1974 é o único romance da literatura portuguesa que aborda algo que esteve prestes a acontecer: Portugal ter-se tornado uma ditadura comunista, após o 25 de Abril. Não se trata de uma fantasia, o PCP e a extrema-esquerda, desde que perderam as primeiras eleições - democracia burguesa, diziam eles - tentaram por todos os meios derrubar a democracia e quase o conseguiram a 25 de Novembro.
Neste livro, conseguem-no a 28 de Setembro e Portugal torna-se num satélite da URSS, com campos de concentração, deportações, fuzilamentos, presos políticos e uma miséria digna da Albânia. O terror impera. Soares e Sá Carneiro estão desaparecidos - provavelmente fuzilados.
Todavia, o livro incide mais no drama pessoal do protagonista - Francisco - do que nos acontecimentos políticos. É através da descoberta de uma filha desconhecida e das suas relações amorosas que o leitor fica a conhecer a realidade tenebrosa da ditadura comunista.
A escrita é densa, mas com momentos literários de elevada qualidade.
Como crítica, aponto o tempo da narrativa ser demasiado curto quando Francisco é preso - e de novo, uma torrente desconexa de palavras a ilustrar na perfeição o que poderá sentir alguém que foi torturado e está numa cela solitária - e, ainda, não ter aproveitado para explorar melhor a descrição do regime com outros personagens.
Em suma, 1974 é um livro admirável pela sua coragem, originalidade e qualidade literária.