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Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia
Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia, do geógrafo Kauê Lopes dos Santos, é um mergulho na complexa realidade dos bairros paulistanos Jardim Helena, Brasilândia e Jardim Ângela para entender como o acesso ao crédito formal transformou o cotidiano da população de baixa renda, e de maioria negra, da maior metrópole do país.
Fruto de uma extensa pesquisa que inclui entrevistas com moradores dessas regiões, a obra desafia a visão otimista da “inclusão financeira”, revelando que a modernização do consumo coexiste com a precariedade estrutural. Santos observa que, enquanto o Estado e o mercado falham em oferecer saneamento e transporte de qualidade, as grandes redes de varejo são onipresentes e a compra parcelada é o motor dessa dinâmica: “Tudo aqui foi comprado parcelado”, resume Maria do Carmo, uma das entrevistadas, que se orgulha de sua TV de 43 polegadas, apesar de viver em uma casa que apresenta marcas de umidade e rachaduras.
Com uma fusão de análise de dados e observação do cotidiano de moradores das periferias, o autor demonstra, com linguagem direta e descomplicada, que se antes a população pobre e negra era excluída “de sistemas educacionais, mercados formais de trabalho e circuitos de valorização urbana”, hoje ela está inserida em outro processo que a torna “subordinada aos mecanismos do capital financeiro”. Ao argumentar que o crédito não é apenas um facilitador, mas um modo de gerir a escassez, Santos prova que as populações das periferias se veem diante de um endividamento crônico, que se tornou uma regra alienadora de futuros: “A gente não trabalha mais só para viver, a gente trabalha para não afundar”, relata Solange, moradora da Brasilândia que acumula três turnos de trabalho para quitar boletos.
Como diz o romancista Ferréz em seu texto de orelha, “as entrevistas [do livro] falam de mim, da minha mãe, do meu pai, da tentativa desesperada de ter algo que alivie esta vida dura”. Com posfácio do urbanista João Sette Whitaker Ferreira, Parcelado é um convite para refletir sobre a cidadania mediada pelo boleto, em que os objetos de desejo chegam antes dos direitos fundamentais.
Fruto de uma extensa pesquisa que inclui entrevistas com moradores dessas regiões, a obra desafia a visão otimista da “inclusão financeira”, revelando que a modernização do consumo coexiste com a precariedade estrutural. Santos observa que, enquanto o Estado e o mercado falham em oferecer saneamento e transporte de qualidade, as grandes redes de varejo são onipresentes e a compra parcelada é o motor dessa dinâmica: “Tudo aqui foi comprado parcelado”, resume Maria do Carmo, uma das entrevistadas, que se orgulha de sua TV de 43 polegadas, apesar de viver em uma casa que apresenta marcas de umidade e rachaduras.
Com uma fusão de análise de dados e observação do cotidiano de moradores das periferias, o autor demonstra, com linguagem direta e descomplicada, que se antes a população pobre e negra era excluída “de sistemas educacionais, mercados formais de trabalho e circuitos de valorização urbana”, hoje ela está inserida em outro processo que a torna “subordinada aos mecanismos do capital financeiro”. Ao argumentar que o crédito não é apenas um facilitador, mas um modo de gerir a escassez, Santos prova que as populações das periferias se veem diante de um endividamento crônico, que se tornou uma regra alienadora de futuros: “A gente não trabalha mais só para viver, a gente trabalha para não afundar”, relata Solange, moradora da Brasilândia que acumula três turnos de trabalho para quitar boletos.
Como diz o romancista Ferréz em seu texto de orelha, “as entrevistas [do livro] falam de mim, da minha mãe, do meu pai, da tentativa desesperada de ter algo que alivie esta vida dura”. Com posfácio do urbanista João Sette Whitaker Ferreira, Parcelado é um convite para refletir sobre a cidadania mediada pelo boleto, em que os objetos de desejo chegam antes dos direitos fundamentais.
- GenresEssaysNonfiction
175 pages, Kindle Edition
Published April 20, 2026
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Community Reviews
Displaying 1 - 13 of 13 reviews
August 6, 2026
o tema do livro da muito pano pra manga e por isso achei que ficou curto. ainda assim tá mais pra três e meio. quero escrever mais sobre mas preciso pensar primeiro
June 29, 2026
A ideia do livro é excelente, mas, na minha visão, a execução não analisou o que o título do livro prometeu. O que tem de mais rico são as entrevistas, mas não são a centralidade do argumento. Há dois capítulos quase inteiros de Estado da arte da geografia urbana e outras áreas, e depois muitos temas se abrem, até acesso à internet é mencionado. Por último, há uma espécie de controle moral sobre o endividamento, como se isso por si só fosse capaz de alienar o futuro dos sujeitos. Se o endividamento abre possibilidades de inserção, então como isso aconteceria sem o endividamento? E em que medida o endividamento aliena? Como deveria ser feito senão com a única opção de que dispõem numa sociedade capitalista? Isso não tira o mérito do livro, inclusive porque permite essas perguntas.
April 24, 2026
Excelente abordagem de Kauê Santos acerca das dinãmicas de consumo das famílias situadas em regiões periféricas em São Paulo — um recorte do que ocorre em todo Estado —, com um olhar sensível e atinente a um dos principais pontos estruturantes do endividamento crônico e da desigualdade social brasileira: o racismo.
Uma escrita envolvente e robusta, com relatos duros mas importantes de se ler para compreender as falhas de uma hierarquizada racialmente, excludente e patrimonialista.
Uma escrita envolvente e robusta, com relatos duros mas importantes de se ler para compreender as falhas de uma hierarquizada racialmente, excludente e patrimonialista.
May 18, 2026
"A pobreza, nesses termos, não é apenas a manifestação objetiva de uma ausência, ela é também uma pressão constante, uma tensão entre o que se tem, o que se deseja e o que se teme perder."
"os novos padrões de consumo, impulsionados pela ampliação do crédito formal, seriam capazes de superar a pobreza urbana? Ou estamos apenas diante da reconfiguração simbólica de uma mesma condição, agora recoberta por objetos que evocam modernidade, mas que coexistem com estruturas arcaicas de moradia, mobilidade e acesso a direitos? Afinal, o que significa consumir mais em contextos de escassez? O que significa acessar crédito em contextos de insegurança? E que tipo de cidadania é viabilizada por essa lógica? (...) os novos padrões de consumo não superam a pobreza urbana, eles apenas alteram a sua aparência. Sob o mesmo teto em que faltam saneamento e equipamentos públicos, operam dispositivos eletrônicos sofisticados, torres de wi-fi e boletos digitais. É a convivência simultânea entre estruturas precárias e bens de última geração, entre ausência de cidadania e hiperatividade de consumo."
"o fenômeno da pobreza urbana é, antes de tudo, um produto histórico. Não se trata de uma condição natural, tampouco de um fracasso individual, mas de um processo socialmente produzido ao longo do tempo, o qual está sedimentado em torno de assimetrias de poder que se traduzem nas formas desiguais de acesso aos recursos e de apropriação do espaço urbano. (...) os estudos sobre a pobreza nas cidades avançaram na direção de abordagens cada vez mais multifatoriais, que rejeitam a redução do fenômeno aos dados quantitativos de renda. A pobreza, nesses termos, não é apenas a manifestação objetiva de uma ausência, ela é também uma pressão constante, uma tensão entre o que se tem, o que se deseja e o que se teme perder. Essa percepção é atravessada por experiências acumuladas de privação.
5/5 ⭐
Excelente livro. O autor dá canetadas aos montes e me fez refletir muito sobre como se deu a inclusão de crédito no Brasil.
Em meio a discussões sobre o Programa Desenrola 2 no Governo, esse é um livro que explica um pouco de onde vem essa assustadora estatística de que mais da metade da população adulta brasileira está com o nome negativado. Uma população mais pobre que foi vista como mero mercado consumidor e foi incluída no consumo, a partir de publicidades muito fortes e mecanismos de pagamento com juros absuviso. Os objetos chegaram antes dos direitos. Ou seja, antes da educação financeira, antes da qualificação do crédito, a forma de inclusão social de uma parcela da população que se deu a partir do consumo de bens eletrônicos, mas antes do saneamento básico, do transporte de qualidade, do tempo livre, do lazer. E ao mesmo tempo que a inclusão chegou, veio com a incerteza de não conseguir pagar, veio com uma outra percepção subjetiva de pobreza que é ausência, tensão entre o que se tem e o que se teme perder.
Conclusão: excelente. Recomendo demais a leitura. Muito fluída e bem escrita. Reflexões importantíssimas sobre desigualdade e sistema financeiro no país
August 20, 2026
A conclusão é muito boa, conecta as duas partes do livro que, em seu desenvolver, ficaram um pouco soltas, e que podem até serem lidas de formas separadas. Parcelado, longe de ser apenas uma escolha de forma de pagamento, trás inúmeros aspectos sociais, raciais e históricos. É também uma forma moderna de manter as classes pobres de uma sociedade continuamente subalternizadas. Enquanto antes esta subalternização destas classes acontecia pelo não acesso à educação, ao mercado de trabalho formal, ou outros meios perversos, agora ela acontece por meio do constante reparcelamento e aumento de dívida, tendo em vista que para acessar bens de consumo como eletrodomésticos e eletroeletrônicos, as classes mais pobres tendem a contar com a opção de pagar parcelado. Ao fazerem uso do parcelado, tendem a pagar mais caro pelo mesmo produto que as classes mais ricas, que podem o fazer sem obtenção de juros. A conclusão faz este amarro bem com a primeira parte do livro, sobre o histórico da formação das periferias dd São Paulo, locais majoritariamente negros, onde se estrutura também a tendência ao “parcelado”.
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Read
May 15, 2026“A concretude do consumo […] esconde, muitas vezes, as complexas dinâmicas produzidas e catalisadas pelo processo de capilarização dos produtos das carteiras de crédito do sistema financeiro nacional. O endividamento, nesse mesmo processo, não é exceção, mas regra: uma rega que aliena futuros de sujeitos na periferia” (p.98)
“A pobreza, nesses termos, não é apenas manifestação objetiva de uma ausência, ela é também uma pressão constante entre o que se tem, o que se deseja e o que se teme perder” (p.109)
“…os novos padrões de consumo não superam a pobreza urbana, eles apenas alteram a sua aparência. Trata-se de uma pobreza recoberta por objetos de desejo, conectada às redes globais de consumo e moldada pelas dinâmicas contemporâneas do capital financeiro.” (P. 113)
“Trata-se de uma mutação contemporânea e indelével da pobreza: menos marcada pela carência absoluta e mais determinada por uma vida endividada, sustentada pela promessa sempre adiada de mobilidade” (p.115)
“A pobreza, nesses termos, não é apenas manifestação objetiva de uma ausência, ela é também uma pressão constante entre o que se tem, o que se deseja e o que se teme perder” (p.109)
“…os novos padrões de consumo não superam a pobreza urbana, eles apenas alteram a sua aparência. Trata-se de uma pobreza recoberta por objetos de desejo, conectada às redes globais de consumo e moldada pelas dinâmicas contemporâneas do capital financeiro.” (P. 113)
“Trata-se de uma mutação contemporânea e indelével da pobreza: menos marcada pela carência absoluta e mais determinada por uma vida endividada, sustentada pela promessa sempre adiada de mobilidade” (p.115)
August 24, 2026
Não consigo analisar o livro do ponto de vista acadêmico, pois não sou geógrafo. Já como literatura de não ficção, a obra me pareceu bastante superficial.
O autor parece ter seguido a estrutura da dissertação. Com isso, as primeiras 70 páginas serviam de introdução, versando sobre as mudanças sociais e econômicas gerais nas grandes metrópoles. O assunto do título ocupou dos míseros capítulos e ainda assim de forma bastante rasa.
Os depoimentos ajudam um pouco a trazer interesse ao texto, mas mesmo esses são apresentados de forma apressada e por vezes repetida.
No fim, achei o texto uma sequência de clichês sem algo novo sobre o assunto das relações de consumo na periferia.
O autor parece ter seguido a estrutura da dissertação. Com isso, as primeiras 70 páginas serviam de introdução, versando sobre as mudanças sociais e econômicas gerais nas grandes metrópoles. O assunto do título ocupou dos míseros capítulos e ainda assim de forma bastante rasa.
Os depoimentos ajudam um pouco a trazer interesse ao texto, mas mesmo esses são apresentados de forma apressada e por vezes repetida.
No fim, achei o texto uma sequência de clichês sem algo novo sobre o assunto das relações de consumo na periferia.
July 19, 2026
vi a indicação do livro na newsletters da seiva e me interessei logo de cara pelo tema e pela ideia, me pareceu uma versão contrária de “coisa de rico”. o livro traz reflexões e dados muito interessantes, mas eu senti falta dele explorar mais as entrevistas e as falas dos entrevistados. acho que em muitos momentos a quantidade de dados e porcentagem deixavam o livro maçante, acho que se tivesse mais da experiência das pessoas teria sido melhor e mais interessante de ser explorado. ele é um livro muito curto, por isso poderia ter mais. no geral, eu gostei :)
July 8, 2026
Kauê traz uma perspectiva fresca e muito importante sobre neoliberalismo para entender o Brasil atual.
Ajuda a responder por que há revolta, mesmo que tenhamos tido uma melhoria expressiva decondições de vida.
O livro abre muitas questões, e espero que Kauê continue sua pesquisa e lance novos volumes para ajudar a respondê-laa
Ajuda a responder por que há revolta, mesmo que tenhamos tido uma melhoria expressiva decondições de vida.
O livro abre muitas questões, e espero que Kauê continue sua pesquisa e lance novos volumes para ajudar a respondê-laa
August 10, 2026
Excelente ideia que foi executada pela metade. Acredito que seja uma linha de pesquisa muito rica, mas o livro em si deixou a desejar. Espero que haja uma parte 2 com maior riqueza de perspectivas dos entrevistados, interação com as instituições financeiras e estratégias de consumo e planejamento familiar. Os capítulos sobre urbanização foram pouquíssimo relevantes.
August 9, 2026
3,5/5
Como estudante de Geografia e admirador do professor Kauê, gostei bastante da obra e da bibliografia utilizada na escrita. Sinto que faltou explorar um pouco mais sobre as dinâmicas, mas entendo que é um assunto muito extenso. Estou ansioso para o próximo livro.
Como estudante de Geografia e admirador do professor Kauê, gostei bastante da obra e da bibliografia utilizada na escrita. Sinto que faltou explorar um pouco mais sobre as dinâmicas, mas entendo que é um assunto muito extenso. Estou ansioso para o próximo livro.
July 11, 2026
adorei!
dívida é projeto no brasil.
dívida é projeto no brasil.
August 3, 2026
achei muito basico, é realmente um livro para quem nao tem nenhuma familiaridade com o tema
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