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Tecnofeudalismo: O que matou o capitalismo

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O capitalismo está morto. Bem-vindo ao tecnofeudalismoAs dinâmicas tradicionais do capitalismo não governam mais a economia. O que destituiu esse sistema foi o próprio capital e as mudanças tecnológicas aceleradas das últimas duas décadas, que, como um vírus, destruíram seu hospedeiro. Os dois pilares que sustentavam o capitalismo foram substituí os mercados deram lugar às plataformas digitais, que são verdadeiros feudos das grandes tecnologias, e o lucro foi substituído pela pura extração de rendas. Diante desse cenário, Yanis Varoufakis diz que o tecnofeudalismo é o novo poder que está remodelando nossa vida e o mundo, e é, atualmente, a maior ameaça ao indivíduo liberal, aos nossos esforços para evitar a catástrofe climática e à própria democracia. Com referências que partem da mitologia grega até a cultura pop, Varoufakis explica essa transformação revolucioná como ela escraviza nossa mente, como reescreve as regras do poder global e, por fim, o que será necessário para derrubá-la.

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Published April 1, 2026

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Yanis Varoufakis

69 books2,646 followers
Ioannis "Yanis" Varoufakis is a Greek-Australian economist and politician. A former academic, he has been Secretary-General of the Democracy in Europe Movement 2025 (DiEM25), a left-wing pan-European political party he co-founded in 2016. A former member of Syriza, he served as Minister of Finance from January to July 2015 under Prime Minister Alexis Tsipras.

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Profile Image for Gabriel.
63 reviews6 followers
July 2, 2026
Um livro às vezes pode tanta coisa. Pode ser uma carta para um familiar falecido, um manifesto político, um ensaio histórico, uma ficção científica distópica. Acho que Varoufakis consegue ser tudo isso, tudo ao mesmo tempo, mas de um jeito que deixa instigado para seguir a voz que encabeça essa narração quimérica.

Ao meu entendimento, o autor propõe um modelo explicativo e uma passagem do Capital que, após a crise de 2008, vai se solidificando numa espécie de deformação do capitalismo financeiro: uma abstração chamada capital-nuvem; embora ainda pertencente ao mesmo capital financeiro dos bancos e bolsas de valores, trabalha com um mercado que foi sendo mais e mais indispensável; a própria internet e nós, usuários.

Nesse mundo digital, mega corporações, as chamadas Big Techs, foram privatizando a ideia original da internet como uma rede livre de trocas – uma espécie de praça pública, ao meu ver, criada para expandir o intercâmbio de conhecimento científico e acadêmico nos seus primórdios – e exigindo cada vez mais de seus usuários à medida que propagandas, anúncios e a inteligência artificial preditora e modeladora de comportamentos se sofisticava.

Um mundo marcado por servos, vassalos e senhores tecnofeudais. Os primeiros, nós, usuários comuns, fomos sequestrados para esse mundo de redes sociais devido a nossa rede de amigos e entretenimento. Somos os que trabalham de forma gratuita para estes donos do feudo, através dos nossos dados de consumo e pessoais, enquanto “descansamos” no nosso repouso laboral. Num degrau acima, os vassalos: empresários, donos de fábricas, autônomos que, usando dessa terra de bytes, procuram capturar nossa atenção na venda de seus serviços e produtos. Por fim, os verdadeiros senhores desse ecossistema: os capitalistas-nuvem, donos das Big Techs, que hoje vivem com o que Varoufakis chama de renda das nuvens. Um pequeno quinhão pago – seja com dados ou com dinheiro – para habitar a tecnoesfera ou comercializar produtos ali.

O autor então dentro dessa premissa faz um passeio pela história da economia moderna até o ponto em que chegamos, tentando assim firmar seu argumento tecnofeudal. Confesso que foram vários os momentos de dificuldade em seguir as idas e vindas entre os preceitos do Marxismo, história dos movimentos econômicos e correntes da economia liberal para entender a culminância de sua tese. Muitas dessas dificuldades eu credito à minha ignorância nas ciências econômicas; uma outra parte delas, ao estilo prolixo do autor em explicar coisas como se fossem, por vezes, autoevidentes.

Um dos pontos críticos que me chamam a atenção no escrito de Varoufakis está localizado já passados dois terços do livro. É uma espécie de saudosismo falho dos tempos pré-internet, quando “a classe trabalhadora era relativamente homogênea, uma consciência de classe relativamente sólida permitia que ela colocasse pelo menos certo grau de pressão em governos social-democratas” (dos países desenvolvidos). O autor entende, na sequência, que “a luta de classe foi substituída pela dita ‘política identitária’” e que o clamor pela proteção das minorias e seus direitos assegurados substituiu a justiça reparatória, a única que realmente implicaria mudanças mais estruturais ao mexer em desigualdades de renda e propriedade abissais.

Ou seja, tratando da época da social-democracia, quando quase todos trabalhadores eram de chão de fábrica ou tratavam com algum produto manufaturado, essa homogenização da classe trabalhista era o que permitia os governos intervissem na mesa de negociações entre patrões e operários ou sindicatos, favorecendo os últimos. Havendo a passagem ao capital nuvem, com empregos cada vez mais diversos e que nem sempre possuem uma coesão, essa força sindical dos trabalhadores se perdeu, e portanto o próprio ímpeto de um estado social-democrata que persegue educação, saúde, aposentadoria etc. com base numa lógica redistributiva se desfez.

Ainda sobre essa crítica saudosista, devo afirmar que ela beira o conservador. Varoufakis acredita que a luta das minorias é algo menor e menos relevante que um embate frontal com o que chama de “capitalistas-nuvem”. Na sequência do que entende como o fim da social-democracia, ele pontua: “Temos sim, um centro e uma direita alternativa, ambos prisioneiros de uma nova classe dominante, os capitalistas-nuvem, cuja ascensão ao poder eles possibilitaram, enquanto esquerda está preocupada com uma guerra civil sobre a definição de ‘mulher’, sobre a hierarquia das opressões e o resto” (p. 220). Para o conservadorismo velado do dito “socialista liberal” Varoufakis, parece que não existe espaço na agenda da esquerda para ao mesmo tempo combater o capitalismo e advogar pelos direitos das minorias.

Parece ainda mais grave que o autor, dito marxista, não parece estar atento aos movimentos como o ecossocialismo que condensam todas essas pautas numa única. “Enquanto isso, ninguém fala dos proletários das nuvens, dos servos das nuvens, dos capitalistas vassalos, do que sobrou do proletariado-precariado tradicional, das vítimas das mudanças climáticas (…)” O que acaba sendo muito esquisito quando o autor dedica uma seção inteira, inciando com uma referência à “Utopia” de More, sobre o potencial dos blockchains.

O que chama a atenção neste excerto nem é a promessa infundada do Bitcoin – o próprio autor reconhece o limite espúrio e especulativo que o inventor das blockchains, Satoshi Nakamoto, pretendia ao estipular um teto no número de moedas – mas a maneira cega que o autor passa pelas consequências ecológicas de pensar um dinheiro digital baseado em P2P e potencialmente “minável” por fazendas de CPUs incontáveis ligados dia e noite. Que bom que ele não estabeleceu uma alternativa blockchain à instituição financeira tradicional na Grécia nos seus tempos de Ministro das Finanças, penso eu.

Como saída prática, o autor propõe uma solução interessante mas mal-desenvolvida e antiga para o problema do monolítico tecnofeudalismo: o ativismo online, através do boicote de certos feudo-nuvem como Amazon, Instagram, etc. que poderia ser concretizado hoje, tanto por trabalhadores como usuários. Ele também pincela com cores fracas e utópicas o que seria uma retomada democrática através de assembleias locais com poder de decisão, do princípio acionista-trabalhador, uma rede de notícias descentralizada pelas bibliotecas e mais uma série de medidas ficcionais no momento que tenta narrar e descrever como imaginou o fim do monstro que ele mesmo decidiu dar vida em seu romance de ficção científica.

É absurdo agora reconhecer que, como escritor ocasional do GoodReads, faço parte da camada de servos das nuvens que trabalha gratuitamente para a acumulação de capital-nuvem de grandes capitalistas vagabundos e ociosos. Seja rankeando meus livros lidos ou escrevendo resenhas extensas como esta, muito provavelmente meus escritos serão usados pela plataforma ou alguma IA no futuro dando estofo e dados sobre opinião de um usuário mediano.

Por fim, tecnofeudalismo é, apesar de suas fraquezas, um meteoro intelectual que não pode mais ser ignorado nos tempos atuais. Condensando e colocando em palavras uma série de desconfortos com o que convencionamos chamar neoliberalismo global com modificações digitais ao apontar como esse mesmo sistema serve à concentração de riqueza para pouquíssimos, é também uma centelha de luz nesse escuro contemporâneo. Sua rota de colisão faz evidenciar toda tecnoestrutura oculta nos céus das redes como grilhões atados a nós na terra e assim, nos permite tracejar, ainda que por breves instantes, rotas de fuga para essa imensa parafernália celeste.
Profile Image for Gabriela Rodrigues.
32 reviews1 follower
May 29, 2026
Gostei da tese principal, curiosamente estou neste momento agindo como serva das nuvens ao alimentar o app da Amazon, uma das mais contundentes big techs no atual contexto. A dúvida é: como subverter o individualismo extremo que permitirá as pessoas deixarem de ser servas das nuvens?
Profile Image for Edkallenn Lima.
219 reviews
July 4, 2026
Um livro absolutamente IMPRESSIONANTE.
Confesso que no início o esquema de "carta ao pai" não me convenceu.
Mas a verve e a força do pensamento de Varoufakis além da interpretação poderosa dos fatos que consomem e corroem a vida moderna me transportaram totalmente para o que o autor pensa.
Livro incrivelmente bom e obrigatório para quem tem interesse em enteder o mundo moderno e como o capitalismo tem destruído a humanidade e a Terra na busca de lucros cada vez maiores para cada vez menos gente. Leitura recomendadíssima!
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