É impossível entender o salazarismo em toda a sua extensão sem conhecer a figura singular de António Ferro. A originalidade do regime autoritário português, envolto numa cortina de brandos costumes habilmente tecida, é, de resto, uma resultante directa da sua intervenção; e a sua essência não pode, por isso, ser dissociada das manobras e expedientes que usou para construir a imagem política do ditador. Ao leme do aparelho de propaganda, foi a proa e o mastro do regime pró-fascista, manipulando os órgãos de Comunicação, perseguindo e excluindo adversários, falsificando hábitos e costumes e inventando tradições que nunca existiram - do Galo de Barcelos às Marchas Populares de Lisboa. Usando (e abusando) do poder que lhe foi criteriosamente entregue, sentou à mesa do orçamento intelectuais e artistas, arquitectando com eles a figura de um ditador messiânico num país pobre que dança o vira e o fandango. Levou a farsa panfletária ao ponto de comparar Salazar a «uma máquina de raciocinar», vergado ao «espectáculo» da sua inteligência. Verdadeiro workaholic - sempre solícito, venerando e obrigado -, manteve com o ditador uma intimidade única, testemunhando conversas privadas que nunca chegou a contar. Desassossegado, ambicioso e extremamente culto e criativo, foi o homem certo no lado errado da História. Orlando Raimundo traça-lhe nesta obra um retrato fiel.
ORLANDO RAIUMUNDO, licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais, estudou jornalismo em Paris e Tóquio, pós-graduou-se no ISCTE e foi assessor editorial do Instituto Politécnico de Lisboa. Enquanto profissional da Comunicação Social, ajudou a lançar o primeiro jornal da Guiné-Bissau e a fundar o Cenjor, foi redactor de O Século, Diário Popular e Expresso, tendo integrado o quadro redactorial deste semanário durante quase vinte anos, e escreveu os seguintes livros A Linguagem dos Jornalistas, A Entrevista no Jornalismo Contemporâneo, A Última Dama do Estado Novo, António Ferro: o inventor do salazarismo e O último salazarista: a outra face de Américo Thomaz.
Este é um livro que todos os portugueses deveriam ler. Orlando Ribeiro esmiuça a ascensão e queda de António Ferro, o homem para sempre associado à propaganda do Estado Novo. Um génio autodidata presunçoso, arrogante e sem escrúpulos, a quem devemos muitas das nossas tradições e costumes. Muito provavelmente o Estado Novo e o governo de Salazar teriam contornos diferentes se Ferro não tivesse dirigido o SPN, mais tarde convertido em SNI. O que, consequentemente, me faz indagar o que seria da nossa história recente se António Ferro estivesse estado do outro lado do regime e fosse, em última análise, boa pessoa.
António Ferro é uma figura interessantíssima, mas este livro é profundamente repugnante. Olha sempre para Ferro de um pedestal, notando-se o nojo que o autor tem do propagandista em cada frase. Eu entendo, porque este homem foi responsável por inúmeras façanhas que assolaram Portugal, mas não consigo levar a sério uma biografia com este tipo de escrita.
Gostaria de ter outro livro, com a informação sobre a propaganda realizada por Ferro, mas com outra forma de narrar os acontecimentos e menos arrogante.
A fantástica história de um trafulha encartado que - também por isso - não deixa de ser uma figura (e um figurão!) apaixonante com um percurso extraordinário. Ao mesmo tempo ambicioso e servil, imaginativo e oportunista, calculista e frenético, Ferro marcou a ditadura do Estado Novo e foi dela uma marca impressiva. Recomendo vivamente!
Na introdução (p. 11) temos António Ferro como cimentador do Portugal retardado e atávico do séc. XX. Logo à entrada do primeiro capítulo (p.15) temos que Portugal no fim do séc. XIX é um país muito atrasado. Intriga-me está lógica de que vindo «muito atrasado» do séc. anterior, o biografado cimente o Portugal retardado do séc. seguinte.
Em meras 4 páginas…
A propaganda tem coisas!…
Ainda na introdução (p. 13) «usando e abusando do poder que lhe foi concedido, Ferro sentou à mesa do orçamento intelectuais e artistas, arquitectando com eles a figura de um ditador messiânico num país pobre que dança o vira e o fandango.»
O trecho é um primor de inspiração literária e lapidar no estilo usado ad nauseam pelo morigerado jornalismo hodierno para qualificar a… democracia de Abril. Tire o A. dele «um ditador» e ponha-lhe «uma democracia», mude o vira e o fandango em festivais de cerveja e rockalhada e, a mesa do orçamento aparecer-lhe-á messianicamente muito mais justa! E o país pobre prestar-se-á como nunca ao epíteto de pobre país! — Se o conseguir entender…
Ao menos o vira e o fandango são nossos.
Mais um livro, enfim, sem fio (colagem de verbetes avulsos com capa de cartolina) com fito apenas de desfazer do Estado Novo. O regime tem tanto de odiado como de ganha-pão para todo o antifascistóide que vegeta democraticamente por aí. Não fosse a parasitice interesseira, não pareceria que quarenta e tal anos depois o sempre tão ciciado «fassismo» ainda surgisse tão papão, tão papão que metesse medo. Papões, bem se os topa... — Não diziam, cantigueiros, dos outros: «eles comem tudo»?... Da Joana come a papa foram eles que ensinaram melhor! Daqui aos papões foi um trago.
O volume, que me ofereceram de muito boa fé, foi arrematado por 1€ na Feira da Ladra. Uma inconfidência de verdadeiro valor. Ou a prova da barateza da intrujice nos tempos que correm!… O A. de mais esta maledicência sine qua non sobre o Estado Novo é apresentado ao leitor incauto com dois grandes qualificativos acima de toda a suspeita: «investigador» e «independente». Duas marcas ISO 9000 de qualidade e acreditação de qualquer pregador antifascista, mai-la sua rica propaganda.
Haverá mais suculento cartão de visita?
— Sim! — Diz que de profissão é jornalista.
Mais: entre pares desta estirpe, este A. é quem se mais tem dedicado «à pesquisa dos aspectos mais sombrios do Estado Novo.» Ora «sombrios» anuncia com alva clareza ao que vem. Ninguém cairá na ingenuidade de tomar «sombrio» pelo que se quede singelamente na sombra, desconhecido, e seja pertinente revelar; «sombrio» é claramente antes desdizer com baixeza do que se até já conhecia bem melhor contado, mas que se quere agitar por maldizente propaganda como tenebroso. Porém, qualificar com este lugar-comum o Estado Novo é necessário, mormente quanto os mesteirais de Abril afloram mais e mais estridentes ano a ano, mais e mais impantes dia a dia no seu mester de rapina. É preciso ir berrando mais alto para o abafar. Daí o afã crescente em denegrir o Estado Novo. Somente que, denegrir o Estado Novo pela maledicência sobre António Ferro (ou outro que fosse), é mera marca do rasteiro que se pode ser. E bate certo: ficamos informados do cariz do A. e do seu propósito. Dispensamos a leitura.
P.S.: O vir aquela virtuosa apresentação do A. jornalista, «investigador independente» chapada na badana de trás do livro é que se não compreende. Como cartão de visita, qualquer badana, sobretudo a traseira, não me cheira que abone. Que descuido!...