Nesta obra que se equilibra entre ensaio e memórias, o autor do consagrado romance Diário da queda trata de temas como desejo, passagem do tempo e morte.
O que a obra de Renato Russo, artista romântico que morreu precocemente, teria a ver com a de J. M. Coetzee, cerebral e octogenário vencedor do Nobel de Literatura? Partindo dessa pergunta inusitada, Michel Laub escreve uma obra de difícil classificação, tendo como fio condutor a relação do autor com as drogas, em especial a cocaína.
Os impasses daí surgidos moldam um livro breve e corajoso, que ironiza elementos da psicanálise e das narrativas de superação. Numa época de incertezas trazidas pela tecnologia e pela política, Verão na Névoa é uma resposta possível ao cinismo e à melancolia.
"Um trabalho surpreendente de um escritor sempre original." — Maria Esther Maciel
"Impossível não admirar a coragem deste Verão na névoa, atordoante e mesmerizante." — Sidarta Ribeiro
Michel Laub was born in Porto Alegre, in 1973, and lives in São Paulo. He is a writer and journalist, he was editor-in-chief of Bravo magazine and coordinator of publications and internet at Instituto Moreira Salles. Today he is a columnist for Folha de S.Paulo, in addition to collaborating with several publishers and vehicles. He published six novels, all published by Companhia das Letras: Música Anterior (2001), Longe da água (2004), O segundo tempo (2006), O gato diz adeus (2009), Diário da queda (2011, with rights sold to the cinema)) and A maçã envenenada (2013). His books have been released in 12 countries and 9 languages. He is one of the members of the edition The best young Brazilian writers, of the English magazine Granta. He received the JQ - Winagte (England, 2015), Transfuge (France, 2014), Jabuti (second place, 2014), Copa de Literatura Brasileira (2013), Bravo Prime (2011), Bienal de Brasília (2012) and Erico Verissimo awards (2001), in addition to being a finalist in the Correntes de Escrita (Portugal, 2014), São Paulo de Literatura (2012 e 2014), Portugal Telecom (2005, 2007 e 2012) e Zaffari&Bourbon (2005 and 2011) awards.
Leituras de 2026 . Verão na névoa [2026] Michel Laub (1973-) Cia das Letras, 2026, 106p. _____________________________ “Ser autobiográfico na literatura traz um desafio específico: em algum ponto a escrita precisa transcender aquilo que é meramente egoico, sem que o resultado deixe de ser um impulso do ego em sua essência” (Pág Kindle 53). .
Terminei ontem o novo trabalho de Michel Laub, "Verão na névoa", e ainda estou processando a experiência, já que fui com a expectativa de encontrar uma biografia de Renato Russo e me deparei com algo muito mais complexo e desafiador. O livro propõe um sofisticado jogo literário que utiliza a estrutura narrativa de “Verão”, de J.M. Coetzee, criando um mosaico onde o real e o inventado se confundem para explorar temas como memória e identidade. Para quem, como eu, acompanha o autor desde “O tribunal da quinta-feira”, fica claro que Laub continua mestre em subverter gêneros, entregando uma obra que foge da cronologia linear e exige fôlego para absorver o diálogo constante com a literatura sul-africana. É aquele tipo de leitura que deixa um "não sei se gostei" persistente, mas que, justamente por não sair da cabeça e provocar esse estranhamento, mostra o poder de uma narrativa que se recusa a ser óbvia. . Além dessa estrutura experimental, o que mais prende a atenção é como a figura de Renato Russo deixa de ser apenas um ícone da música para se tornar um pretexto para discutir as nossas próprias frustrações e as contradições do Brasil. Ao mimetizar esse estilo de Coetzee, Laub nos força a questionar o que é verdade na memória coletiva e o que é apenas uma projeção da nossa necessidade de heróis. É uma leitura que incomoda justamente por não entregar o conforto de uma biografia tradicional, mas que recompensa quem aceita mergulhar nesse nevoeiro onde a ficção e a realidade se chocam de forma brilhante e, por vezes, angustiante. Esse livro, embora curto (um ensaio?) dá no que pensar!
Verão na Neva não está, para mim, à altura literária de obras extraordinárias de Michel Laub como *Diário da Queda*, *Passeio com o Gigante* ou *Solução de Dois Estados*. Trata-se de um livro muito mais assumidamente autobiográfico — desta vez, aparentemente sem o filtro da autoficção que costuma marcar parte de sua obra — em que o autor revisita sua relação com a cocaína e os anos consumidos pelo vício.
Ao longo do relato, Laub intercala referências a Renato Russo e constrói um mergulho doloroso, às vezes exaustivo, nas profundezas da dependência química. O resultado é menos um romance e mais um testemunho, um acerto de contas público com uma experiência que o marcou profundamente.
Para quem já aprecia a obra do autor, o livro tem um interesse adicional: ajuda a compreender a origem de memórias, temas e episódios que reaparecem em seus romances. Descobri, por exemplo, que a história do menino que morre afogado em *Longe da Água* teve inspiração em um acontecimento real.
Tenho a impressão de que *Verão na Neva* nasceu mais da necessidade de falar sobre um problema do que da intenção de produzir literatura. Ainda assim, porque é Michel Laub quem escreve, acaba produzindo arte no processo.
De um ponto de vista formal, é muito mais aberto do que eu pensava, até para um ensaio, e fiquei esperando algum insight mais direto entre Coetzee e Renato Russo ao final da leitura. Há uma busca por sutileza, e uma enxurrada de confissões que sugerem que uma confissão maior está sempre prestes a irromper, mas ela não vem. Em compensação, parece, ao final da leitura, que o que se deu foi a construção de um pequeno mapa, ou pistas para uma revelação que se fará apenas pela combinação entre o que existe neste ensaio e o caminho para as ficções do autor. Só essa sensação pra mim já é um trunfo de Verão na névoa, porque o livro termina, paradoxalmente, apontando para a obra geral de Laub e para a tensão entre arte e vida que ocupa seus romances, assim como os romances de muitos escritores contemporâneos.
Gosto muito do modo como revelações muito frontais são encadeadas sem muita firula, num estilo direto, clínico (para usar um adjetivo que o autor emprega para a prosa de seu estimado Coetzee), que é sempre muito sedutor, mesmo que tudo possa ser facilmente lido (e talvez não deixa de ser) como apenas as confissões de um escritor branco em crise de meia idade. O ensaio orbita em torno desse problema, que pode parecer idiota pra muita gente: pode um autor branco e “privilegiado” publicar esse tipo de confissão, e ela interessa a alguém? Que a questão pareça tão ridícula é justamente a força dessa voz que avança a cada página. À queixa de que “ninguém aguenta mais o sofrimento do macho branco”/”ninguém aguenta mais ouvir esse ponto de vista”, o escritor responde: sinto muito, mas é só o que tenho.
É curioso como um escritor que sempre foi acusado de praticar autoficção aqui, nesse ensaio, revele de fato um estilo mais próximo ao de autores como Ernaux (na franqueza bem talhada) ou Carrère (na autoconsciência neurótica e brutal) do que em seus outros livros. As obras de ficção são iluminadas, mesmo Diário da Queda, no seu aspecto mais imaginativo e ficcional. É como se o autor dissesse, ok, agora vocês vão pegar um pedacinho de mim de verdade, e acho que vai doer um pouco em vocês também. É incômodo, mas é de se pensar o quanto de nosso desconforto tem a ver com a nossa inabilidade para absorver esse tipo de questão levantada pelo texto. Como leitores, parece que não queremos ler/ouvir esse tipo de relato, contado dessa forma. Algo de muito interessante aconteceu aqui, quando a barreira do constrangimento foi ultrapassada tantas vezes.
Um livro preocupado com sutilezas: o que há de relevante nisso na terceira década do século XXI? Qual o impacto de um livro confessional diante de um mercado onipresente, que uniformiza a particularidade — a dissidência que poderia vir dela — para seguir explorando, poluindo, concentrando renda, precarizando o trabalho?
Michel é Renato, Verão é o Coetzee, Névoa e a cocaina e o livro dança em torno dos 6. Especialmente bom quando fala sobre vaidade e se faz vulnerável. Quero ler outros dele.