«Manhã» é o mais recente livro de poemas de Adília Lopes. Começa com uma epígrafe lapidar de Alexandre O¿ «(Pesquisas fazem-se em casa, já dizia a minha avó, que era escritora)». Infância, memórias, momentos comoventes, desconcertantes ou paradoxais, como neste poema onde a autora nos fala de Palavras «Em minha casa, detestávamos pessoas bem-falantes, palavras caras. De uma vez, apareceu a prima Maria Lucília a dizer já não sei porquê: Fiquei muito confrangida. Passámos a chamar-lhe a confrangida. Sempre que aparecia alguém na televisão a declamar poesia ou a falar de poesia, desligávamos a televisão.» Manhã de Adília Lopes
"Adília Lopes da Silva and Maria José de Oliveira Viana Fidalgo are one and the same person. They are me. As poppy is a poppy. And many other names that I don’t know. Adília Lopes is water in gaseous state, Maria José is the same water in solid form. I'm a woman, I'm Portuguese, I’m from Lisbon, I’m a poet, I'm a linguist (we all are), I'm a physicist, I'm a librarian, I'm an archivist, I'm shortsighted, I was born on 20 April 1960, I'm single, I have no children, I'm catholic, I have brown eyes, I measure 1.56 m, now I weight 80 kg, I use the short hair since 1981, the hair is dark brown with many white hairs. (...) it's clear that the poet is always the idiot of the family, the crazy one".
Gostei muito de muitas partes e muito menos de outras partes. Agradou-me o estilo confessional, a junção improvável de factos que apenas a memória identitária reconhece como unos. Como misturar peras e Barthes. Já citaram tantas passagens maravilhosas que me fico por uma: "Dou uma importância excessiva às coisas: blusas, frascos de remédios. Gosto muito de coisas e de nomes.(...) Para mim, os nomes são coisas."
CONTO «Era uma vez uma escritora tão poupada que não escrevia para não gastar papel e tinta.» 7/8/14 Página 73
Não é felizmente o caso de Adília Lopes, uma poetisa sui generis que revive o passado dos últimos 50/60 anos de Portugal através de objectos, acontecimentos, livros, filmes. Já tinha lido «Dias e Dias», talvez por isso lhe aponte uma certa repetição mas que não lhe retira o saber e o sabor das coisas.
«Chego à janela porque preciso de ar e de árvores. Ah, se não fosse esta velhinha janela onde me vou debruçar para ouvir a voz das cousas, eu não era o que sou.»
Adília não escreve apenas do que viveu pois vive em vários tempos por costume, observação e absorção: «Eu brinquei com brinquedos da minha mãe (…). Ainda tenho esses brinquedos todos. São sagrados. Nunca estraguei brinquedos.»
Em Duplex, página 72, escreve em 2/Agosto/ 2014:
«Tenho 54 anos e continuo a pensar como quando tinha 4. Sou feliz assim.
E ainda em Escola Politécnica, página 57:
«Ter vinte anos não foi bom para mim. É melhor ter 50 do que 20. É assim para muita gente mas as pessoas não dizem estas coisas.»
Adília: Give me five! As nossas semelhanças encantam-me.
“Não foi por estudar muito e por ler muito que adoeci dos nervos aos 21 anos, foi por viver num ambiente deprimente. O que me valeu foi ter estudado e lido muito. Estudar e ler é quase o melhor que há.”
Adília Lopes foi uma surpresa muito agradável. Ficam as partes que mais gostei abaixo:
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Escrever um poema escavar uma toca
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Palavras Caras
Em minha casa, detestávamos pessoas bem-falantes, palavras caras. De uma vez, apareceu a prima Maria Lucília a dizer já não sei porquê: - Fiquei muito confrangida. Passámos a chamar-lhe "a confrangida". Sempre que aparecia alguém na televisão a declamar poesia ou a falar de poesia, desligávamos a televisão.
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Chego à janela porque preciso de ar e de árvores. Ah, se não fosse esta velhinha janela onde me vou debruçar para ouvir a voz das cousas, eu não era a que sou.
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Ler e Estudar
(...) Entre os 15 e os 18 anos li o Em busca do tempo perdido todo em francês. Comprei na Buchholz. Tinha uma ideia infantil: achava que de volume para volume o francês de Proust seria mais difícil e eu podia não perceber. Só comprava um volume quando acabava de ler o volume anterior. Não tive dificuldades. Tinha o Petit Robert. Havia palavras que não vinham no Petit Robert. Não me afligi. Aos 21 anos recorri a uma psicanalista estúpida. Contei-lhe que tinha lido o Em busca do tempo perdido. Ela disse-me: Ainda não perdeu muito tempo! As professoras e as psicanalistas não leram livros. Percebi isto tarde. Não vale a pena. Não foi por estudar muito e por ler muito que adoeci dos nervos aos 21 anos, foi por viver num ambiente deprimente. O que me valeu foi ter estudado e lido muito. Estudar e ler é quase o melhor que há.
Para quem desdenha a poesia como forma de arte enfadonha, recomendo a leitura da obra de Adília Lopes. Atenção, não aconselhável a quem vê a poesia como forma de arte clássica e imutável. Li alguns poemas à cara metade (para quem poesia é sinónimo de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro) e fui premiada com ares de soslaio. De igual modo os li a uma colega da livraria e fui interrompida na minha declamação com exclamações de "não... não... não...". Já eu, confesso-o, recorri a este Manhã, muitas vezes depois do trabalho, com a certeza de me esperar um sorriso nos lábios ou até uma ou outra gargalhada. Quem diria que a Poesia era divertida?
Peras
"N'As Meninas Exemplares, a Sofia d'Os desastres de Sofia rouba peras porque tem fome, a madrasta não lhe dá de comer. Sofia é castigada por ser lambareira e ladra. Eu, em criança, não percebia como é que se podia gostar de peras. Percebia que se roubassem bolos de chocolate e folhados de salsicha, peras não. Não gostava de fruta. De peras não gostava. Anos mais tarde, li Barthes. Barthes diz que gosta de peras e eu passei a gostar de peras. Barthes pode estar a mentir. O poeta é um fingidor. Mas acho que Barthes não está a mentir quando diz que gosta de peras."
Palavrões
"A minha mãe em criança não sabia palavrões. De uma vez que estava zangada inventou: chichi cocó pum pum."
Anos 70
"Há que parar como diz a mulher do marido da Becel."
"Desde que comecei a dansar escrevo dansar com s como a Sophia. Danso na minha cozinha descalça. Danso sozinha para os gatos. Gosto de dansar sem música o tempo que a ampulheta do meu Avô Raul mede: 10 minutos. Posso virar a ampulheta ao contrário e dansar mais 10 minutos. Posso dansar assim até ao infinito. Tenho diabetes tipo 2, devo dansar por dia 30 minutos. Também ponho a caixa de música a tocar e danso. É a caixa de música que a minha mãe me trouxe do aeroporto de Frankfurt, no final dos anos 60, quando voltou de um congresso de Botânica em Darmstadt. Esta caixa de música é um abeto com um casamento de passarinhos à volta. É cor-de-rosa e verde. Há um romance de Stendhal que se chama Le rose et le vert. Ainda não li. Mas tenho o livro. Posso ler. Gosto de pensar nestas coisas enquanto danso. Enquanto danso, penso. Penso e giro. De girar e de gerir. Enquanto danso, raciocino, e raciocino melhor. Enquanto danso, rezo pela paz. Enquanto danso, descanso. O meu pâncreas melhora. Só coisas boas. Tenho uma cassette de rock jugoslavo que a minha intérprete em Sarajevo, a Amra, gravou para mim. Estive em Sarajevo em Maio de 1991 num encontro de poetas. Também danso rock. Dansar é leve e intenso como diz a Teresa Amado."
P30 “Gosto das cebolas/ e das pessoas/ Mas as pessoas/ são como as cebolas/ fazem chorar”
P69 “ Tive uma bisavó que deu tantos beijinhos a uma imagem do Menino Jesus que o Menino Jesus sumiu. É uma placa com a reprodução que um quadro de Correggio, Nossa Senhora de mãos inclinadas a adorar o Menino nas palhinhas. Agora Nossa Senhora parece que está a aquecer as mãos numa fogueira. Não quero ser irreverente.”
Adorei este livro da Adília Lopes. Há muito tempo que não lia os seus livros, e ainda bem que decidi regressar à sua poesia com este livro. É soberbo. A AL tem o poder de me comover, o que aconteceu de novo com este Manhã. Ainda me arrisco a ficar conhecido como o Confrangido ;)
"Vivi sempre em vários tempos" . Uma escrita nostálgica, divertida, uma ironia fina que nos põe a sorrir (e a pensar). "As professoras e as psicanalistas não leram livros. Percebi isto tarde. Não vale a pena." "Tenho 54 anos e continuo a pensar como quando tinha 4. Sou feliz assim."
Entrei ontem numa livraria para comprar um presente e não resisti a trazer este livro para mim. Esta tarde já o tinha lido de uma assentada. Já tinha saudades da poesia da Adilia, como quem tem saudades duma amiga que vê poucas vezes. Daqueles que não precisam dizer muito para dizer tudo. Eventualmente terei de o reler com mais calma, mas para já foi assim num sopro. E foi bom.
Dizia-se: não deixes para amanhã o que podes fazer hoje. E as tradutoras da Condessa de Ségur escreviam:
O que não se faz dia de Santa Maria faz-se noutro dia
O riso, a solidão, a angústia, a impossibilidade do amor, a inevitável desilusão e o sentimento de perda, fazem com que a sua poesia e simplicidade declarativa cimentem em nós uma realidade mais trágica que anedótica, pequenos fait-divers maravilhosos.
"Não foi por estudar muito e por ler muito que adoeci dos nervos aos 21 anos, foi por viver num ambiente deprimente. O que me valeu foi ter estudado e lido muito. Estudar e ler é quase o melhor que há."
"Todas as pessoas são bonitas. As modas é que são estúpidas."
Não sou um leitor assíduo de poesia. No entanto, ler a poesia de Adília Lopes — pseudónimo da poetisa e tradutora Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira — foi uma descoberta desconcertante. No seu estilo marcadamente infantil e naïf, retrata a vida mundana e a memória de uma forma singular e, porventura, única no panorama literário português.
A minha avó dizia quando matava uma pulga já ganhei o dia eu quando escrevo um poema bom digo como a minha avó já ganhei o dia
Lo más reciente de la poeta portuguesa, que ya ha publicado con Assírio & Alvim su poesía reunida. Un libro maravilloso, entonces, que se suma a la fascinante obra de Adília Lopes.
Na missa, uma velhota a cantar a ladainha a Nossa Senhora em vez de cantar stella matutina cantava estrela na cortina. Acho isto lindo.
Era uma vez uma escritora tão poupada que não escrevia para não gastar papel e tinta.
Olhó Rajá fresquinho. Olhá batatinha frita. A praia do Estoril há 50 anos. Nunca gostei de batatas fritas nem de gelados. Mas gosto de escrever estas coisas.
Uma médica psiquiatra disse-me nos anos 80: sempre que uma pessoa faz uma coisa bem feita é punida por isso.
Também não gostei nada de um conto alemão que a minha mãe me começou a ler em que uma rapariga se chama Frida. Não quis ouvir esse conto. Nunca o li. Uma rapariga não se pode chamar ferida.
Entre os 15 e os 18 anos li o Em busca do tempo perdido todo em francês. Comprei na Buchholz. Tinha uma ideia infantil: achava que de volume para volume o francês de Proust seria mais difícil e eu podia não perceber. Só comprava um volume quando acabava de ler o volume anterior. Não tive dificuldades. Tinha o Petit Robert. Havia palavras que não vinham no Petit Robert. Não me afligi. Aos 21 anos recorri a uma psicanalista estúpida. Contei-lhe que tinha lido o Em busca do tempo per-dido. Ela disse-me: Ainda não perdeu muito tempo! As professoras e as psicanalistas não leram livros. Percebi isto tarde. Não vale a pena. Não foi por estudar muito e por ler muito que adoeci dos nervos aos 21 anos, foi por viver num ambiente deprimente. O que me valeu foi ter estudado e lido muito. Estudar e ler é quase o melhor que há.
Chego à janela porque preciso de ar e de árvo-res. Ah, se não fosse esta velhinha janela onde me vou debruçar para ouvir a voz das cousas, eu não era a que sou.
"No meu bolo de aniversário, mais do que das velas, gostava das pralines. Esferazinhas prateadas sobre a neve, sobre a cobertura de claras em castelo e açúcar."
É o segundo livro da Adília Lopes que leio devorado.
Não sei se posso chamar poesia ao que li, porque são textos soltos, deambulações por aqui e por ali, sobretudo pela infância e juventude da autora. Mas é poesia o que sinto no final destas leituras.
São excertos de vida, de leituras, de momentos, de sentimentos que esses momentos suscitam, de tudo e de nada. Eu só sei que revivo um passado que não vivi e lembro-me de coisas que não estão na minha memória. E é uma sensação tão doce e quente, que não me apetece sair dali.
Já experimentaram Adília Lopes? Pelo menos façam-no uma vez. Se poetizarem como eu, digam-me 😊✨
(livro comprado ontem na FLL e devorado hoje. Os da minha estante berram, em motim ensurdecedor)
Adília Lopes, com a sua escrita despretensiosa e profundamente poética, oferece neste livro uma coleção de poemas que capturam a essência dos momentos quotidianos e das memórias pessoais. Através de uma linguagem simples e direta, a autora transforma experiências aparentemente banais em reflexões poéticas carregadas de significado.
O livro é uma viagem pela infância e pelas memórias da autora, onde pequenos detalhes do dia a dia ganham vida própria.
A atenção de Adília aos pormenores do quotidiano é belo e simples, demonstrando uma atenção invulgar aos detalhes que a rotina muitas vezes nos faz descurar.  
A simplicidade da sua linguagem não diminui a profundidade dos temas abordados. É uma obra que celebra a beleza das pequenas coisas, das memórias e dos momentos do quotidiano. Adília Lopes convida-nos a olhar para o mundo com olhos mais atentos e a encontrar poesia na simplicidade da vida.
Fiquei surpreendida com a facilidade com que este livro se lê: por um lado, porque são textos e versos curtos e, por outro, porque a forma como se expressa é acessível.
Não se revelou uma leitura consensual, atendendo a que nem todas as entradas me marcaram. No entanto, fascinou-me a forma como conjuga trivialidades, como se torna leve e cómica com tão pouco e como «dá uma importância excessiva às coisas». Numa das partilhas, a poeta afirmou que continuava «a pensar como quando tinha 4» anos e eu acho isso extraordinário, porque demonstra que ainda preserva a capacidade de se deslumbrar e de observar o mundo com ingenuidade, sem receio do ridículo.
Devorei numa hora,. O meu primeiro contacto com a autora com um belo livro poético para uma tarde de pré-consoada enquanto não há agitação em casa. Adília escreve da forma que escreve com profundidade e latitude porque ela é um produto versátil, inconformada e que desconstrói as intempéries sociais que a circundaram desde a sua infância. Este olhar às vezes dramático ou chocante mas cheio de sentimento vem também de, como ela escreve no final, de um "ambiente deprimente" em que viveu. Uma bela caixa de Pandora que comecei por abrir e encontrar esta "manhã"!!! Gostei muito.
ESTRELAS 《Na missa, uma velhota a cantar a ladainha a Nossa Senhora em vez de cantar stella matutina cantava estrela na cortina. Acho isto lindo.》
A MINHA BISAVÓ 《Tive uma bisavó que deu tantos beijinhos a uma imagem do Menino Jesus que o Menino Jesus sumiu. É uma placa com a reprodução de um quadro de Correggio, Nossa Senhora de mãos inclinadas a adorar o Menino nas palhinhas. Agora Nossa Senhora parece que está a aquecer as mãos numa fogueira. Não quero ser irreverente.》