Muito interessante, tanto para os leigos no assunto, tendo aqui uma fonte simples e clara para compreender os mecanismos básicos da vida, a base da biologia molecular; seja numa maneira de alguem já com conhecimentos em biologia rever os mecanismos, ganhar novos conceitos como a tríade apresentada para definir um ser vivo (teleonomia, morfogénese autónoma e reprodução invariante - distinguindo-o de um ser artificial), e contactar com várias temáticas filosóficas abordadas ao longo do livro.
Sendo um livro de 1970, e apesar de escrito por um biólogo que revolucionou a biologia nessa década (Jacques Monod, Prémio Nobel da Fisiologia/Medicina em 1965) o que está nele demonstrado é apenas a pequena parte, ou o início, do que hoje temos conhecimento, fruto de 40 anos de sucessivas descobertas e actividade científica contínua e prolífica.
O livro consiste, então, na demonstração das descobertas cruciais e centrais que deram um novo rumo à biologia, revolucionando a sua vertente molecular. Com grande claridade e simplicidade Monod descreve o papel essencial das proteínas, as suas propriedades químicas e as suas acções a vários níveis micro e macromoleculares, demonstrando assim o seu papel central na distinção entre seres artificiais e seres vivos (apresentando-nos uma interessante definição dos últimos, com base nos conceitos de teleonomia, morfogénese autónoma e reprodução invariante, que define e demonstra nos papéis das proteínas e do ADN), o código genético e a forma de transmissão da informação nele contida, e a teoria da evolução.
Além desta vertente mais científica e lúdica, Monod aborda também questões filosóficas, desmistificando antigas teorias que tentaram responder à questão do segredo da vida, as teorias vitalistas e as teorias animistas (que têm em comum defenderem a hipótese de que uma força superior imaterial governa e anima o Universo - o Destino, um ou vários Deuses, o Karma, ou até a Dialética).
Com base nas descobertas feitas naquela década Monod conclui que a vida é regrada por um par, que parecendo paradoxal, coexiste nos seres vivos, desde os organismo mais simples até aos mais complexos: Necessidade, ou seja, a existência de uma natureza teleonómica (i.e., com uma finalidade) dos seres vivos e da sua evolução, fim esse o de assegurar a transmissão da sua informação genética para os seus descendentes; e a Chance, ou seja, o carácter aleatório e ditado pela sorte, dos mecanismos subjacentes a essa transmissão e evolução.
E finalmente, encarando esta natureza aleatória da vida aborda algumas das suas consequências filosóficas e metafísicas e as questões éticas que se levantam ao nível do comportamento humano: "All the traditional systems placed ethics and values beyond man's reach. Values did not belong to him; they were imposed on him, and he belonged to them. Today he knows they are his and his alone, but now he is master of them they seem to be dissolving in the uncaring emptiness of the universe". A resposta (ou a proposta) de Jacques Monod é o que chamou de Ética do conhecimento, um sistema ético em que o homem escolhe o valor da autencidade, do verdadeiro conhecimento científico, para regrar a sua acção, uma ética que ele se impõe a ele próprio, e não aquelas (as animistas, e até aqui preponderantes) que lhe são impostas.