Um romance fundamental, de indesmentível valor literário, sobre o fascismo e o 25 de Abril no feminino.
Portugal, anos de fascismo. As vidas de três mulheres vão-se desvendando, inscritas num tempo com pouca cor, sob o olhar vigilante da polícia política e de uma moral repressiva, num país sob a sombra da guerra colonial e já farto da ditadura.
Por um acaso do destino, estas três mulheres, que tinham tudo para não se cruzar, acabarão a partilhar a mesma casa, um apartamento na Duque d'Ávila, em Lisboa. E, embora a vida de cada uma tenha seguido, até ao momento desse acaso, o seu percurso distinto, sobre todas elas pesou a pata da ditadura. Assim no-lo diz uma narradora sagaz, que vai recuperando a memória de como se vivia, alertando para os perigos de não se saber olhar para trás e lembrando Abril, esse mês em que se matou a sede.
Perdeu-se relógio de senhoraé um romance fundamental, de indesmentível valor literário, e Alice Brito, uma autora cuja voz, límpida e acutilante, urge ouvir.
Os elogios da crítica
«É da mais elementar justiça celebrar a façanha de Alice Brito neste romance contar histórias importantes da nossa História comum. […] As Mulheres da Fonte Nova é, decididamente, um romance "feminista", na senda dessa obra exemplar que é As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta, embora estabeleça um contraste marcante com esta última obra no que diz respeito à linguagem - intensamente lírica e elegante em Maria Teresa Horta, cruamente direta (naturalista) em Alice Brito.» Helena Vasconcelos, Público
«Alice Brito escreveu um livro importantíssimo. Escreveu-o com todas as ganas possíveis, todos os sentimentos à flor da pele, todas as reminiscências tão bem descritas, tão fotograficamente marcadas. […] Um romance histórico arrebatador sobre a dor e a sobrevivência das mulheres de todos os tempos.» Cristina Carvalho, Jornal de Letras (sobre As mulheres da Fonte Nova)
«A condição feminina [...] atravessa o romance. Não podia ser de outro elas também morreram às portas de Madrid, viraram Setúbal do avesso, "chegavam a casa [vindas das fábricas] e limpavam a merda que a casa sempre acumula…" Nenhum proselitismo. A nitidez fere, razão acrescida (a História ensina) para apagar certos retratos. Veja-se o que aconteceu a Picasso quando retratou Estaline.» Eduardo Pitta, Sábado (sobre O dia em que Estaline encontrou Picasso na biblioteca)
«Uma história de amor, traição, crime e crueldade dá corpo às personagens. […] Emergida na segunda década do século XXI, com três romances publicados de qualidade estética indesmentível, Alice Brito tornou-se, em seis anos, uma importante figura literária do panorama do romance português.
Alice Brito nasceu em Setúbal, em 1954, e aí reside até hoje. É advogada, militante política e cronista em alguns periódicos regionais e on-line. Como para uma das personagens do romance As Mulheres da Fonte Nova, também para ela as lições aprendidas com Ana de Castro Osório e muitas outras mulheres são como andar de bicicleta: nunca se esquecem. Talvez por isso, numa época em que a memória do passado se torna tão aguda, As Mulheres da Fonte Nova começaram a concertar-se na sua cabeça, numa conspiração que exigia escrita e mundo. Por causa delas, este é o seu primeiro romance.
Primeiro livro que leio de Alice Brito e fiquei agradavelmente surpreendida. Gostei do estilo de escrita: frases curtas, mas certeiras. Um certo tom sarcástico e jocoso.
"E, depois, a irmã já tinha vinte e um anos. Mais um bocadinho e ficava solteira. Que se casassem, e ele que tivesse pulso nela. Bem precisava. Rédea curta. Só queria folia, baile, aperaltava-se toda, muita risota e conversa. Se lhos dessem, até livros se punha a ler." (p. 66)
"Há quem diga que foi a Nossa Senhora que apareceu por lá, a exigir aos fiéis que rezassem pela conversão da Rússia: «Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia converter-se-á e terão paz; se não, espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja.» Nossa Senhora seria assim uma hábil política, prontinha a disparar contra tudo o que tivesse o mais breve aroma a bolchevismo. Nesse combate diário e sem tréguas, até se lembrou de vir a Fátima falar com três pastorinhos. A militância antibolchevique tem destas coisas." (p. 127)
De referir ainda que as personagens são interessantes, sem perfeições em excesso que ponham em causa a verosimilhança. E depois o enredo, que cativa e prende o leitor: queremos saber mais sobre estas mulheres, que voltas darão as suas vidas para se acharem todas juntas numa mesma casa, elas que vêm de contextos sociais e localidades tão diferentes. Por último, adorei a escolha do título, ainda mais porque teve origem em factos reais.
Em suma, gostei bastante desta obra de ficção cujo pano de fundo é a condição feminina na ditadura.
"Há dias e dias. E aquele dia, um dia líquido em que se matou a sede, por muita tropelia e análise variada e avariada que se lhe faça, resgatou do pesadelo todo um povo que só queria ser gente. Gente a sério." (p. 234)
Gostei tanto de acompanhar a vida de Beatriz, Benvinda e Bia durante o período da ditadura. Ao seguir cada uma desta mulheres reconhecemos as dificuldades e constrangimentos que encontravam no tempo do fascismo em Portugal.
Sendo mulheres de localidades distintas (S. João da Madeira, Évora e Setúbal), de estratos sociais diferentes, estive bastante curiosa em perceber como é que as suas vidas se iriam cruzar.
Gostei da escrita da autora que por vezes interrompe a narração para se dirigir ao leitor. A inclusão de episódios reais torna a história possível de ter acontecido. Achei a escolha do título do livro brilhante. Os nomes das personagens, enquanto título dos capítulos, e escritos de forma alternada, poderão fazer com que o leitor se confunda, no início da leitura.
Abril 1974, 3 mulheres encontram se a viver num apartamento em Lisboa. O livro conta a história de como estas 3 mulheres de origens diferentes vão acabar por se encontrar neste apartamento e pelo caminho Alice Brito com muita mestria acaba também por retratar a sociedade pobre, analfabeta, a miséria que grassava, a forma como a justiça era administrada de forma autoritária e as diferenças sociais que havia na altura da ditadura e de que agora ninguém refere ou esquece se de referir quando elogiam os tempos da ditadura. A escrita da Alice Brito é fantástica, é uma autora presente que fala com o leitor. Recomendo!
Alice Brito é uma escritora ágil. Esta história começa na década de 20 num Portugal dominado por um regime fascista e conta a vida de três mulheres que o destino une a caminho da aguardada revolução do ano de 74, da liberdade e alegria de viver. Uma leitura de fazer arrepiar.
Dar a conhecer o periodo da ditadura salazarista através da vida de 3 mulheres, localizadas em Setúbal, S.João da Madeira e Évora.
Muito bem escrito, com uma linguagem divertida e clara, ilustrando muito bem e com o dramatismo inerente, a vida difícil e atormentada dos portugueses de então, mas:
- a escolha dos nomes das 3 mulheres dá origem a confusão nas sequências dos capítulos. - aparecem entretanto personagens metidos a martelo, que na trama não adiantam nada, incluindo episódios importantes no periodo histórico mas também enfiados para colorir. - o final é quase penoso; onde até então o cenario historico estava presente, em plano de fundo, passa o relato a inverter-se, e a ânsia de relatar os factos que levaram ao 25 de Abril coloca os personagens como marionetas num teatro de operações.
O livro hesita entre a ficção e a vontade de ser também didático. Um problema que José Cardoso Pires resolveu muito bem.
As (boas) críticas que li a este livro criaram expectativas demasiado altas sobre o que iria descobrir (que ainda não soubesse) sobre a vida quotidiana durante o Estado Novo, mas a leitura do livro não correspondeu. Ainda assim, e mesmo com um estilo de narração que não é inteiramente do meu agrado, gostei de ler estas três histórias, e de conhecer os pormenores que demonstram que a vida era realmente difícil, ainda mais para as mulheres, que sempre foram mais descriminadas, mais desvalorizadas e mais limitadas nos seus direitos. Igual destino sofriam outros como Deodato, que mesmo em tempos de liberdade sofreu por ser quem era.
Uma história que me veio parar às mãos e que foi uma boa surpresa. É um retrato duro sobre a altura do Estado Novo, especialmente para as mulheres. Não é um livro emotivo ou para puxar ao sentimento, é cru. Achei especial porque a narradora mesmo sendo omnisciente tem imensas opiniões sobre a conjectura, sobre as personagens e as decisões delas e vê toda a história através de uma lente vinda do futuro, o que é incomum e refrescante.
Acho que é um bom livro para quem gostou do Revolução do Hugo Gonçalves, mas muito menos denso.
Este foi um livro que achei interessante por me permitir conhecer realidades de Portugal num passado próximo que não vivenciei. Gostei de ver como as mulheres, mesmo em regimes mais opressivos, tinham a coragem e astúcia para vingar quando pouco estava a seu favor.
O livro apresenta ainda intervenções da narradora dirigidas ao leitor: por vezes devaneios, por outras vezes a sua sede de justiça manifestada no julgamento de certas personagens. Isso despertou em mim uma sensação de equilíbrio após cenas intensas, pois não me sentia sozinha ao ler certas atrocidades.
Houve momentos em que um ou outro episódio me pareceu um pouco repetitivo. Também senti que algumas intervenções da narradora foram excessivas, o que tornava as outras menos especiais. Mesmo assim, só posso dizer que fiquei muito agradada com a leitura deste livro.
Trata-se de um livro que apresenta histórias interessantes e fáceis de seguir, que nos reportam a uma época onde Portugal não vivia em liberdade e onde a vontade da mulher era pouco tida em conta.
O uso das expressões idiomáticas é apenas a nata que acompanha o café, a nossa portugalidade versada no papel.