A história de uma mulher que chocou a sociedade parisiense do século XIX. A Marquesa de Paiva não tinha uma única origem, mas sim muitas circunstâncias. Mulher de índole forte e perseverante, com uma vontade de aço, La Païva lutou sem tréguas contra o destino, para se libertar da pobreza, e enriquecer tornou-se o grande objectivo da sua vida, a sua maior preocupação. O berço não lhe concedeu vantagens nem lhe facilitou a vida, mas deixou-lhe a convicção de que não valia a pena viver se não fosse para ser rica.
JOÃO PEDRO GEORGE nasceu em Moçambique, a 13 de Fevereiro de 1972. Licenciado em Sociologia, Mestre em Sociologia Económica e Histórica e Doutor em Sociologia da Cultura, com a tese Luíz Pacheco: maldição e consagração no meio literário português, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde leccionou entre 1998 e 2008, como professor assistente convidado. É autor de obras como O Meio Literário Português (1960-1999), Não é Fácil Dizer Bem, Puta que os Pariu! A Biografia de Luiz Pacheco ou O Que é um Escritor Maldito? Estudo de Sociologia da Literatura. Em paralelo, depois de ter colaborado na imprensa (O Independente e Periférica), na secção de crítica literária, divide a sua actividade como tradutor, editor de textos, revisor tipográfico e ainda como escritor-fantasma, trabalhos que lhe permitiram, durante anos, viver exclusivamente da escrita.
Ela arruinou duques, condes, banqueiros e dezenas de homens com poder e vasta fortuna. A Marquesa de Paiva, conhecida também como La Païva, nasceu no seio de uma família judia sem posses, em Moscovo, em 1819. (...) A mais inimitável de todas as prostitutas francesas do século XIX, uma idólatra de jóias, chega ao culminar da sua ambição ao se casar com o homem mais rico da Prússia, o Conde Guido Henckel von Donnersmarck (...) 'Marquesa de Paiva' está eficazmente escrito duma forma objectiva e entusiástica, revela uma biografia engenhosamente trabalhada, o que estimula o leitor da primeira página à última. João Pedro George (n. 1971) recriou uma biografada absolutamente real, a transbordar sedução e maledicência. A Marquesa de Paiva tinha um poder de sedução inigualável, que enfeitiçava os homens, e com a ajuda do autor de 'Puta que os Pariu! A Biografia de Luiz Pacheco' (...)
A “Marquesa de Paiva” com o subtítulo “O destino extraordinário de uma aventureira do amor”, descreve, utilizando os recursos literários do ensaio, da ficção, do romance e dos testemunhos coevos, a biografia de uma das cortesãs mais famosas do século 19.
“Nas ogivas das catedrais góticas, no rosto macerado dos santos dos altares e no olhar lascivo das prostitutas se vislumbra o sorriso satânico do dinheiro”, reflexão de um autor desconhecido com a qual o sociólogo João Pedro George abre a narrativa, cujo coeficiente permanecerá, ao longo de todo o livro, na ambição desmedida, compulsiva, quase inenarrável de uma mulher que tudo fez para a obtenção de uma catapulta social donde decorreria uma forma de estar, de ser e de viver, caracterizada pelo luxo extremo, pelo conforto desmedido, pelo maquiavelismo exacerbado, pela propulsão incrivelmente hedionda, na minha perspetiva, em realizar todos os sonhos e desejo por uma vida carregada de luxo e ócio onde o afeto, a emoção, os eflúvios da paixão não existiam; apenas o panegírico, a idolatria, a obsessão, a submissão ao vil metal que tudo transforma, que tudo dá, riqueza e posição social, “amigos” e amantes tudo cozinhado no caldeirão da ganância.
Já na introdução, George nos dá a conhecer a personagem que viríamos a acompanhar nas 239 páginas do livro. “Gulosa de homens ricos, famosos e poderosos, estava sempre à espreita da primeira ocasião de encontrar um grande capitalista ou um herdeiro de sangue azul, com muitos e grandes apelidos, dispostos a arruinarem-se por ela”.
Esther Pauline Lachmann nascera em 1819, na chamada Zona de Assentamento, na Rússia de Catarina, a Grande, casara-se aos 19 anos com um alfaiate francês, “nascido na Cidade Luz” de quem tivera um filho. Vivendo na mediocridade que muitos, sem razão, consideram a sua existência, abandonou a família, assim, da noite para o dia, procurando em Paris uma vida que lhe ofereceria “uma perspetiva mais ampla da existência”, permitindo-lhe “abrir os horizontes” da “promessa de um futuro melhor”.
Na verdade, a futura Marquesa de Paiva de compleições medíocres, mas algo excêntricas ou, se quisermos, exóticas por força de uma genética forte, consegue, após momentos de, não diria de desilusão, pois a ilusão em obter um estatuto socioeconómico e cultural acima das suas raízes se manteve mesmo nos momentos das maiores amarguras e descrédito, atingir o seu desiderato. Ou seja: conquistar um homem rico que lhe traria todas as possibilidades de uma ascensão social, logo financeira, que lhe permitiria atingir todos os níveis de possibilidades: joias, um guarda roupa sumptuoso, mansões e palácios, criados à disposição da perpetuação de um estado físico e “moral” à sua altura, ou seja, da perspetiva do mais exacerbado e conseguido materialismo.
Mas, depois de ter atingido esse “status quo” proveniente da sua “atividade de meretrício” depois de depenar, literalmente, Henri Herz, pianista famoso à época, “um dos mais célebres pianistas do seu tempo” com quem a Marquesa de Paiva viveria e que acabaria por se suicidar, à cortesã faltava-lhe um título nobiliárquico de modo a solidificar a sua desmedida ambição. Conhece, então em Paris o seu segundo marido, Albino Araújo de Paiva, um português designado como “estoura-vergas”, isto é, “um tipo despreocupado da vida, com fama de fabulosamente rico, pelas despesas que fazia e pela vida regalada que levava em Paris”. É lógico que uma personagem com tais qualificativos, atraiu logo a atenção da cortesã. Contudo, nada disso seria verdade pois o Marquês de Paiva encontrava-se numa posição de falência iminente. Mas com a ambição desmedida que caracteriza a conduta moral da Marquesa, esta não se opôs a um casamento que interessaria a ambas as partes: ela pagaria as suas dívidas e em contrapartida, conseguia adquirir o título ao qual ambicionara.
Mas a grande vitória para os seus objetivos materialistas, seria o seu terceiro casamento com o homem mais rico da Prússia, Guido Georg Friedrich Erdmann Heinrich Adalbert Graf Henckel von Donnersmarck, onze anos mais novo do que La Paiva e que também não resistiu aos encantos sexuais e eróticos de uma verdadeira bailarina de dança do ventre que a todos enfeitiça. E vai ser, nesta altura, que a Marquesa atingirá o seu apogeu egocêntrico, dissimulado, fátuo, fabricado nas suas intenções: e em toda a glória, surge no número 25 dos Champs Elysées o palacete mais bacoco, mais kitsch, mais revelador da nouvelle richesse de uma burguesa com laivos de superioridade intelectual. A descrição que o autor nos dá dessa habitação é algo sublime no seu mau gosto e mereceu um capítulo inteiro dedicado a essa incoagulável habitação para que pudéssemos compreender, na totalidade, a presunção da sua proprietária.
“Marquesa de Paiva” não nos marca, porém, apenas pela biografia de alguém que, com as suas idiossincrasias, acabaria por ter Paris aos seus pés. Narra, também, e isso para mim tem um valor intrínseco ao conhecimento e à avaliação das civilizações em determinados momentos, a história da França ao longo do século 19 que alterna as Repúblicas com os Impérios, com a Comuna de Paris, sendo um testemunho histórico da mais alta grandeza.
João Pedro George consegue prender-nos a esta narrativa da primeira à ultima página pois apresenta-nos, de forma factual, o projeto de uma mulher indomável nos seus desígnios e a contextualização histórica desses acontecimentos. Nota-se que houve um trabalho cuidado e de profunda investigação em que o autor, sabiamente, soube distinguir o boato do facto.
Especialmente escrito para quem gosta de conhecer a história das civilizações, neste caso, a francesa de Oitocentos, com toda a sua promiscuidade social, cultural e política. Para terminar, apenas uma nota para os participantes nesta narrativa: realço, entre vários, os irmãos Goncourt, (sim, o mesmo nome que, mais tarde, daria voz ao mais famoso prémio literário francês), críticos acessos à personagem da Marquesa de Paiva e dos seus intuídos.
Muitos motivos para nos apropriarmos de uma narrativa que considero excelente!