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Escuta: Poemas

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A morte é o principal tema de Escuta. Suicídios, assassinatos e guerras surgem por vezes em cenas que parecem saídas de noticiários. É também significativo que uma das seções do livro tenha por título “Memórias póstumas”: agrupam-se ali textos que condensam os estados afetivos mais extremos.

Para equilibrar esse quadro, uma das partes do livro se chama “Alegria”. O leitor vê-se então arrastado por um feixe intenso de cores, vibrações e desejos.

Decididamente urbanos, os poemas percorrem uma vasta geografia, que tanto podem remeter ao extermínio e ao aniquilamento quanto se voltar para um Brasil distante das capitais.

Neste livro, tomamos parte numa penetrante escuta do mundo. Alargando ao extremo os limites da expressão lírica, o poeta lançou-se ao encontro de experiências, cenas, fatos, personagens, palavras, e em tudo reconhecemos tempos e espaços contemporâneos construídos por uma voz singular.

128 pages, Paperback

First published March 9, 2015

17 people want to read

About the author

Eucanaã Ferraz

46 books15 followers
Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro, em 18 de maio de 1961. Publicou, entre outros, Desassombro (2002, Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional), Rua do mundo (2004), Cinemateca (2008, Prêmio Jabuti), Sentimental (2012, Prêmio Portugal Telecom de Poesia), Escuta (2015), e, para o público infanto-juvenil Bicho de sete cabeças e outros seres fantásticos (2009) e Palhaço, macaco, passarinho (Prêmio Ofélia Fontes, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, o Melhor Livro para a Criança). Organizou vários livros, entre eles, Letra só (2003) e O mundo não é chato (2005), ambos de Caetano Veloso; reuniu poemas e letras de canção na antologia Veneno antimonotonia (2005); após preparar a Poesia completa e prosa de Vinicius de Moraes (2004), passou a coordenar a edição das obras do poeta (Companhia das Letras). Publicou, na coleção Folha Explica, o volume sobre Vinicius de Moraes (2006).

É Professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e, desde 2010, atua como Consultor de literatura do Instituto Moreira Salles, onde elabora publicações, exposições, debates, cursos e espetáculos.

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Profile Image for Raquel.
394 reviews
October 17, 2020
Tão magnífico que quer ser lido outra vez. E talvez outra. E outra...

"Estão certas todas as canções banais letras convencionais
seus corações como são de praxe; estão certos os poemas
enfáticos inchados de artifícios à luz óbvia da lua
ou de estúpidos crepúsculos; os sonetos mal alinhavados
toscos estão certos bem como as confissões íntimas
não lapidadas reles nem polidas; ouçamos o que dizem
sobre qualquer coisa; dizem não vai dar certo; repetem;
e se o verso é trivial é o mais sagaz quanto mais pueril
mais seguro quanto mais frouxo mais sólido quanto
mais rasteiro mais a toda prova e quanto mais barato
e quanto mais prolixo o alexandrino mais legítimo;
as formas desdentadas vêm do fundo; as odes indigestas
dizem tudo; o verso oco não traz menos que a verdade
nua e ponto. Estão certos os romances de aeroporto;
a quem busca um modelo procure o estúpido; se deseja
uma estrela de primeira grandeza escolha o simplório
é o que digo não busque senão na aberração a sinceridade
e no disparate a franqueza; prêmios literários não passam
de hipocrisia; estiveram desde sempre certos os erros
de tipografia; o contrassenso deve ser o mandamento
de quem precisa disfarçar o mal-estar após mostrá-lo
sem pudor; sim a saudade arde exatamente como
nos roteiros dos filmes mas só as fitas mais chinfrins
e com fins infelizes não mistificam e dizem de antemão
o que seremos: redundância errância perfeição."
Profile Image for Elizete Nicolini.
205 reviews4 followers
June 1, 2016
A capa de Escuta, livro de Eucanaã Ferraz, logo avisa: a morte é seu tema principal. E, de fato, há muita morte nos poemas: morte física, morte de amores, morte de ilusões e de identidades. Talvez contaminada, eu parti, em minha leitura, em busca dessas várias mortes, seguindo as divisões temáticas propostas pelo autor: Orelhas, Ruim, Alegria, Memórias Póstumas e Orelhas.

Encontrei uma poesia fortemente prosaica. Os poemas, ora concisos ora longos, seguem a tradição modernista. Eles parecem experimentações criativas, sem qualquer forma fixa, usando-se dos enjambements. Os títulos-temas são inusitados, mas parecem seguir o ritmo proposto pelo autor. A pontuação, com a ausência de vírgulas, levou-me a releituras e a remontagem dos poemas.

Em diferentes momentos, senti a presença de Camões, Cabral, Drummond, Bandeira e Fernando Pessoa. Sem mais me ater à forma e às referências, deixei-me levar pelos sentimentos e pela minha busca das mortes.

Com certeza, a morte é mais recorrente na parte “Ruim”. Em manter o cinto afivelado encontramos uma bateria de causas e de fragilidades humanas diante da morte: Você tem doenças transmissíveis deficiência/ física ou mental é usuário de drogas ou viciado?/ Sim eu meus amigos parentes e antepassados;/ além disso nos apaixonamos facilmente/todos nós facilmente fáceis também mentimos/com habilidade nos suicidamos de mentira/por vício sofremos de verdade morremos/de doenças transmissíveis mentais mas sobretudo/ornamentais drogas livros sexo melancolia/alegria banzo câncer medo de avião (p. 20).

A constatação da morte física dos conflitos armados é a marca de Cada pétala pondera: cada pétala pondera os soldados mortos/ as autoridades que pedem o fim dos bombardeios/ (p. 25) e também de E da terra abandonada, onde lemos que as botas funestas/esmagam a luz e a água (p. 27).

A lamentação e crítica ao inconformismo de Na curva deste minuto também se apela o choro aos fadistas diante do fato de que Há mortos no chão praça./Centenas. Quem os recolhe?/A vida não nos devolve/ e há mísseis no céu de maio (p. 33).

Memória e morte se unem em Apenas se diverte – todos os cadáveres vão ao chão do mês passado/ ou da infância tanto faz; a memória não tem planos/apenas se diverte com nosso espanto ri de nossos/monumentos de nosso esquecimento (p. 34).

E, a morte do amor surge em Quando já desfeita a mímica - quando houve a esperança/de um pedido de socorro,/a palavra, quando veio,/bateu num muro fechado/ a morte era inevitável. Nesse mesmo verso, a desilusão com a vida é evidente: Alguém duvida que a vida/ é um negócio perdido em que ninguém acredita? (p. 43).

A passagem fugaz do tempo, nossa impermanência e a desesperança de um encontro banal com a morte é visto no final do poema (Rápidos e vão embora): até que - às vezes é assim/morremos hoje – um após/ o outro virão dias/e dias sem nós/sem que nunca venha/ o dia do juízo. (p. 47).

Em Index, Um cavalo morto não pode ler poemas e mais adiante, na ultima frase, Meu pai não pode ler este poema, sentimos toda a dor e o absurdo da perda e, no meio disso, a poesia. Em Sem saber o que fazia, a banalidade da violência do cotidiano e, novamente, a absurdez dos assassinatos é disparada na lebre psicodélica – Sua mulher estava bebendo café quando bang! /disparou a lebre (p. 50).

Já em Ruby Passion, a sombra da pulsão suicida ronda uma mulher aparentemente comum – tudo com voz calma põe a coluna ereta/faz inspirações e expirações profundas/enquanto aperta com a mão direita/ o revólver que o marido esconde (p. 52).

No último poema da parte Ruim, Nessas horas num momento, temos a reação comum de quando somos comunicados da morte de um conhecido:
nunca sei o que dizer nessas horas num momento/ assim a única coisa a fazer é consolar a família/não poderei ir ao velório (p. 53).

Na parte intitulada Alegria, a morte não é mais o tema central, mas não desaparece de vez. Vai surgindo aos poucos sob novas perspectivas, como no poema Belo, onde a eternidade e o espírito se juntam: Soube a impressão de eternidade quando diante da tua juventude/intuí que a imagem duraria através de mim e para além/dos meus olhos mesmo depois de eu morto/....no teu limite humano a extensão indizível/do que outros chamariam o espirito (p. 72).

Também em Beira-Mar quando o alívio da constatação de não ser o afogado o homem observado, leva até a uma tímida e, aparentemente involuntária, evocação de Deus /digo o nome Deus (p. 81).

Dos extremos morte e vida, no entanto, escolhe-se a face viva da moeda. Se tudo te parece frágil é verdade frágil é tudo;/mas venho te dizer que tudo permanecerá vivo/nesta hora em que te digo agora (p. 83). Também declara-se que ninguém morreu nunca em nenhum lugar e ninguém jamais morrerá em lugar nenhum (Sur p. 94).

Na parte Memórias póstumas, é a morte do amor, o que concentra o poeta. Logo de início ele constata: Tenho morrido mais do que posso e depois termina em que ora dedico `a memória de todos os amantes/ mortos em combate. (p. 99 e 100). Em Des – não basta que a pele esqueça; é necessário que toda a memória/ do corpo desapareça; mas o amor/ é lentamente que se mata (p. 114).

Depois da devassidão das mortes, o autor finaliza o livro, voltando às Orelhas e, nos faz escutar uma receita – Eu te digo que é preciso não morrer no poema. E então, como na Declaração em Juízo (Drummond. Impurezas do Branco.1968) - peço desculpas de ser o sobrevivente.


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