Restava saber de quem estava à espera, e impunha-se uma só variante – esperava pelo regresso da juventude, acreditando nisso religiosamente. Algures no fundo da sua consciência esperava pelos seus melhores tempos, esperava ganhar nova vida, despir-se daquela sua aparência, esperava desabrochar tal como noutros tempos desabrochava depois das férias.
Mais conhecida pela sua série de livros “There once”, dos quais infelizmente em Portugal só está traduzido “A Mulher que Tentou Matar o Bebé da Vizinha”, Liudmila Petruchévskaia retrata aqui, de forma igualmente inusitada e inclemente, uma família disfuncional cujos conflitos e interdependência são agravados pela precária situação económica na Rússia. Publicado no início dos anos 90, “Hora: Noite” dá conta de toda a jigajoga que a poetisa Anna Andriávona (“homónima mística” de Anna Andréevna Akmatoma) faz para sustentar a mãe internada, o filho ex-presidiário, a filha com a sua crescente prole.
- Qual dinheiro? – gritei – Que merda de dinheiro? Dou de comer a três bocas! Sim! E eu sou a quarta! Tudo o que há aqui é do meu sangue e do meu cérebro!
Exclamava assim, tendo na sacola uma nota de cinco e mais algum no banco, o seguro da minha mãe, mais uma parte atrás do rodapé porque, depois de ter contado tudo e a toda a gente que conhecia, arranjara cinco trabalhos de tradução a partir da tradução literal das línguas que não falava. Porque: o filho dissidente na prisão em resultado de uma caluniosa denúncia, a filha que foi mãe quase sem marido, dois estudantes universitários sem bolsa Às minhas sopas, e nasceu o neto, ah, oh, sapatos, fraldas!
Para sobreviver, concilia a profissão de tradutora e declamadora de poetisa com a escrita de cartas num jornal e faz esticar as pensões e abonos dos vários membros da família, além de aparecer convenientemente na casa dos seus conhecidos à hora das refeições.
Oh que vida será, é que sou poeta, está a ver, e os poetas vivem na miséria e noutra dimensão, acabam a vida caídos no esquecimento.
Depois das discussões e da azáfama do dia, é à noite, na casa silenciosa, que ordena os seus pensamentos, lê os diários que a filha esconde e escreve os “Apontamentos à Margem da Mesa”, que formam esta obra.
Acordei a meio da noite, a minha hora, noite, o encontro com as estrelas e com Deus, hora de conversa, aponto tudo.
A narrativa de “Hora: Noite” é frenética e caótica, um espelho da vida da histriónica e melodramática protagonista, expondo o atrito das relações familiares com mordacidade e humor negro.
Para que precisa de mais uma criança? Como é que deixou passar o prazo, por que não abortou? É claro como água. Caiu em si quando o feto já começava a dar empurrões com os pés, reconstituí tudo, toda a cena. Enquanto a mãe é lactante são frequentes os casos da ausência da chegada do Exército Vermelho, como já dizia a minha filha nas conversas com a sua Lenka: “O Exército Vermelho chegou, não vou à aula de ginástica.”