Sinto que já li bastante, mas ainda há tantas coisas tão relevantes acerca das quais nunca encontrei um livro.
Partilho desta sensação de Anne Boyer - do bastante (sempre relativo) que li, do bastante que tenho a ler e do bastante que não lerei (porque não existe ou porque já lá não chegue). E partilho da sua antecipação de que há ainda muito com que fazer habitar um livro. E a prova está neste Vestuário contra as mulheres. Misto de ensaio, poesia em prosa, memórias e fluxo de consciência, este é um daqueles livros inclassificáveis que abrem a fazer valer a surpresa de os encontrar numa livraria independente. O tom inconspícuo, a lembrar a memorabília e a anotação à margem, não nos prepara para alguns dos arrombos que lá vêm:
Penso sobretudo em roupa, sexo, comida e variações sazonais. Fiz tanta coisa para ser normal e fiz um registo desse processo: primeiro nasci, depois fui criança, depois aprendi coisas e fiz coisas e amei e tive quem me amasse e muitas vezes senti-me sozinha. O meu corpo ora estava bem, ora estava mal. Como tu, fui-me aproximando da morte.
Tecido de várias considerações sobre as condicionantes que se impõem, maioritariamente, às mulheres, este pequeníssimo livro recorre à história e às experiências pessoais da autora e traça delicadas linhas entre a costura, o ofício da poesia, a maternidade, a doença, a política, a dependência digital e a sociedade do consumo e da (des)informação:
Muitas informações inadmissíveis são inadmissíveis porque provocam um sentimento de pena, culpa ou desprezo. Todos estes três (pena, culpa e desprezo) são sentimentos de poder, são as indulgências emocionais daqueles que têm poder ou daqueles que o procuram. Quem é que quer admitir a informação que vai tornar ainda mais ricos aqueles que já são tão feios de tão ricos que são?
Num estilo manifestamente pós-moderno, fragmentário e descontínuo, Anne Boyer desconstrói as problemáticas do capitalismo, da classe e do género...
Estava a cortar legumes na cozinha e a pensar em como o discurso é uma conspiração, depois em como o discurso é uma conspiração como o «gosto», depois em como o gosto é uma arma de classe.
...e lança-se nos caminhos traiçoeiros da legitimidade do discurso (a fazer lembrar Solnit e o seu mansplaining):
Ele é o homem que olha para o céu azul e diz: «Não te lembres deste céu azul como sendo azul».
Olho com os meus olhos para o céu azul e vejo que é azul, depois olho para ele também com os meus olhos e tomo nota para não me lembrar do céu azul como azul. Tomo nota, também, para me lembrar da sua proclamação contra a cor do céu. Tomo nota, também, de que terei sabido que o céu era azul, depois ter-me-ão dito para esquecer o que sei sobre o céu, o que terei por certo feito. Tomo nota para duvidar da legibilidade de qualquer uma destas notas, pois são notas sobre pessoas que acreditam colectivamente que uma frase humana - dita por um homem e ouvida por uma mulher pode transmutar até a azulidade do céu.
(...)
Suspeito de que, tal como tantos humanos nesta nossa cultura, já me confrontei com mais imperativos de homens do que com o próprio céu. Entre duas realidades a do céu, empírica, uma cor, e a do homem, que insiste em dizer a outra pessoa que o que ela viu do céu, com os seus próprios olhos, não é real, dei comigo a viver na do homem.
E já que estamos a fomentar paralelismos entre autoras, Vestuário contra as mulheres é também um livro que traça paralelos com Um quarto só para si e com os condicionalismos que enfrenta toda a mulher perante a mercantilização do seu tempo pessoal:
Há anos, dias, horas, minutos, semanas, momentos e outras medidas de tempo que se gastam na produção de «não escrever». Não escrever é trabalhar, e quando não é trabalhar num trabalho remunerado é trabalhar num trabalho não remunerado.
Por tudo isto, esta leitura tem-me feito pensar em pequeninos grandes nadas que, como aqueles que os textos aqui reunidos exploram, condicionam a vida das mulheres (e das restantes categorias marginalizadas). Pequeninos grandes nadas que neste livro são abordados de forma poética - e que, no meu caso, não são assim tão inspirados. Ainda assim, pequeninos grandes nadas que afetam a vida de milhares de pessoas: pense-se em ecrãs tácteis nas mãos de um invisual; em tesouras para destros nas mãos de esquerdinos; e depois, pense-se nos muitos diagnósticos errados de que as mulheres comummente sofrem; na altura descomunal a que se encontram as alças e as barras de segurança num comboio ou autocarro; na quase impossibilidade de uma mulher fazer uma viagem sozinha por esse mundo fora (já para não falar da incrível proeza de fazer couch surfing); na autêntica odisseia de escolher a roupa apropriada para um dia de trabalho - sem fazer levantar sobrancelhas, motivar apupos ou piscadelas de olho...
Estes pequeninos grandes nadas que afetam as camadas normalmente marginalizadas pela sociedade (as maiorias, e não as minorias!), têm-me surgido a par e passo com as reflexões de Boyer - não tão polidas, é verdade, e talvez não tão direcionadas, mas motivadas por este seu confessionário. E com isso, muitas das suas preocupações têm-se revelado minhas também. Questões de género e opressão, sobretudo (a opressão através da literatura é um tópico particularmente caro à autora), merecem de Anne Boyer alguma da mais conceptual e interessante poesia:
Em breve escreverei um livro longo e triste intitulado Uma Mulher às Compras. Será um livro sobre aquilo que somos obrigadas a fazer e também um livro sobre aquilo que somos odiadas por fazer. Será um livro sobre a inveja e um livro sobre coisas que mal se vêem. Esse livro seria também um livro sobre a história da literatura e os usos da literatura contra as mulheres, e também contra a literatura e a favor dela, e também contra as compras e a favor delas. O flâneur é um poeta, é um agente desembaraçado de bolsas, mas uma mulher não é uma mulher sem uma alça ao ombro ou a segurar uma mala de mão.(...)
Mas quem publicaría este livro, e quem, já agora, o compraria? E como pode ser literatura, se não for tímida mas sinceramente contra a literatura, como também é contra nós mesmas?
Pela sua intimidade, Vestuário contra as mulheres é também um livro que se torna, a tempos, desconfortável. Pessoal e incisivo, faz do leitor seu cúmplice (e as muitas ilustrações que acompanham o texto apenas reforçam o sentimento de intromissão num espaço pessoal que tanto pode ser o da autora como da narradora como da leitora - que aqui pouco se destinguem):
Naquele tempo, algumas pessoas estavam doentes com o mundo, outras doentes por falta dele, e eram duas doenças opostas e também, por vezes, duas doenças simultâneas, e certamente duas doenças que exigiam duas ou mais curas.
(...)
Havia pelo menos dois tipos de pessoas: as que abominavam o mundo e estavam aprisionadas na sua terribilidade e as que se abominavam a si próprias por combinarem bem com o mundo. Não me pareceu descabido tomar notas sobre isto.
Brutal com a sua própria criadora, a obra de Boyer é coisa que se lê como uma espécie de diário desencantado. E a sua autora, uma mulher que se apresenta sem adornos, cingida de um vestuário de liberdade e liberta das roupagens que nos contêm a todas nós nas malhas de habitar o próprio corpo.
Era demasiado triste para levar uns tabefes. Estava pedrada e inconsolável. Era uma engenheira de foguetões derreada, a olhar para os restos retorcidos de uma astronáutica com erros de cálculo. Queria dispensar adendas.
Adendas dispensadas, Vestuário contra as mulheres escapa, felizmente, a qualquer categorização forçada e à compartimentação típica dos nossos dias, ensinando-nos a parar para contemplar as estruturas da sociedade que nos acolhe e molda:
Imaginas que podes escapar a uma categoria desmoronando-a, mas, se tentas desmoronar a categoria, o tecto cai sobre a tua cabeça. Então ali está a pessoa, não tendo escapado à categoria, tendo apenas mudado a sua arquitectura. Antes era uma categoria com um tecto, agora é uma categoria em que toda a gente está soterrada nos escombros do que antes era um tecto sobre as suas cabeças.