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Rebenta a bolha! Autoajuda para uma Esquerda deprimida

Tudo o que a esquerda não quer dizer e a direita não quer que ela diga.

O mundo mudou e a Esquerda não notou. Precisa de ajuda. De autoajuda. Fazer companhia à psicologia barata e aos manuais sobre emagrecimento pode ser, para uma Esquerda elitista, uma forma de descer à terra. Presa na bolha da academia e das sedes partidárias, a Esquerda afastou-se do povo. O resultado está à vista. Para não morrer, a Esquerda tem de rebentar a bolha.

328 pages, Unknown Binding

Published April 1, 2026

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Displaying 1 - 4 of 4 reviews
Profile Image for Nuno Mendonça.
104 reviews8 followers
June 9, 2026
“Educar é emancipar”, escreve Manuel Afonso num aparte de Rebenta a Bolha!, e foi talvez a frase que mais ficou comigo. Não necessariamente porque resume o livro todo, mas porque toca num ponto que me parece essencial: a política, quando é feita com seriedade, devia servir para aumentar a liberdade das pessoas, não para as infantilizar, culpabilizar ou empurrar para fora da conversa pública.

Tenho sentimentos muito ambivalentes em relação a este livro. Sendo uma pessoa de esquerda, houve partes que adorei e partes que me irritaram profundamente. Talvez seja por isso que a leitura me interessou. Não foi um livro que me passou ao lado. Foi um livro com o qual discuti mentalmente quase do início ao fim, umas vezes a concordar, outras a franzir o sobrolho, outras a sentir que havia ali uma boa intuição a ser levada para um sítio que já não me convencia. Daí tantas anotações.

O livro apresenta-se, de certa forma, como uma espécie de autoajuda para uma esquerda deprimida. E há mérito nisso. A esquerda precisa de pensar sobre si própria sem cair sempre nos mesmos reflexos defensivos. Precisa de perceber porque é que tantas pessoas deixaram de a ouvir, porque é que certos temas passaram a ser dominados quase exclusivamente pela direita e porque é que a linguagem política se tornou tantas vezes incapaz de chegar à vida concreta das pessoas.

Nesse aspeto, acho que Manuel Afonso acerta em cheio quando defende que a esquerda não deve fugir de temas como a migração, a insegurança ou o medo social. Fugir desses temas não os faz desaparecer. Só os entrega à direita, que os transforma em ressentimento, em xenofobia e em guerra entre pobres. A esquerda tem de ser capaz de falar sobre esses assuntos de forma própria, sem fingir que as pessoas não sentem insegurança, sem tratar todos os medos como ignorância, mas também sem aceitar o enquadramento moral e político da direita

A Parte 3 do livro foi, para mim, a mais interessante. Há ali uma tentativa de recentrar a esquerda no conflito real, nas condições materiais, na vida de quem trabalha, paga renda, espera por consultas, teme o futuro e sente que a política institucional fala uma língua distante. Quando o autor escreve sobre a radicalidade da direita e da esquerda, há um momento particularmente forte: “Porque a radicalidade da direita é a continuação, a perpetuação, o aprofundar da política como a conhecemos. É apenas e só a manutenção normal da ditadura do mercado, da lei geral das coisas, que diz que o lucro vale mais do que a vida das pessoas comuns.”

Isto parece-me muito bem formulado. A direita radical não é radical porque rompe com a ordem existente. É radical porque leva essa ordem até às suas últimas consequências. Radicaliza a desigualdade, a competição, a suspeita sobre os pobres, a desproteção social, a ideia de que cada pessoa está sozinha perante o mercado. A esquerda, quando é verdadeiramente radical, faz o contrário: tenta interromper essa normalidade. Tenta dizer que a vida das pessoas vale mais do que a rentabilidade, que a dignidade não pode depender apenas da posição de cada um no mercado, que a política existe precisamente para limitar a violência silenciosa da economia.

A parte das balanças pareceu-me uma das melhores imagens do livro. Manuel Afonso começa de uma forma quase elementar: se queremos que a política penda para a esquerda, temos de juntar mais peso desse lado. Mas depois complica a imagem, e é aí que ela se torna interessante. Não basta somar forças. Importa perceber onde se coloca o peso. Uma esquerda que se junta apenas perto do centro pode acabar por reforçar o centro e deixar o prato mais radical vazio. Pode até somar mais votos, mais partidos, mais apoios, e mesmo assim não inclinar a política para onde queria. A imagem funciona porque mostra uma coisa que muitas vezes se esquece: alianças não são só aritmética eleitoral. São também disputa de direção, de centro de gravidade, de linguagem e de horizonte político. Quando ele escreve que “o objetivo da esquerda radical não é ser radical: é ser útil”, acho que toca num ponto essencial. A radicalidade, aqui, não aparece como pose ou pureza ideológica, mas como capacidade de puxar a balança para outro lado. Também achei muito eficaz a comparação com a direita. O autor mostra que a extrema-direita não venceu apenas por ter mais força. Venceu porque empurrou o centro para o seu lado, obrigou moderados a responderem aos seus temas, às suas palavras e aos seus medos. Nesse sentido, a imagem da balança é uma das melhores explicações do livro sobre a disputa política contemporânea. A esquerda não precisa de copiar a direita, nem de criar ressentimento contra os mesmos alvos. Mas precisa de perceber que, se se limita a procurar consensos moderados enquanto a direita desloca o campo inteiro, acaba por correr atrás do jogo dos outros. Esta parte pareceu-me das mais fortes do livro e, sem exagero, podia ser usada numa aula de ciência política para explicar porque é que o centro nunca é neutro e porque é que as alianças dependem tanto da força como da posição.

Mas é também aqui que começam as minhas discordâncias.

Uma das passagens que mais me irritou foi a leitura que o autor faz da polémica em torno da ministra do Trabalho, quando esta sugeriu que havia mães a amamentar crianças até à primária para beneficiarem de horários reduzidos. Manuel Afonso diz, resumindo, que isso não surpreende, que é a direita a ser direita. Percebo a intenção. Percebo a crítica à visão da direita sobre o trabalho, a maternidade e os direitos laborais. Mas a frase incomodou-me.

Sou assumidamente de esquerda, mas não acho que ser de direita seja sinónimo de ser má pessoa. Há pessoas de direita que são boas pessoas, que acreditam sinceramente nos mitos de Hayek, que olham para o mundo através da ideia da responsabilidade individual, do mercado como mecanismo de liberdade e da suspeita em relação ao Estado. Discordo profundamente dessa visão, mas não acho que ela transforme automaticamente alguém numa pessoa moralmente má.

O que me incomodou no caso da ministra foi outra coisa. Foi a desumanização. Foi a suspeita lançada sobre mães trabalhadoras. Foi a ideia de que um direito laboral ligado à maternidade e à infância deve ser visto primeiro como potencial abuso. Isso não é apenas “a direita a ser direita”. É uma pessoa no poder a revelar uma falta grave de empatia. E acho que a esquerda perde alguma coisa quando reduz tudo a identidade ideológica. A crítica política deve ser dura, mas deve ser precisa. Caso contrário, deixa de distinguir entre uma visão do mundo errada e uma atitude pessoalmente cruel.

Outra dificuldade que tive com o livro está no modo como ele critica outros livros de política por serem demasiado de nicho. Em parte, percebo. Há ensaios político escritos quase exclusivamente para quem já está dentro da conversa. Há livros que parecem feitos para circular entre as mesmas pessoas, nas mesmas bolhas, com as mesmas referências. O problema é que Rebenta a Bolha! também pertence, inevitavelmente, a esse espaço. Quem pega num livro apresentado como uma espécie de autoajuda para a esquerda dificilmente é alguém completamente afastado da política. Os leitores deste livro serão, em grande parte, os mesmos que leem outros livros de intervenção política. Por isso, às vezes senti uma tensão estranha. Em alguns momentos, o livro parece simples demais, quase como se estivesse a explicar o óbvio. Noutros, torna-se mais denso e pressupõe um leitor que já conhece os debates. Esta oscilação nem sempre funciona. Não sei se alguém fora da bolha vai olhar para este livro e pensar que encontrou uma porta de entrada convidativa. Talvez funcione melhor como livro de discussão interna do que como livro de abertura para fora.

Houve também momentos em que senti algum desconforto com a forma como se fala da classe operária. Quero ser justo: não acho que o intuito do autor seja condescendente. Pelo contrário, o livro tenta recuperar a centralidade das pessoas comuns e da experiência material da vida. Mas certas expressões, como “o Zé da tasca”, deixaram-me sempre uma sensação de constrangimento. Há uma linha muito fina entre tentar falar de forma popular e transformar o povo numa figura literária conveniente. Mesmo quando a intenção é boa, a linguagem importa. A esquerda já tem demasiadas vezes o problema de falar “em nome de” pessoas com quem nem sempre fala verdadeiramente.

A minha maior discordância, porém, está na crítica à institucionalização da esquerda portuguesa. O autor parece olhar para essa institucionalização como um problema, quase como uma acomodação. Eu vejo a questão de outra forma. Para mim, a institucionalização da esquerda portuguesa foi uma das razões pelas quais ela sobreviveu melhor do que muitas esquerdas europeias depois da queda do Muro de Berlim. Enquanto noutros países partidos comunistas e forças de esquerda desapareceram, se diluíram ou se transformaram em projetos social-liberais sem grande capacidade de conflito, em Portugal a esquerda manteve presença social, eleitoral e institucional.

Isso teve limites, claro. A institucionalização pode criar burocracia, afastamento das bases, reflexos conservadores e uma certa incapacidade de imaginar ruturas. Mas também permitiu que a esquerda continuasse a influenciar a vida concreta das pessoas. Permitiu travar retrocessos. Permitiu manter viva uma memória política de Abril. Permitiu que certas conquistas não fossem destruídas com a rapidez que a direita desejaria. A comparação com o caso italiano parece-me importante. Depois da queda do Muro, falou-se muito em seguir o caminho do Partido Comunista Italiano, em transformar, modernizar, adaptar. Mas esse caminho levou, em grande medida, à extinção de uma tradição política. Portugal não seguiu exatamente esse modelo. E talvez por isso a esquerda portuguesa, com todos os seus defeitos, continuou a existir como força reconhecível.

A contradição torna-se mais evidente quando o autor fala do medo da esquerda perante mudanças constitucionais. Consigo perceber alguns dos argumentos. É verdade que uma esquerda mais ambiciosa não pode tratar a Constituição apenas como relíquia. É verdade que o constitucionalismo de Abril (Novembro), não deve ser apenas celebrado, mas também disputado e atualizado. Mas, no contexto atual, quem tem força para mudar a Constituição? E em que sentido?

Sem uma revolução armada, algo que hoje seria impossível no contexto internacional em que vivemos, a esquerda dificilmente terá a força institucional necessária para alterar a Constituição num sentido mais ambicioso. Então ficamos onde? À espera de uma revolução que não virá, ou que demorará a vir? Ou tentamos reforçar a institucionalização da esquerda, mantendo contacto com as bases, corrigindo o que tem de ser corrigido e protegendo aquilo que ainda serve de barreira contra o retrocesso.

Para mim, é precisamente essa institucionalização que permite que a Constituição se mantenha minimamente parecida com a de Abril, embora seja já também a Constituição de Novembro. Mesmo assim, continua a prometer ensino público, saúde pública, direitos sociais e uma ideia de democracia que não se esgota no mercado. Claro que a esquerda deve tremer quando se fala em revisões constitucionais. Não por medo abstrato da mudança, mas porque sabe que, no equilíbrio de forças atual, a mudança raramente vem para aprofundar direitos. Vem quase sempre para os limitar.

E aqui volto à frase que me marcou: educar é emancipar. Talvez seja isso que eu tenha procurado no livro. Uma pedagogia política que não simplifique demasiado, que não trate o povo como personagem, que não transforme a direita inteira numa caricatura moral, mas que também não tenha medo de dizer que há interesses materiais em conflito e que a neutralidade política não existe.

Rebenta a Bolha! vale a pena ler. Vale a pena para concordar, discordar, sublinhar, irritar-se, discutir com amigos e pensar melhor. Nem sempre me convenceu. Em vários momentos, senti que o diagnóstico era mais forte do que a solução. Noutros, senti que havia uma boa intuição a tropeçar numa formulação que me parecia injusta ou contraditória.

Mas talvez isso também seja mérito do livro. Não é uma leitura indiferente. Obriga-nos a tomar posição. E, mesmo quando me irritou, obrigou-me a formular melhor aquilo em que acredito.

Dou-lhe 2.5 estrelas. Não porque seja irrelevante, mas porque é um livro que, para mim, tem momentos muito bons e fragilidades muito claras. Valeu a pena. Sobretudo porque me deu vontade de discutir política a sério.
Profile Image for Manuel Pinto.
170 reviews8 followers
May 1, 2026
“Porque o objetivo desta estratégia argumentativa, o lançamento do radicalismo (à cara do adversário) não é provar nada. Não é sequer um argumento ou uma ideia que possa ser demonstrada. É um truque e o seu objetivo é o de fazer a Esquerda desculpar-se. Desculpar-se do quê?
De querer mudanças. Mudanças profundas, radicais.
O objetivo é que a Esquerda peça desculpa por ser quem é, por ser Esquerda.
Quando um político de Esquerda nega que é radical, ele nega-se a si mesmo. No fundo, diz ao pais: «Sou uma fraude». Ou pior, foge à questão e fica a sensação de que tem algo a esconder. Seja como for, demonstra que não é digno de confiança.)
Na política, como na vida, pedir desculpa pode ser muito importante. Podemos e devemos pedir desculpa pelo que fazemos - quando erramos. Mas não pedimos desculpa por sermos quem somos. Isso é morrer em vida.
O objetivo da acusação de radicalismo é que a Esquerda morra em vida. Pior: que faça haraquiri, que se suicide pela vergonha.
Essa é a estratégia do poder: ao levantar o bicho-papão do radicalismo. E tem funcionado. Tanta esquerda que tem feito haraquiri!
O resultado, está à vista.”
917 reviews
August 29, 2026
Um livro fora do comum, porque assume que a esquerda tem que mudar, tal como o mundo mudou. Para saber se as soluções funcionam, só há uma maneira: experimentá-las.
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