Jacarandá conta a história de Milan, garoto criado em um subúrbio de Paris, filho de pai francês e mãe ruandesa. Em 1994, ano do genocídio ruandês perpetrado pelos hútus contra os tútsis, Milan se depara com as imagens desse conflito exibidas pelos jornais franceses. Tempos depois, embarca numa viagem de retorno a Ruanda, buscando entender os silêncios profundos de Venancia, sua mãe, e as origens de sua família nesse país. Lá conhece Stella, filha de Eusébie, sobrevivente dos massacres. Através do seu olhar, acessa o sofrimento de um luto coletivo ainda em curso. Conhece também o ímpeto de uma sociedade que almeja se reinventar coletivamente depois da experiência do horror extremo.
Se Jacarandá é sobre a dor e as feridas abertas do genocídio ruandês, ele é também uma ode à vida. Com escrita poética e ouvidos atentos, o autor mobiliza afetos, revisita memórias, evoca gestos mínimos que sustentam a humanidade diante da catástrofe. Ao longo da narrativa, os conflitos não são apagados, tampouco resolvidos, eles ganham forma no entrelaçamento de vozes e no esforço cotidiano de reconstruir vínculos. Como a árvore que dá título ao livro, cujas raízes atravessam gerações, o romance acolhe os mortos e afirma a força de permanecer vivo num mundo cindido, que trilha com coragem os caminhos difíceis da reconciliação.
Nascido no Burundi, Gaël Faye é escritor, compositor, rapper e cantor franco-ruandês. Jacarandá, sucesso de público e crítica em diversos países, é o seu segundo romance.
French-Rwandan Gaël Faye is an author, composer and hip hop artist. He was born in 1982 in Burundi, and has a Rwandan mother and French father. In 1995, after the outbreak of the civil war and the Rwandan genocide, the family moved to France. Gaël studied finance and worked in London for two years for an investment fund, then he left London to embark on a career of writing and music. He is as influenced by Creole literature as he is by hip hop culture, and released an album in 2010 with the group Milk Coffee & Sugar. In 2013, his first solo album, Pili Pili sur un Croissant au Beurre, appeared. It was recorded between Bujumbura and Paris, and is filled with a plethora of musical influences: rap laced with soul and jazz, semba, Congolese rumba... In 2018 he received the prestigious Victoires de la Musique Award. Small Country is his first novel. It was a huge bestseller in France, winning the Prix Goncourt des Lycéens 2016, and is being published in thirty territories worldwide.
Primeiramente, uma prosa magnífica. Foi o livro que li mais rapidamente este ano, até agora. (238 págs.) Em segundo lugar, parabéns pela tradução de Mirella Botaro e Raquel Camargo. Por que ler sobre o sofrimento dos refugiados? Bem, porque, se não exercitarmos essa revisitação de dores do passado, corremos o risco de acreditar que aquelas atrocidades são apenas notícias ou História que ficou para trás — como se estivéssemos, hoje, em um patamar moral muito superior. O Genocídio de Ruanda resultou na morte brutal de um milhão de pessoas. E foi fruto de um ódio semeado deliberadamente a serviço de interesses europeus. A divisão iniciada pelo colonialismo perdura até 2026, manifestando-se em expressões como "nós somos europeus, eles não" e "indiano preguiçoso"... O livro é lindo e me lembrou um pouco *Atrás queda la tierra*, obra em que uma mãe desabafa e relata ao filho, em forma de diário, o peso que ela e seu povo carregam. Este livro pareceu-me um espelho dessa obra: aqui, um filho que não recebe respostas da mãe precisa reconstruir, peça por peça, o relato de atos atrozes ocorridos antes de ela chegar à França. Adorei.