudo isto em apenas 168 páginas! Magnífico. Adorei. 🥹
Profile Image for Ana Catarina.
91 reviews
June 27, 2026
2,5 ⭐
Tenho sentimentos divergentes em relação a este livro. Li na força do ódio, porque a escrita é bonita. Mas não me cativou. A ausência de conexão com a personagem, de quem vamos retirando características aqui e ali, mas que não chegamos a conhecer verdadeiramente, não me permitiu adorar este livro.
Sinto que li um diário, um livro de "despejo de ideias", onde o passado e o presente se cruzam, onde a solidão é uma constante.
Não foi um livro para mim...
Profile Image for Sara.
52 reviews1 follower
May 28, 2026
Sei que o problema foi a minha experiência e não o livro. Já ouvi a Marta em podcast e adorei, mas realmente este tipo de escrita não é para mim. Lia dois ou três capítulos e não conseguia perceber o que tinha acabado de ler. Não há uma história propriamente dita, e tudo bem, já li imensos livros sem plot que adorei. O problema aqui acho que é o facto de serem entradas de diário mas estas são como se fossem pensamentos dispersos, ora está a relatar alguma coisa, como depois já está a pensar noutra completamente diferente... Não consegui prender a minha atenção nem ter grande interesse. Mas percebo que é uma escrita poética e bastante diferente do "habitual".
Profile Image for Priscila Gomes || euosiameseoslivros .
35 reviews3 followers
May 10, 2026
Review✒️ Como Caminhar Num Pântano - @martapaisoliveira
4,5/5🌟🌟🌟🌟⚡️
Temas: fragilidade humana, infância, memórias, sobrevivência, marginalidade, liberdade, solidão.

Nada na imagem e texto é IA.
Vamos falar sobre a capa/imagem de fundo? Vamos!
São os livros que nos escolhem, isso tenho a certeza. E há livros que parecem encontrar o lugar certo para serem fotografados. Levei este livro até um lugar onde fui profundamente feliz na minha infância, junto do enorme carvalho e do sobreiro, que guardam tanto dos meus risos, das brincadeiras e da liberdade leve dos dias antigos. Ali, as flores amarelas eram predominantes assim como na capa do livro, assim como estas flores crescem, frágeis mas persistentes, as memórias também.

Nesta obra, estas flores são como uma metáfora, como se fossem luzes de esperança a insistir em nascer mesmo nos lugares mais húmidos e difíceis da vida.

A história mergulha-nos numa narradora marcada pela fragilidade do corpo, pelas memórias, pela solidão, pela tentativa constante em sobreviver emocionalmente ao peso da existência.
A protagonista vive num estado quase suspenso entre vida e desaparecimento. Existe nela uma consciência muito forte da morte, da deterioração e do limite do corpo, mas ao mesmo tempo há uma resistência silenciosa. Ela continua a mover-se, a observar, a reinventar pequenas formas de existir. É como se a escrita mostrasse alguém a tentar preservar a humanidade enquanto afunda lentamente no “pântano” emocional da dureza da vida.

A autora escreve com delicadeza, mas também com coragem e sarcasmo. Faz-nos sentir a lama do pântano, o peso das emoções, mas ao mesmo tempo oferece-nos uma beleza quase luminosa.
No fundo, a obra explica-nos que devemos continuar a caminhar quando o chão já não é firme. Sobre carregar o peso da memória, do corpo e da vida e ainda assim procurar pequenas formas de luz.

"Erva daninha, trevo-azedo, azedinha, trazem-me à memória de chupar os caules na minha infância. Por vezes acocorava-me na terra para puxar o bolbo enterrado no solo, profundo,segurar caule e raízes. Estas flores resistem ao frio, resistem ao gelo, resistem a quem as olha como banais"
Profile Image for Joana Baptista.
85 reviews1 follower
July 19, 2026
A escrita é boa e há reflexões e curiosidades interessantes sobre a vida, a morte, a natureza e tudo o que uma mulher aparentemente prestes a morrer pode decidir pensar — desde figos a dolinas.

O problema é que passei as cerca de 200 páginas à espera que ela finalmente abrisse o coração e me explicasse o que estava por detrás de todas aquelas divagações. A certa altura, ainda há uma outra mulher que nos faz pensar que talvez exista aqui algum mistério... até percebermos que, afinal, ela está simplesmente a falar de si própria na terceira pessoa.

E depois chegamos ao fim.

E eu fiquei a pensar:

"Ah. Então estive a ler o diário desta senhora."

Não estava a ler em sofrimento — longe disso — mas demorei imenso tempo a acabar um livro relativamente curto, porque o meu alerta de chalupa esteve ligado do início ao fim, à espera da grande revelação que explicasse aquela chalupice toda.

Talvez a grande revelação seja mesmo não haver nenhuma.

Três estrelas pela escrita, pelas reflexões e pelos factos interessantes. E pelos figos. 🍃
This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for Carla Gonçalves.
107 reviews8 followers
May 12, 2026
4,5⭐️ “Liberdade pode ser isto – nenhum peso nas mãos”, esta é a primeira frase do livro. Ao longo da leitura, percebi como toda a narrativa se constrói em torno da ideia de liberdade de forma subtil e muito bem conseguida. A história acompanha uma mulher sem nome, marcada pela doença e pela consciência da finitude, que recusa a piedade e insiste em viver segundo as suas próprias regras. Há nela uma inquietação constante, uma recusa do comodismo e uma vontade intensa de viver plenamente. O livro levanta questões sobre a forma como escolhemos viver e sobre a liberdade em todas as suas dimensões. Surgem também gestos simbólicos de libertação, como o roubo de malas, entendido não como posse, mas como gesto de emancipação. A obra constrói-se como um retrato íntimo e fragmentado, atravessado por encontros, momentos de estranheza e humor, que revelam um olhar muito próprio sobre a vida e o tempo. A escrita de Marta Pais Oliveira é um dos grandes destaques. É poética, intensa, com imagens que transformam o quotidiano em algo quase alucinante. A estrutura em duas vozes torna a leitura exigente, mas muito envolvente, entre o caos e a lucidez. No final, ficou-me a sensação de uma obra sobre liberdade, resistência, onde a linguagem tem um papel central. Recomendo.
Profile Image for Beatriz Pereira.
15 reviews1 follower
June 15, 2026
Este foi o meu primeiro contacto com a escrita da autora e fiquei um pouco dividida. Reconheço a riqueza dos temas abordados e a forma honesta e crua como retrata estados emocionais mais delicados, mas a construção da narrativa não funcionou totalmente para mim.

Os pensamentos dispersos, que saltam constantemente de uns para outros, e a alternância entre primeira e terceira pessoa acabaram por me afastar do livro. Apesar de ter apreciado a reflexão proposta, senti que me faltou uma ligação emocional mais forte.
Profile Image for Renan Messias.
4 reviews
May 19, 2026
Quando éramos pequenos, eu e minha irmã, era comum ouvirmos de nossa mãe pensamentos intrusivos dela, como pegar a estrada sem destino e nos deixar em casa, ou das suas vontades de jogar o celular, as chaves de casa em pontes e bueiros. Sempre rimos com muita graça e passamos, após aquelas ameaças sutis de um mundo paralelo, a irritar novamente em casa.
Minha mãe vai gostar muito de ler o novo romance de Marta Pais Oliveira, “Como caminhar num pântano”, pois aqui temos uma mulher exatamente nesse estado só que, diferentemente da minha mãe, a mulher da ficção é munida de ação para esses pensamentos intrusivos, como o roubar as bolsas das mulheres para elas serem livres, o furto de pertences, o sair do carro no meio de uma avenida movimentada para apanhar o sol, a dublagem de objetos inanimados para narrar a sua própria existência.
Por mais que o fim permeie a vida desta protagonista, é na rasura do cotidiano que encontramos a vida emergir, na dificuldade de se caminhar na lama, é no ímpeto de permitir viver a cidade, a fragmentação, e a palavra que surge para além de dar conta da compreensão total, mas também como forma de ser possível a leitura daquele mundo. “Só deverei atravessar um pântano em caso de emergência. E se o quiser por lazer? Mesmo sabendo das cobras, dos possíveis crocodilos. [...] Da lama como areia movediça. [...] A imprevisibilidade do terreno, o corpo da água estrangulando-me. Soterrada na lama.”
No conto do vigário cairá quem fizer uma leitura simplista do nosso tempo hiper-tudo. O que mais me encanta é a maneira como as obras de Marta Pais Oliveira rasuram a leitura fácil da realidade e da própria literatura. Uma das coisas mais incríveis aqui é como a fragmentação da narrativa, em suas alternâncias entre primeira e terceira pessoa, se manifesta também na própria fragmentação da personagem, constantemente deslocada de si pelas interferências do mundo exterior. Assim como nós, ela é bombardeada por referências, estímulos e ruídos que a arrancam do centro milhares de vezes ao dia. Temos, então, uma obra que se permite ser lida para além daquilo que a narração expõe de modo ficcional e que encontra ressonância em nosso mundo; mas é justamente nessa escrita tão ímpar que conseguimos enxergar a literatura em permanente mutação. “Entender o detalhe, entender a totalidade. Sublimar as coisas. Um vento sem cor. Fechar os olhos ao soprar uma vela, pedir um desejo. O útero em paz, diluir-me na terra, fundir-me no solo. Muitos sóis. A campainha tocou.”
Recomendo demais!
Profile Image for Anne.
37 reviews
July 19, 2026
Como caminhar num pântano convida-nos a habitar o fluxo de pensamento de uma mulher de 77 anos.
Durante grande parte da leitura, senti-me arrastada para um emaranhado de pensamentos, uma espécie de centrifugação contínua onde as ideias se atropelam, se afastam e voltam a encontrar-se. No meio deste aparente caos, surgem momentos pontuais de uma lucidez desarmante. Foram esses instantes que, para mim, funcionaram quase como se a autora dissesse: "Então, senhor leitor, estás à procura de lógica e explicações? Toma lá." No entanto, logo na frase seguinte, voltamos a ser lançados para aquele turbilhão mental, como se a clareza fosse apenas uma breve pausa antes de regressarmos ao pântano.
Gostei muito da forma como o livro termina. É como uma afirmação silenciosa de que não há explicação para tudo, nem tem de existir uma lógica linear que nos organize a vida ou os pensamentos. Há beleza também no que permanece por explicar.
Outro dos pontos fortes do livro é a alternância entre a primeira e a terceira pessoa que a personagem principal faz para se descrever a si própria.
No fim, fiquei com a sensação de que este não é um livro para ser compreendido de uma só vez. É um livro para ser sentido, habitado e montado aos poucos como um puzzle ou como uma pintura que só ganha forma quando nos afastamos o suficiente para a conseguir ver inteira.
Profile Image for Dina.
61 reviews
July 26, 2026
"Queremos sempre justificar os gestos. Rapidinho, se fizer o favor. Vivemos o tempo do fragmento. Tudo é capturado num segundo, adiante, sem fruição. Somos consumidores e consumidores devem consumir e deitar fora. Seria bom haver por aí mais fruidores. Imaginemos a imensidão de possibilidades de diálogos."

Um livro com referências atuais. De identificação fácil. Uma escrita simples. Mas as ideias que voam umas para as outras. Reflexões de uma vida de um cérebro que não pára. Defeitos como todos temos. Doença? Talves várias. Procura incessante de libertação de si mesma. De encontro com a gentileza a leveza do dar sem receber. Liberdade.

"Liberdade pode ser isto - nenhum peso nas mãos."
E
"Ainda não aprendi a nadar para fora da rebentação."
Profile Image for Francisco.
100 reviews
June 9, 2026
Achei o estilo muito diferente, muito fixe. No início custou-me a habituar. Estava a ler num ritmo frenético, mas a voltar muitas vezes atrás para reler porque sentia que não estava a absorver bem ou a perceber tudo.
Li assim até ao fim do dia 12.
Depois do encontro no clube de leitura, recomecei com o intuito de escolher melhor os momentos em que devia ler mais rápido ou parar para analisar um pouco mais, e de tentar absorver sempre alguma coisa mesmo nos momentos mais frenéticos para não voltar atrás. Acho que consegui.
O livro parece-me poesia em prosa. Muito sublinhável, dos mais sublinháveis que já li.
Profile Image for Ana Silva.
138 reviews3 followers
July 13, 2026
3,5 ⭐️
Tive muita dificuldade em entrar neste livro. Talvez porque escolhi começar sem fazer ideia da sua história.

Tem um ritmo muito próprio e uma linha narrativa nada linear, passando muitas vezes da primeira pessoa para a terceira - às vezes até na mesma frase. Esta dinâmica foi difícil para mim, inicialmente.

A meio do livro fui percebendo que a história seria muito mais pesada do que eu imaginava. E aí, a escrita foi fazendo todo o sentido.

É um bom livro sobre o fim, sobre o quanto temos que assimilar na nossa cabeça para o conseguir aceitar. Tudo isto escrito com um vocabulário muito rico.
Profile Image for Álvaro Curia.
Author 2 books604 followers
Review of advance copy received from Publisher
March 9, 2026
Tenho tantas notas mentais depois de ler este livro, que tive de as passar para o papel. É um assombro. A Marta Pais Oliveira consegue traçar imagens poéticas de um quotidiano em estilhaços, uma personagem em corte, com idioma próprio, que orbita em torno da sua própria existência.

É uma das (ou “a”) principais vozes da nossa literatura atual e oxalá o que escreve seja sempre reconhecido. Porque reconhecível já é.
Profile Image for Cátia M..
12 reviews
May 31, 2026
Um poema é um poema, e um romance um romance. Mas a literatura portuguesa continua a insistir na prosa poética ou o que o valha. Isto não é um romance. Chega-se ao fim de cada página sem se lembrar do que se leu na primeira linha.
Profile Image for Pedro Fortes.
27 reviews10 followers
July 7, 2026
Muito reminiscente do livro "Body Kintsugi", da autora Senka Marić.
Profile Image for Juliana Garbayo.
128 reviews8 followers
July 29, 2026
Esse livro tem um ritmo próprio que o puxou mais pra poesia na minha leitura, embora seja um romance. O tipo de livro que prefiro ler sem tanta preocupação quanto a pormenores lógicos, mais voltada ao que a leitura faz sentir a cada momento.

Uma mulher que abandonou algo importante e agora rouba bolsas de mão de mulheres com a desculpa de que estaria supostamente tentando aliviá-las do peso que carregam. E no meio cruza com personagens que nem sempre fica claro se existem na realidade ou na sua imaginação e lembranças.
Profile Image for Anabela Lopes.
Author 5 books118 followers
Read
June 21, 2026
Não é o meu tipo de livro ou de escrita, tive muita dificuldade em entrar na "história" (meto entre aspas porque não há exatamente uma história ou um fio condutor). A nossa narradora fala na primeira e na terceira pessoa - aspeto que me fez alguma confusão, principalmente até entender que assim era - e tem o pêndulo da morte a guiar esta série de divagações. A escrita é cuidada, não há como negar, mas é um daqueles livros sobre o qual pouco sei dizer após a leitura.
Displaying 1 - 27 of 27 reviews