Céline, filha de uma prostituta que acabou esfaqueada no Bois de Boulogne, em Paris, passa a adolescência numa instituição e acaba por juntar-se a um imigrante do Mali, que se orgulha de ter uma farda com boné e tudo, mas é atropelado pelo destino e acusado de um crime que não cometeu.
Aïsha - filha de um sábio que entende a linguagem das pedras e lê nos sinais da natureza o presságio da destruição - vive numa cidade prestes a ser invadida pelos jihadistas e vê-se obrigada a esconder os filhos num abrigo improvisado, enquanto o marido permanece no hospital em ruínas, ajudando a salvar vidas Nadia, que carrega uma pesada culpa desde a infância, enfrenta a dor de ter um filho aliciado por redes extremistas. Desesperada, tenta sobreviver à ausência e encontra forças para acolher duas crianças refugiadas que chegam completamente sós, arrastando com elas o peso da guerra.
As vidas de todas estas personagens entrelaçam-se num percurso de separações, de perdas e de reconstrução possível. A Sombra das Árvores no Inverno - vencedor do Prémio LeYa por unanimidade - é um romance sobre famílias quebradas pela violência e pelo fanatismo, mas também sobre a ternura, o instinto de proteção e a coragem silenciosa capazes de renascer no meio do caos.
Carla Pais nasceu em Leiria, em 1979. Abandonou a escola aos dezassete anos para ser mãe, terminando mais tarde o 12.º ano à noite. Em 2012, partiu para França, onde fez limpezas, embalou salmão e tomou conta de crianças. Trabalha atualmente num Centro de Formação à Distância. Em 2015 venceu o Prémio Literário Horácio Bento Gouveia com o conto «A Alma do Diabo». Em 2016, o seu conto «O búzio do meu pai» foi selecionado para a antologia A infância, promovida pelo Centro Mário Cláudio. E, em 2017 foi-lhe atribuído o Prémio de Poesia Francisco Rodrigues Lobo, pela obra Instrumentação do Fogo. O seu primeiro romance, Mea culpa, também no catálogo da Porto Editora, foi indigitado para o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís e granjeou um enorme reconhecimento por parte do público e da crítica. Um cão deitado à fossa, que agora se publica, venceu em 2018 o Prémio Cidade de Almada.
“A Sombra das Árvores no Inverno” é realmente um livro soberbo. Consigo perceber perfeitamente porque foi o vencedor indiscutível do Prémio Leya deste ano.
É um livro que acredito que será muito difícil de ler para muitas pessoas. Quem o ler dificilmente ficará indiferente, é quase impossível não sair completamente abalado.
A autora aborda a guerra na Síria e a crise dos refugiados de 2015. Penso que todos se recordam de Alan Kurdi, o menino que apareceu morto numa praia e cuja imagem foi repetida incessantemente nos telejornais de todo o mundo.
O que Carla Pais faz neste livro é partir desse contexto, incluindo também os atentados terroristas em Paris, para dar visibilidade às pessoas que estão por detrás destas histórias. De certa forma, dá voz aos invisíveis e mostra como a sociedade pode gerar frustração e raiva, levando algumas pessoas a cair em ideologias fundamentalistas.
O romance apresenta duas perspetivas. Por um lado, a de jovens franceses de bairros periféricos que se juntaram ao Daesh e partiram para a Síria para combater, muitas vezes com a promessa de uma recompensa espiritual após a morte. Muitos deles aderem a essas ideias por se sentirem revoltados ou excluídos pelo contexto em que cresceram.
Por outro lado, acompanhamos também o ponto de vista de pessoas na Síria que tinham uma vida normal e feliz até serem brutalmente atingidas pela guerra.
O livro não poupa nas descrições da violência: há morte, há destruição e há momentos muito duros. Essa crueza é necessária para que não se fechem os olhos ao que aconteceu, e ao que, infelizmente, continua a acontecer em várias partes do mundo.
Apesar de tudo, o livro termina com uma nota de esperança, como se o amor pudesse renascer das cinzas.
A escrita da autora é muito poética, mas ao mesmo tempo crua e profundamente sensível. Para mim, é sem dúvida um dos livros do ano.
Três estrelas bem puxadas. Apesar de ter recebido o Prémio Leya é, para mim, o menos conseguido dos romances de Carla Pais. Perdeu-se um certo negrume poético na sua escrita que me tinha conquistado nos romances anteriores (principalmente no belíssimo Um Cão Deitado à Fossa), para dar lugar a um registo com menos nervo e mais límpido, quase em prosa jornalística, ainda que mantendo algumas passagens de apelativa beleza. Nos outros romances havia um bom trabalho de aprofundamento psicológico das personagens, bem enquadradas no ambiente social e familiar onde se moviam, e com as tensões que daí surgiam. Contudo, se aí tínhamos um sensato distanciamento da autora, neste novo romance deparamo-nos com uma indisfarçável e cansativa comiseração daquela com as personagens (às quais não me consegui ligar, lamento), ao mesmo tempo que as presenteia com constantes dramas e desgraças, num aparentemente contraditório sadismo. Acredito que tem tudo para conquistar muitos admiradores, mas infelizmente não foi o meu caso.
"Agora já sei o que é a morte, é um buraco aberto na garganta, um poço onde caem todas as palavras bonitas."
Li este livro com uma pedra a pesar-me no estômago. Carla Pais escreveu poesia em forma de prosa e conseguiu que a narrativa não se perdesse no ritmo belo e avassalador das suas palavras. Cada capítulo e cada personagem revelam uma percepção nítida da natureza humana e um entendimento visceral do sofrimento. Não foi uma leitura prazerosa, foi uma leitura que me estilhaçou por dentro. Um prémio LeYa mais do que merecido e um livro que ficará comigo para sempre.
A Sombra das Árvores no Inverno, de Carla Pais, começa com uma força rara que nos agarram logo nas primeiras páginas e não nos larga, conduzindo-nos diretamente a um verdadeiro murro no estômago, até ao final.
O que mais me marcou foi a subtileza da escrita. Há uma contenção nas palavras que torna tudo ainda mais poderoso. A par disto, a emoção por detrás das palavras torna tudo magnífico.
É um livro profundamente intenso, feito de realidades duras, cruas e muitas vezes ignoradas. Para além das histórias de cada personagem, mergulhamos também em cenários marcados pela guerra na Síria, pela crise de refugiados e pelo terror imposto por grupos jihadistas, elementos que acrescentam uma camada ainda mais pesada e real à narrativa, lembrando-nos da dimensão humana por trás das notícias que tantas vezes consumimos de forma distante.
Fala-nos de dor (muita dor), de luto, de amor, de família, de nascer no lugar errado, de luta (muita luta) e de resiliência. Tudo isto com uma autenticidade que custa, mas que também nos obriga a sentir.
A nível visual, é fascinante: conseguimos ver e sentir tudo aquilo que a autora descreve. As histórias entrelaçam-se e podem, por momentos, parecer confusas, mas recompensam quem lê com atenção. É um livro para ser lido devagar, mastigado, absorvido.
Arrebatador, forte e absolutamente merecedor do Prémio LeYa. Tornou-se, sem dúvida, um dos meus favoritos recentes, e mais uma prova de que temos autores extraordinários em Portugal.
Sei que estas personagens vão ficar comigo durante muito tempo.
Um livro com personagens muito reais, temas difíceis, mas escrito com muita sensibilidade.
"Ainda que aquela gente tente atravessar a cidade de costas direitas, dando a ideia de um certo decoro, nada feito, o bairro será sempre o bairro, pois assim que os pés pisam a estrema dos dois mundos nota-se uma centelha de raiva a incendiar aqueles corpos. Aquelas almas descalças de sonhos e matéria."
"(..) as coisas são como são; no Ocidente ou no Oriente, basta o sol mudar o poiso."
Uma leitura cada vez mais urgente. Parece que a sociedade em vez de caminhar para uma evolução mais humana e progressista, torna-se mais apática e intolerante. Muitas pessoas acreditam que a raiz dos seus problemas tem origem ou nos imigrantes, ou nos refugiados, ou na comunidade LGBT, ou nas diferentes etnias, ... A culpa está sempre no outro, mas esquecem-se que também elas se podem tornar no outro.
Que bela surpresa. Primeiro livro que leio da autora e ainda bem que a descobri. São várias personagens, mas todas elas de certa forma acabam por ter algo que as une. É um livro real. Ou seja, feito de histórias que acontecem todos os dias. Acho que está muito bem escrito. A autora tem uma escrita poética (pessoalmente gosto bastante) e dou nota 20 aos títulos de todos os capítulos.
“(…) preto em terra de branco é sempre escravo.(…)”
“(…) Há coisas inevitáveis. Os dizeres dos pais ficam muitas vezes entranhados na boca dos filhos.(…)”
Poucos escrevem como Carla Pais. Com esta brutalidade lírica. Com este domínio absoluto da metáfora e esta musicalidade do sofrimento. Capaz de chegar à origem da dor e escrever como se fosse a própria dor a pensar.
Ademais, há o engenho narrativo. No tempo, no espaço, na construção de personagens habitadas por ausências e silêncios que se fazem "estrada durante uma vida inteira"; de mães que perdem filhos por distração, violência ou ideologia; de famílias que se desintegram e que se escolhem. A personagem central é Nádia, uma mulher francesa que acolhe crianças sírias refugiadas, vítimas da violência que causou o desaparecimento do filho Samuel, enquanto carrega um luto patológico pela morte do irmão. No entanto, ela é só uma de dezassete distintas almas de três famílias que se entrelaçam em camadas ao longo da narrativa até à vertiginosa colisão que nos atinge nos últimos capítulos. Nem sempre é fácil navegar neste mosaico. Mesmo com a ajuda do genograma (que eu consultei religiosamente para não perder fio à meada), é difícil apreender toda a mestria do detalhe à primeira leitura. Mas essa é apenas uma das formas de amar este romance: não se lê impunemente, as suas frases repetidas ganham novos significados à medida que avançamos, e exige releituras que lhe acrescentarão ainda mais profundidade.
A narrativa é elevada ao cruzar o inverno emocional dos personagens (as sombras do passado: perda, luto, injustiça, orfandade; ausência paterna e luto patológico materno) com as fraturas geopolíticas e sociais do século XXI (os atentados de Paris em 2015, a falência do Estado social francês, o choque civilizacional). Do asfalto frio dos subúrbios parisienses à aridez mística do deserto sírio, a obra atinge picos de assombrosa relevância sociológica ao dissecar, no seio da "selva" marginal, a invisibilidade social, o racismo estrutural e o mito ocidental da integração. Há uma circularidade, uma inevitabilidade trágica que nos arrebata, mas há também espaço para o amor e para a intimidade, para a "linguagem das pedras" e a oportunidade de redenção. Sim, "o amor há de vir remendar os buracos da vida".
A Sombra das Árvores no Inverno é um romance monumental. Ambicioso, de uma força emocional esmagadora, reafirma Carla Pais como uma grande voz da literatura. No início e no fim, somos todos humanos. Sonhamos com o mesmo, queremos todos as mesmas coisas e o luto pertence a todos. No início e no fim, falamos através das crianças. Ainda que não tenham palavras feitas, são as mais sinceras testemunhas do nosso interior.
"A demora foi-se fazendo caminho comprido e a lama o mais belo dos jardins."
O que me levou até este livro foi uma viagem recente a Paris e ter ganho o Prémio Leya. O livro foi escrito tendo por base a fuga dos refugiados sírios para a Europa mas mostra como as várias personagens se cruzam e como as suas vidas fizeram com que chegassem até ao fim, a história de 3 mulheres que dão vida ao livro, Celine que nasceu e cresceu no Bosque de Paris, Aisha que cresceu na Síria e que apesar de ser mulher teve acesso a educação e Nádia que cresceu em França e que teve uma infância difícil provocada pela morte do irmão. Apesar das vidas difíceis as várias personagens mostram que apesar das separações, das perdas é possível reconstruir algo bom.
Várias vidas se cruzam nesta história e à medida que o romance avança, estas histórias acabam por se ligar. O livro fala muito sobre imigração, refugiados, preconceito, guerra, terrorismo e perda, mas o foco principal não está nos acontecimentos políticos. Está nas pessoas que são apanhadas por eles. Sobre pessoas que perderam quase tudo e que, apesar disso, continuam a procurar amor, família, segurança e um lugar onde possam recomeçar. É também uma reflexão sobre como o fanatismo destrói vidas, mas como a bondade e a compaixão conseguem, por vezes, reconstruí-las. Fechei o último capítulo com um fervilhar de pensamentos. Carla Pais escreve com alma!!! 5✨