“Um Chapéu de Leopardo” é uma obra expositória, quase um retrato-robô extremamente literário, que, por isso, me manteve à distância e não me permitiu relacionar com as personagens. Através de um Narrador ficaríamos a conhecer Fanny, uma amiga de infância que se debateu com a saúde mental e acabou por se suicidar, mas o carácter episódico desta novela não funcionou de todo comigo.
Quando falava com Fanny ou passeava com ela, tinha presente na sua mente a Fanny duplicada, aquela mulher de chapéu de leopardo, de caracóis loiros e risonha que se mantinha atrás da cortina da sua ironia. Da mesma forma, pode dizer-se que ele a incluía na conversa e que, mesmo dirigindo-se à Fanny nº 1 com as precauções habituais – cada palavra produzia tantos ecos na sua amiga que era necessário sopesar nos pratos de uma balança de extrema precisão o peso de cada uma-, ele falava também um pouco com a Fanny nº 2. E esta, poderia ele jurar (mas enganamo-nos tantas vezes), ouvia. Como percebia ele isso? Por vezes, através de um pequeno vacilar no olhar ou numa das entoações da Fanny nº 1.
Curto, e quase delicado, um chapéu de leopardo lê-se num instante, mas fica a ecoar durante algum tempo… ainda que, no meu caso, não me tenha marcado tanto quanto eu esperava.
Neste livro a autora apresenta-nos a relação entre o narrador e Fanny, uma amiga de infância marcada por uma doença mental profunda. A história não segue uma narrativa linear nem tradicional, é feita de memórias, pequenos episódios e fragmentos que tentam captar quem é Fanny e o que ela representa. É, acima de tudo, um retrato de uma ligação intensa, mas também dolorosa.
Quando descobri que o livro foi escrito após a perda da irmã da autora consegui atribuir-lhe um peso completamente diferente. Sente-se que há aqui muito de luto, de tentativa de compreensão e até de homenagem. Isso torna tudo mais íntimo. Os temas em si são, sem dúvida, o ponto mais forte do livro para mim. A impossibilidade de salvar alguém, o amor que existe mesmo sem solução, e aquela oscilação constante entre momentos de leveza e um desespero silencioso são alguns de destaque.
Fanny é uma personagem que tanto pode parecer encantadora como profundamente perdida, e isso cria uma tensão muito interessante ao longo do livro. Mas, ao mesmo tempo, foi aí que senti alguma distância.
A escrita é bonita, sim, muito contida e até elegante, mas por vezes demasiado distante. A narrativa fragmentada fez com que eu nunca me sentisse totalmente envolvida, como se estivesse sempre a observar de fora em vez de sentir tudo com o narrador. Faltou-me ligação emocional em certos momentos e, para um livro tão focado na dor e na intimidade, isso é um ponto que não poderia falhar.
No geral, é um livro que reconheço como sensível e bem escrito, mas que não me tocou tanto quanto eu gostaria. Talvez pela forma como está construído, talvez por ser mais subtil do que aquilo que eu precisava naquele momento.
Um livro bonito, mas que, para mim, não é tão impactante como pensei que seria.
O livro é contado na terceira pessoa do Narrador, que enumera uma serie de episódios e reflexões sobre a sua amizade de longa data com Fanny, que sofre de várias perturbações do foro mental.
A narrativa fragmentada dificultou a ligação com os personagens. Foi difícil conhece-los e penetrar naquela dinâmica tão própria. Sendo um livro sobre um assunto tão frágil e pessoas tão vulneráveis, fiquei com pena que não me tivesse tocado mais.
Não obstante a escrita é sólida e fluída, com várias passagens muito especiais.