Agnes Heller retrata a história à luz de uma distinção fundamental, embora sutil: aquela que há entre a vida cotidiana e a individualidade orientada para o humano-genérico - aquelas escolhas que nos fazem verdadeiramente humanos.
Para tanto, ela parte da noção de que o ser-humano faz a própria história, mas dentro de circunstâncias pré-existentes. Essa interação entre a finalidade ("imanente" à humanidade) e a causalidade (que lhe escapa) dá a tônica do livro, o qual, desde a primeira frase até o ponto final, recusa visões simples ou absolutas. Assim, a autora postula que a história não possui uma teleologia, mas um sentido aparente, o qual decorre da sobreposição de valores humanos - "valores" aqui em seu sentido mais amplo, definidos por levar à realização da humanidade exatamente como ela é.
Com isso em vista, Heller caracteriza o cotidiano (como orgânico, econômico etc), ao passo que delineia sua antítese, a capacidade de se distanciar de si e da comunidade, de modo a ganhar perspectiva e a tomar decisões morais conscientes. Por um lado, situa o consuetudinário, o costume, em seu lugar de importância, pois sem ele não seria possível agir sobre o mundo. Por outro, mantém a relevância do desenvolvimento individual íntegro, livre, comprometido e capaz de assumir riscos.
Deste modo, Heller discute preconceitos, papéis sociais, comunidade e ética. Inclusive, é nessa primeira discussão que surge uma de suas ideias mais famosas. A saber, a de que:
"todo preconceito impede a autonomia do homem, ou seja, diminui sua liberdade relativa diante do ato de escolha, ao deformar e, consequentemente, estreitar a margem real de alternativa do indivíduo. (...) Cada um é responsável pelos seus preconceitos. A decisão em favor do preconceito é, ao mesmo tempo, a escolha do caminho fácil no lugar do difícil, o “descontrole” do particular-individual, a fuga diante dos verdadeiros conflitos morais, tornando a firmeza algo supérfluo."
O Cotidiano e a História é uma obra friamente apaixonada. Sobretudo, apaixonada pelo compromisso com a humanidade e com os valores por ela produzidos. Às vezes idealistas, às vezes fincadas na realidade, as dissertações de Agnes Heller são recheadas de reflexões, exemplos históricos e imagens literárias.