Afagos reúne micro e pequenos contos que giram em torno de situações -limite. Nesses fragmentos líricos, o autor pinta pequenos quadros feitos de abandono, arrependimento, desilusão, culpa, medo, saudade, rancor, paixão, inveja ou desrespeito. Os subtextos e enigmas sugeridos pela leitura conferem ao leitor a tarefa de imaginar as cenas anteriores e posteriores a cada cena dramática.
Coletânea com 102 micronarrativas do artista José Rufino, "Afagos" tem alguns microcontos que eu realmente destacaria pela maneira com que manipulam a brevidade e se valem do subliminar (da tal "história oculta", ao gosto do Piglia) para encharcar sua narrativa com uma multiplicidade de sentidos (tão múltiplos quanto podem ser as suas leituras e a capacidade imaginativa do leitor). Porém, devo confessar que a maioria não me transcendeu à página, não me impactou a ponto de me obrigar a esse exercício narrativo de ir à terceira margem do que foi dito. Mais uma vez - acho que é esse meu grande problema com as microficções, haja vista os títulos do gênero que já resenhei aqui - a irregularidade saltou mais aos meus olhos, prejudicando a análise do todo.
[english below] As microficções compiladas por José Rufino neste Afagos não podem ser categorizadas como outra coisa que não horror; sobrenatural, corporal, ou simplesmente aquele que assombra a existência. São fragmentos de história contados num só fôlego e que giram em torno de todas as negações e dificuldades que se apresentam no cotidiano, geralmente numa embalagem que disfarça o conteúdo nefasto. Começo e fim de cada conto dependem do leitor e com o quê ele entra na leitura. // The microfictions compiled by José Rufino in this Afagos can't be categorized as anything other than horror; supernatural, bodily, or simply the one that haunts existence. They are fragments of history told in a single breath and revolve around all the denials and difficulties that present themselves in everyday life, usually in a package that disguises the nefarious content. Beginning and end of each tale depends on the reader and what he brings into the read.
Uma das primeiras leituras do ano e já começamos muito bem. Esse livro é feito de pequenos trechos, pequenos contos, sobre situações cotidianas. Um dos trechos, inclusive, traz o nome do livro, que é completamente irônico, não há nenhum afago no conto e nem nos outros mais de 100 contos do livro. Não conhecia o autor e comprei o livro por se tratar de uma edição da Cosac, mas me surpreendi muito com a escrita e com o conteúdo direto. É um livro inteiramente interpretativo e gosto muito disto. Por se tratar de fragmentos tão pequenos de situações, o leitor precisa imaginar o contexto, o que pode ter acontecido antes e, muitas vezes, também o que vem depois. Leitura muito recomendada!
Uma das melhores leituras do ano. O título "Afagos" é irônico. José Rufino não proporciona nenhum afago ao leitor. Sua prosa é concisa e cortante. O livro é uma reunião de dezenas de narrativas curtas, algumas de apenas poucas linhas. Para quem conhece, lembra Dalton Trevisan, mas sua voz é original e forte. Terminada a leitura, fiquei com vontade de ler de novo.