Escrito em 1995-2000, O Ócio Criativo, de Domenico de Masi, incorpora o Zeitgeist da época com uma obviedade cômica — o liberalismo venceu a batalha ideológica da modernidade e resta guiar os ímpetos do sistema no caminho correto com algumas doses de pseudo-marxismo social-democrata.
Para além de alguns insights e comentários interessantes, o livro, apesar do título, trata muito pouco do ócio criativo em si, focando em críticas ao capitalismo, à tradição e à religião, com ares característicos da debilitada e patética esquerda pós-91. Domenico De Masi, personificando as correntes da época, é incapaz de conceber um mundo verdadeiramente diferente daquele apresentado pelo liberalismo, limitando-se a criticar o sistema e lutar (no caso da obra, esperar) por uma redenção gradual através do avanço técnico que, teoricamente, libertaria o homem do trabalho e lhe colocaria no confortável posto do ócio criativo, que mistura o estudo, o trabalho e o lazer.
A obra faz algumas observações que se tornaram parcialmente reais. Os denominados "Digitais", o novo grupo ou identidade cultural de pessoas que cresceram no ambiente virtual, são caracterizados, segundo Masi, por:
• Sensibilidade ecológica/militância sustentável.
• Entusiasmo pela "multicoexistência" (cultura, raça, religião).
• Falar inglês e outras línguas.
• Amor pelo rock e pela arte pós-moderna.
• Desinibição nas relações sexuais.
• Ausência de ideologias fortes.
• Identificação com cantores e artistas.
• Tecno-otimismo.
Em outras palavras, o futuro de Masi era um de hippies digitais globalizados, iluminados pela ciência neutra e, portanto, libertos das correntes da tradição, da religião e das raízes.
Masi, como todo liberal, compreende a história como uma progressão linear em direção a um futuro cada vez melhor, mais iluminado, mais racional e científico, mas simultaneamente feminino em sentido de abarcar o aspecto emotivo e cooperativo da humanidade.
O presente, entretanto, corrige essas previsões que, apesar de corretas em alguns pontos, falharam em entender os grandes movimentos da história. O mundo, pós-2001, trilhou um caminho diferente do previsto por Masi. A lógica estéril do liberalismo desenraizado se mostrou incapaz de sustentar uma identidade de "cidadão do mundo", participante dessa suposta Aldeia Global. O número de dissidentes políticos cresce de forma generalizada, mas especialmente nos grandes centros onde o globalismo liberal reinou sem entraves, como os EUA e a Europa Ocidental. Dessa forma, a desilusão e a escassez de propósito da cosmovisão liberal — que aposta no ócio e na redenção hedonista-material como projeto escatológico — levou os diferentes povos (e não indivíduos!) a buscar respostas políticas alternativas, mais apropriadas ao deserto da pós-modernidade.
Nesse sentido, vemos um aumento da juventude religiosa, de extremistas políticos e, no geral, de tendências que rejeitam os mandamentos pós-modernos cultuados por Masi como "progresso". Podemos rebater alguns pontos que definiam o indivíduo "Digital" proposto na obra:
• O tema do ambientalismo, extremamente politizado, divide a geração criada na internet.
• Há uma fadiga crônica do multiculturalismo em países com grande fluxo de imigrantes, refletindo no aumento de políticas anti-imigração.
• A arte pós-moderna não goza do apreço sugerido por Masi, aumenta a rejeição pela arte massificada.
• Há indícios de um cansaço da fluidez dos relacionamentos modernos, do "sexo livre".
• Crescimento dramático de "ideologias fortes" — não chegamos no Fim da História de Fukuyama.
• A postura geral é de tecno-pessimismo, especialmente com a explosão das IAs, estando as pessoas conscientes das consequências de uma economia virtualizada depois da experiência da crise de 2008.
O último ponto é crucial para entender o quão irrelevante a obra se tornou. O progresso da técnica, além de livrar as mãos do trabalho, acabou livrando as mentes dos processos criativos defendidos pelo Ócio Criativo. É claro que é perfeitamente possível (e correto) argumentar que o conteúdo gerado por IA não é arte e é incapaz de substituir um humano no processo de criação. Entretanto, saindo do domínio artístico para o econômico, o horizonte não é tão otimista — uma caminhada por qualquer centro urbano fornece qualquer evidência empírica para os desacreditados: banners e fachadas, designs de marca/logos, animações, edições, textos, reportagens, redações, trabalhos acadêmicos, vozes e até músicas são agora produzidas em massa por IAs.
É impossível, sem uma mudança estrutural, combinar o sugerido "jogo + estudo + trabalho", quando o avanço da técnica, o próprio princípio redentor, inviabilizou o Ócio Criativo ao roubar da classe trabalhadora um dos pilares necessários — o trabalho.
Assim, a esterilidade ideológica do Zeitgeist pós-91 impregnada na obra — com a falsa linearidade histórica, incapaz de entender o novo contexto dos "Digitais" e o advento das IAs — fez a obra mais interessante enquanto relíquia de outra época, de um futuro perdido, do que propriamente uma análise política relevante.