Neste segundo volume da trilogia biográfica de Lula, Fernando Morais reconstitui os anos finais da ditadura até a vitória do ex-líder sindical em 2002 como o primeiro presidente operário da história do Brasil.
Mantendo o ritmo eletrizante do primeiro volume, no qual acompanhamos Lula até a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) e sua disputa ao governo de São Paulo, em 1982, Fernando Morais dá seguimento ao projeto de esmiuçar a vida da figura política mais relevante da nossa história recente. A partir de informações inéditas, esta sequência perpassa o esgotamento da ditadura, as Diretas Já, o embate com Collor nas eleições de 1989, o Plano Real de FHC e culmina na vitória das eleições presidenciais em 2002. Autor de obras canônicas da não ficção nacional, Morais examina anos centrais da construção política de Lula e a trajetória que redefiniu os rumos do país.
Jornalista desde 1961, trabalhou nas redações do Jornal da Tarde, Veja, Folha de S. Paulo e TV Cultura.
Recebeu três vezes o Prêmio Esso e quatro vezes o Prêmio Abril de Jornalismo. Foi deputado estadual durante oito anos (pelo MDB-SP e depois pelo PMDB-SP) e secretário da Cultura (1988-1991) e da Educação (1991-1993) do Estado de São Paulo. É autor dos roteiros das minisséries documentais Brasil 500 Anos e Cinco dias que abalaram o Brasil, exibidas pelo canal GNT/Globosat.
Escreveu, entre outros, Transamazônica (Brasiliense, 1970, com Ricardo Gontijo e Alfredo Rizutti), A Ilha (Alfa-Ômega, 1975, reeditado pela Companhia das Letras em 2001), Olga (Alfa-Ômega, 1985, reeditado pela Companhia das Letras em 1993), Chatô, o rei do Brasil (Companhia das Letras, 1994), Corações sujos (Companhia das Letras, 2000), Cem quilos de ouro (Companhia das Letras, 2002), Na toca dos Leões (Planeta, 2004) e Montenegro (Planeta, 2006).
Tem livros traduzidos em dezenove países. Em 2001 Corações sujos recebeu o Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não-Ficção. Em 2004 Olga foi transformado em filme pelo diretor Jayme Monjardim, tendo sido visto por mais de cinco milhões de espectadores e indicado pra representar o país no Oscar de 2005. É membro do Conselho Político do jornal Brasil de Fato e do Conselho Superior da Telesur, TV pública latino-americana sediada em Caracas, Venezuela. É membro da Academia Marianense de Letras, onde ocupa a Cadeira nº 13, que teve como primeiro titular o presidente Tancredo Neves.
O Fernando Morais conseguiu de novo. Como o primeiro volume, o segundo "tomo" da trilogia em progresso do Lula é escrito de maneira hipnótica que torna difícil de largar o livro. O problema é que talvez em nome dessa fluidez, todas as épocas pós Diretas Já retratadas se assemelham mais a um resumão do que a relatos detalhados dos 15 anos seguintes. O desenho das campanhas de 1994, 1998 (na qual Lula teve Brizola como vice após década de ataques que um fez ao outro - informação sequer citada) e 2002 é extremamente apressado.
A eleição em que Lula finalmente vence marca também o casamento do petista com a velha política. Óbvio que isso é comentado, mas faz falta mais detalhes e relatos sobre esse giro. Como reagiram companheiros da velha guarda do partido à Carta ao Povo Brasileiro e a escolha de José de Alencar como vice? Para Fernando Morais, isso não parece ser uma dúvida relevante.
Lula, volume 2 se assemelha mais a uma introdução ao período em que a maior liderança da história do Brasil tentou e não conseguiu se eleger Presidente do que um relato exaustivo desses anos. Pessoalmente, eu tenho preferência pela segunda categoria de biografias.
É um bom livro, mas sofre na comparação com o primeiro volume, que é espetacular.
O primeiro tem mais vida real e consegue traçar um perfil psicológico interessante de Lula. Este é quase por inteiro uma compilação de campanhas eleitorais.
Independentemente do que você leitor ou leitora dessa resenha possa pensar acerca da pessoa e, ou do político Luís Inácio Lula da Silva, é indiscutível que ele é uma das figuras mais emblemáticas e destacadas da política brasileira das últimas décadas. Nascido no dia 27 de outubro de 1945 na pequena cidade de Caetés no interior do estado de Pernambuco, migrou junto com a mãe e irmãos e irmãs para São Paulo em busca de vida melhor e oportunidades. Conviveu com a mais abjeta pobreza na infância e na adolescência e com a brutalidade de seu pai mas, teve, sempre na mãe, amorosa e muito presente, uma espécie de referência e âncora. Completou apenas o primário, estudou no Senai onde se formou torneiro mecânico, envolveu-se nas atividades sindicais, brilhou como líder operário, sofreu na carne a repressão da ditadura militar que, mais de uma vez o enviou à cadeia enquadrando-o na “Lei de Segurança Nacional”, teve um início claudicante na política, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), e foi do “céu” das seguidas eleições para a presidência da República de onde saiu com recorde de aprovação e popularidade ao “inferno” dos polêmicos processos na “Operação Lava-jato” e dos mais de 500 dias de prisão após a condenação que foi submetido pelo também polêmico juiz Sérgio Moro. O autor dessa biografia é escritor consagrado já tendo escrito best sellers como “Olga” e Chatô, o rei do Brasil” (já adaptados para o cinema) além do polêmico “A Ilha” (onde tece rasgados elogios ao “socialismo moreno” de Cuba) e o eletrizante “Corações Sujos” em que descreve com muita verve e talento um obscuro, mas muito interessante fato histórico que atormentou a colônia japonesa no Brasil na época da Segunda Guerra Mundial. Tendo obtido livre acesso a Lula desde 2011 o autor acumulou extenso volume de informações que o levaram a propor à editora Cia das Letras a divisão dessa biografia em três volumes. No volume 1, lançado em 2021, o autor desenvolveu um relato que não respeita uma sequência cronológica. Os fatos e processos da vida de Lula vão e vem no tempo e no espaço o que torna a narrativa muito agradável e muitas vezes surpreendente. O livro começa na segunda metade do século XXI, narrando o drama provocado na vida de Lula pelos polêmicos e nada imparciais processos que redundaram em condenação e prisão a mando da “Operação Lava-jato” e do juiz Sérgio Moro. Subitamente o autor muda o foco da narrativa para as humildes origens de seu biografado com todos os seus dramas e perdas. O foco muda para o dia a dia na prisão e sua posterior libertação em função da desmoralização da “Operação Lava jato” e do juiz Sérgio Moro e da avaliação do STF de que o processo estava irremediavelmente contaminado pela precariedade das provas e pela parcialidade do juiz e dos promotores que teriam agido em conluio. O destaque desse primeiro volume, a meu ver, são os interessantes esclarecimentos acerca da posição ideológica de Lula que, admirador de Getúlio Vargas, nunca foi comunista e sim um ferrenho defensor de políticas baseadas na necessidade de redistribuir o lucro gerado dentro da dinâmica do sistema capitalista através da união da classe trabalhadora e da luta sindical. Tudo isso como forma não de destruir o capitalismo e sim de obter concessões salariais e melhoria das condições de vida e trabalho. No final do primeiro volume um interessante apêndice em que Fernando Morais mostra como o tratamento de Lula pela grande imprensa sempre foi parcial e com um tom condenatório a priori. O volume 2, escrito de forma impecável por Fernando Morais, permite leitura fluida que torna difícil o ato de largar o livro, e é estruturado de forma mais linear do que o volume anterior abordando o período que que vai das “Diretas Já” (meados da década de 80 do século passado” à consagração alcançada na vitória nas eleições presidenciais de 2002. Vale a pena reproduzir trechos do capítulo 6 de “Lula: volume 2” em que o autor descreve a atuação de Lula no período em que ele foi deputado federal constituinte (segunda metade da década de 80 do século passado):
A passagem pela Constituinte serviu, primeiro, para exibir um Lula soberano nas urnas: com 651 763 votos, ele se convertia no parlamentar mais votado da história do país. Ele próprio, no entanto, reconheceria que o Parlamento não era um hábitat adequado a sua personalidade, estilo e formação. – Percebi que aquele campo não era o meu. Se eu fosse por ali poderia quebrar a cara muito rapidinho. Qualquer deputadozinho de meia-tigela, eleito com 5 mil votos, podia ir à tribuna e fazer um discurso me dando um esporro. E a imprensa publicaria, porque era contra o Lula, sacou? Então eu comecei a perceber… Bom, meu lance não é esse. Ou seja, eu não vou entrar nessa bola dividida porque isso aqui tem vida curta. Aquele negócio podia projetar um cidadão em uma semana e afundá-lo em um dia. [...] A despeito da severa autoavaliação, Lula foi um deputado constituinte ativo e prolífico. Do dia seguinte à instalação da Assembleia Nacional Constituinte, 2 de fevereiro de 1987, até seu final, em outubro de 1988, ao ser promulgada a nova Carta, ele conseguiu incluir doze propostas de artigos. Nos vinte meses de duração da Constituinte, ocupou a tribuna em 71 oportunidades, o que revela que quase uma vez por semana utilizava o grande expediente para defender as propostas do PT, sem contar os apartes e questões de ordem – intervenções que regimentalmente deveriam ser curtas, quase telegráficas, mas que os parlamentares utilizam para falas às vezes mais longas que seus próprios discursos. Mas o que melhor resume a participação do Partido dos Trabalhadores na Constituinte está no longo pronunciamento feito por ele no dia 4 de fevereiro, no quarto dia após a instalação dos trabalhos. [...] Expressou preocupação com as tentativas de setores conservadores – incluindo militares, empresários e autoridades governamentais – de limitar a soberania da Constituinte e restringir a participação popular. Seu discurso desenha o que era o Brasil de 1987: um país com 135 milhões de habitantes em que 7 milhões de pessoas concentravam a riqueza nacional enquanto 14 milhões de aposentados viviam na miséria, 13 milhões de brasileiros consumiam menos calorias que o mínimo necessário, e cerca de mil crianças menores de 1 ano morriam de fome diariamente. Essa realidade de extrema iniquidade, prosseguiu, era agravada pela violência no campo, pela repressão policial e pelo peso da dívida externa de 110 bilhões de dólares. Como alternativa, Lula propunha uma Constituição que garantisse distribuição justa de renda, reforma agrária, valorização do salário mínimo, democratização dos meios de comunicação e revogação das leis repressivas herdadas da ditadura militar. Enfatizou que a verdadeira soberania da Constituinte só seria alcançada com ampla participação popular, defendendo a realização de plebiscitos e a transmissão pública dos debates. O tom do discurso era ao mesmo tempo de denúncia e de convocação à mobilização. Lula alertava que, sem pressão organizada das ruas, a Constituinte corria o risco de ser capturada pelos interesses das elites. A fala terminava com um chamado à ação, convocando o povo brasileiro a se manter vigilante e ativo no processo de construção democrática, e reafirmando o compromisso do PT com os trabalhadores e com a construção de um Brasil mais justo e soberano”.
A descrição e a análise acerca de um Lula hoje pouco comentado – o Lula parlamentar – é um dos pontos altos desse livro. Os críticos dessa obra podem argumentar (nesse caso com razão) que o texto de Fernando Morais é claramente influenciado pela sua relação pessoal de antiga amizade com Lula, mas o fato é que, um olhar atento sobre o livro revela que Morais não poupa o seu biografado de críticas muito bem colocadas geradas por episódios como as derrotas seguidas para Franco Montoro (que o derrotou fragorosamente numa disputa para o governo de SP em 1982) e as derrotas para Fernando Collor de Mello em 1989 e para Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998, derrotas provocadas, no entender do biógrafo, por incompetência no ato de montar alianças viáveis e pela inabilidade de Lula e do PT em lidar com a popularidade do “Plano Real”. No entanto, a meu ver, a imparcialidade do autor será posta a prova quando do lançamento do volume três que, certamente abordará as espinhosas questões do “escândalo do mensalão”, o impeachment de Dilma Roussef, a “Operação Lava-jato”, a atuação do juiz Sérgio Moro, a condenação e a prisão de Lula e o advento do “bolsonarismo”. Aguardemos. Esse volume 2 é tão bom quanto o volume 1 e é indicado para todos aqueles interessados em saber (muito) mais acerca da política brasileira nas últimas décadas e sobre um de seus principais personagens. Excelente e informativa leitura além de obrigatória como forma de “driblar” os preconceitos e as Fake News nestes “tempos estranhos” que estamos atravessando.
Menos eletrizante que o primeiro, mais prosaico. O primeiro tem muitos fatos, muitas notícias. Este tem mais desenhos da personalidade e psique de Lula. Não obstante, tem a vitória emocionante de 2002, ne? Emblemática.