A capa de Escuta, livro de Eucanaã Ferraz, logo avisa: a morte é seu tema principal. E, de fato, há muita morte nos poemas: morte física, morte de amores, morte de ilusões e de identidades. Talvez contaminada, eu parti, em minha leitura, em busca dessas várias mortes, seguindo as divisões temáticas propostas pelo autor: Orelhas, Ruim, Alegria, Memórias Póstumas e Orelhas.
Encontrei uma poesia fortemente prosaica. Os poemas, ora concisos ora longos, seguem a tradição modernista. Eles parecem experimentações criativas, sem qualquer forma fixa, usando-se dos enjambements. Os títulos-temas são inusitados, mas parecem seguir o ritmo proposto pelo autor. A pontuação, com a ausência de vírgulas, levou-me a releituras e a remontagem dos poemas.
Em diferentes momentos, senti a presença de Camões, Cabral, Drummond, Bandeira e Fernando Pessoa. Sem mais me ater à forma e às referências, deixei-me levar pelos sentimentos e pela minha busca das mortes.
Com certeza, a morte é mais recorrente na parte “Ruim”. Em manter o cinto afivelado encontramos uma bateria de causas e de fragilidades humanas diante da morte: Você tem doenças transmissíveis deficiência/ física ou mental é usuário de drogas ou viciado?/ Sim eu meus amigos parentes e antepassados;/ além disso nos apaixonamos facilmente/todos nós facilmente fáceis também mentimos/com habilidade nos suicidamos de mentira/por vício sofremos de verdade morremos/de doenças transmissíveis mentais mas sobretudo/ornamentais drogas livros sexo melancolia/alegria banzo câncer medo de avião (p. 20).
A constatação da morte física dos conflitos armados é a marca de Cada pétala pondera: cada pétala pondera os soldados mortos/ as autoridades que pedem o fim dos bombardeios/ (p. 25) e também de E da terra abandonada, onde lemos que as botas funestas/esmagam a luz e a água (p. 27).
A lamentação e crítica ao inconformismo de Na curva deste minuto também se apela o choro aos fadistas diante do fato de que Há mortos no chão praça./Centenas. Quem os recolhe?/A vida não nos devolve/ e há mísseis no céu de maio (p. 33).
Memória e morte se unem em Apenas se diverte – todos os cadáveres vão ao chão do mês passado/ ou da infância tanto faz; a memória não tem planos/apenas se diverte com nosso espanto ri de nossos/monumentos de nosso esquecimento (p. 34).
E, a morte do amor surge em Quando já desfeita a mímica - quando houve a esperança/de um pedido de socorro,/a palavra, quando veio,/bateu num muro fechado/ a morte era inevitável. Nesse mesmo verso, a desilusão com a vida é evidente: Alguém duvida que a vida/ é um negócio perdido em que ninguém acredita? (p. 43).
A passagem fugaz do tempo, nossa impermanência e a desesperança de um encontro banal com a morte é visto no final do poema (Rápidos e vão embora): até que - às vezes é assim/morremos hoje – um após/ o outro virão dias/e dias sem nós/sem que nunca venha/ o dia do juízo. (p. 47).
Em Index, Um cavalo morto não pode ler poemas e mais adiante, na ultima frase, Meu pai não pode ler este poema, sentimos toda a dor e o absurdo da perda e, no meio disso, a poesia. Em Sem saber o que fazia, a banalidade da violência do cotidiano e, novamente, a absurdez dos assassinatos é disparada na lebre psicodélica – Sua mulher estava bebendo café quando bang! /disparou a lebre (p. 50).
Já em Ruby Passion, a sombra da pulsão suicida ronda uma mulher aparentemente comum – tudo com voz calma põe a coluna ereta/faz inspirações e expirações profundas/enquanto aperta com a mão direita/ o revólver que o marido esconde (p. 52).
No último poema da parte Ruim, Nessas horas num momento, temos a reação comum de quando somos comunicados da morte de um conhecido:
nunca sei o que dizer nessas horas num momento/ assim a única coisa a fazer é consolar a família/não poderei ir ao velório (p. 53).
Na parte intitulada Alegria, a morte não é mais o tema central, mas não desaparece de vez. Vai surgindo aos poucos sob novas perspectivas, como no poema Belo, onde a eternidade e o espírito se juntam: Soube a impressão de eternidade quando diante da tua juventude/intuí que a imagem duraria através de mim e para além/dos meus olhos mesmo depois de eu morto/....no teu limite humano a extensão indizível/do que outros chamariam o espirito (p. 72).
Também em Beira-Mar quando o alívio da constatação de não ser o afogado o homem observado, leva até a uma tímida e, aparentemente involuntária, evocação de Deus /digo o nome Deus (p. 81).
Dos extremos morte e vida, no entanto, escolhe-se a face viva da moeda. Se tudo te parece frágil é verdade frágil é tudo;/mas venho te dizer que tudo permanecerá vivo/nesta hora em que te digo agora (p. 83). Também declara-se que ninguém morreu nunca em nenhum lugar e ninguém jamais morrerá em lugar nenhum (Sur p. 94).
Na parte Memórias póstumas, é a morte do amor, o que concentra o poeta. Logo de início ele constata: Tenho morrido mais do que posso e depois termina em que ora dedico `a memória de todos os amantes/ mortos em combate. (p. 99 e 100). Em Des – não basta que a pele esqueça; é necessário que toda a memória/ do corpo desapareça; mas o amor/ é lentamente que se mata (p. 114).
Depois da devassidão das mortes, o autor finaliza o livro, voltando às Orelhas e, nos faz escutar uma receita – Eu te digo que é preciso não morrer no poema. E então, como na Declaração em Juízo (Drummond. Impurezas do Branco.1968) - peço desculpas de ser o sobrevivente.