Quando tudo o resto se perde, será o amor suficiente?
Julieta começa a esquecer.
Primeiro são as palavras mais simples. Depois, as ruas do bairro onde sempre viveu, os nomes e aqueles que mais ama. Aos cinquenta e poucos anos, a sua memória desfaz-se lentamente, como uma fotografia antiga exposta ao sol.
É pela voz de Sara, a neta que criou desde a morte trágica dos pais, que acompanhamos esta despedida silenciosa. Enquanto a mente da avó se apaga, Sara é obrigada a crescer depressa demais. Aos dezoito anos, troca sonhos por turnos numa loja que detesta e dias livres por noites de cuidado. Quando a melhor amiga parte para a faculdade, a solidão instala-se e o futuro parece suspenso entre a culpa e o dever.
Entre lembranças que se desvanecem e afetos que resistem, «O Que Resta» é um romance comovente sobre o amor que permanece quando a memória falha e sobre a difícil aprendizagem de deixar ir sem deixar de amar.
“O que resta” é o romance de estreia de Bárbara Cardoso. É um livro, exatamente como apresentado, sobre a capacidade de deixar ir sem deixar de amar. Eu fui conquistada por este livro logo nas primeiras páginas, quando li as primeiras descrições. Principalmente as que fazem referência à relação de Julieta com as rosas.
“Ela lava as folhas daquelas roseiras todos os dias, como se não estivessem no exterior, onde pós e tanta coisa nelas pousam. Como se não tivesse de repetir tudo no dia a seguir. Repete tudo no dia a seguir. Saber que o fará traz-lhe a certeza de que amanhã estará cá. Sem Julieta, cresceriam desvairadas em direção ao Sol, largando pétalas onde lhes apetecesse, desistindo de folhas das quais não se esperava que desistissem. Ficariam feias, e uma roseira feia é uma tristeza para toda a gente.”
O livro conta a história de Julieta, uma mulher que começa a perder a memória lentamente. As palavras, rostos e fragmentos da sua vida começam a ficar confusos na sua mente, alguns até mesmo embrenhados uns nos outros. As pequenas coisas do quotidiano deixam de fazer sentido. O leitor sabe o que está a acontecer, mas as personagens do livro não. E este facto, em certos momentos, torna a narrativa ainda mais dolorosa, pois sentimos o quão sozinha a Julieta se encontra.
A história é conduzida pelo olhar de Sara, a neta que Julieta criou, mas também por pedaços de memória soltos da própria Julieta. Vamos assim acompanhar a dor de Sara, que, enquanto a mente da avó se apaga, vê-se obrigada a crescer depressa, trocando sonhos por noites de cuidado. E ao mesmo tempo, a fatalidade de Julieta, uma mulher sofrida que adorei conhecer.
Com sensibilidade e uma escrita muito bonita, a Barbara conseguiu descrever o impacto emocional da doença de Alzheimer, fazendo um retrato íntimo sobre a memória e um amor incondicional. Enquanto retrata de forma simples o desgaste, a culpa e o cansaço de cuidar de alguém, também demonstra, quer através da história de vida da Julieta, como também através da dedicação de Sara, como o amor resiste e persiste apesar das adversidades.
Chorei porque foi impossível não me lembrar da minha avó, que, quando partiu, estava também já muito debilitada e em certos momentos conseguir revê-la na Julieta e na dor da Sara. Obrigada por este livro!
Há livros que tocam no lugar mais fundo das nossas emoções. Foi isso que senti com “O que Resta”. A Bárbara Cardoso escreve com uma delicadeza rara, encontrando beleza mesmo quando fala da perda, da doença e da despedida. Acompanha o apagar lento da memória de Julieta com uma sensibilidade que nunca resvala para o dramatismo fácil, dando sempre prioridade às pessoas, aos afetos e à dignidade de quem vive esta realidade. Gostei muito da alternância entre o olhar de Julieta e o de Sara, da forma como a autora nos mostra o impacto da doença em quem a vive e em quem cuida, e da naturalidade com que vai construindo uma história profundamente humana e real. Os capítulos curtos e a beleza da escrita tornam a leitura muito fluida, mesmo abordando um tema tão duro. Este foi um livro que me tocou de forma muito particular. Tenho uma mãe com quase 94 anos e foi impossível não pensar nela ao longo destas páginas. Ainda assim, a autora nunca faz da doença um espetáculo de sofrimento. Fala apenas da vida, do amor e da enorme dor de vermos desaparecer, pouco a pouco, alguém que continua diante de nós. Um primeiro romance de enorme sensibilidade e uma autora que vou querer continuar a acompanhar. Recomendo muitíssimo.
Este livro chamou por mim desde que saiu, mesmo sem eu saber do que se tratava. Comprei-o na FLL e li-o em menos de 24 horas e isso já diz muito acerca dele. É um daqueles livros que não precisa de muitas páginas para deixar a sua marca. A escrita da Bárbara Cardoso é delicada, sensível e muito humana, conseguindo transmitir emoções profundas sem cair no dramatismo excessivo.
O que mais me tocou foi a forma como a autora retrata o papel de quem cuida. A doença é dolorosa, mas também o são as renúncias, a culpa, o medo e o amor incondicional de quem vê uma pessoa querida desaparecer aos poucos, mesmo continuando fisicamente entre nós.
As personagens são genuínas e é fácil criar uma ligação emocional com elas. Em vários momentos senti um aperto no peito, mas também uma enorme ternura. É um livro que nos faz refletir sobre a fragilidade da memória e sobre aquilo que verdadeiramente permanece quando tudo o resta parece desaparecer.
Com uma mensagem intensa e impactante, “O Que Resta” é uma leitura emotiva, delicada e memorável, que nos recorda que o amor nem sempre precisa de lembranças para continuar a existir.
Bem... conheço a Bárbara por afinidade, por ser a companheira do Ricardo com quem trabalho esporadicamente. Ao ver que ela tinha um livro publicado, e o tema que é abordado, não pude deixar de comprar de imediato, também para apoiar a autora obviamente. Comecei a ler e não consegui parar. As primeiras páginas surpreenderam-me logo, pela forma como a Bárbara escreve! As personagens agarram e o livro cresce sempre. A doença toca-nos sempre, mas a forma como tudo está escrito envolve-nos na personagem da Sara e sentimos facilmente tudo o que ela sente. Para primeiro romance: minha nossa! Como pedir mais? Completamente surpreendido. Ao nível dos melhores! O melhor livro de 2026 até agora! Fico com muitos excertos escritos mas partilho este: "A forma como a tristeza é uma emoção que todos querem aniquilar, um sentimento que não tem espaço para existir sem incomodar, (...) ninguém sabe ao certo como falar com uma pessoa que chora."
Os capítulos finais destruíram-me. De alguém que também viu a Avó desaparecer aos poucos, revi-me muito nos atos e pensamentos da Sara. Obrigado, Bárbara! 🫂
4,5 ⭐ Uma história bonita, mas difícil de ler. Foi-me impossível ficar indiferente a este livro.
A Sara e a Julieta vão ficar comigo durante muito tempo. Gostei imenso da relação entre avó e neta e de todas as reflexões que surgem ao longo da narrativa.
"Vê aquele fio branco e grosso, mais frisado que os restantes, como um modo de persistência de Julieta na sua vida. Sente que a avó mora ali. Não no cabelo propriamente dito, mas em todas as coisas que fazem lembrar-se dela."
A ideia de que é possível manter viva a memória daqueles que já partiram aqueceu-me o coração e encheu-me os olhos de lágrimas. O luto silencioso que a Sara vai fazendo, aos poucos, enquanto a avó avança na doença e perde um pouco de si a cada dia, foi das coisas que mais me marcou: os objetos guardados em sítios errados, perder-se em ruas que conhece tão bem, esquecer aqueles que lhe são mais queridos e deixar de reconhecer o próprio rosto.
Foi uma leitura incrível e avassaladora. Parabéns, Bárbara.
O Que Resta é um livro lindo e profundamente triste. Senti-me completamente mergulhada na história, como se estivesse a reviver uma fase da minha vida em que a minha avó tinha Alzheimer e eu a via desaparecer, aos poucos, dentro de si própria.
A escrita é belíssima, quase poética, e consegue transmitir toda a dor, o amor e a saudade de uma forma muito delicada. É uma homenagem comovente da autora à sua avó, e isso sente-se em cada página.
Muitos parabéns pelo primeiro livro. Espero sinceramente que este seja apenas o início de muitos mais 🩷
This is the kind of book that makes you pause and sit with what you’ve read. Bárbara Cardoso handles a difficult subject with care and honesty, making the story genuinely moving. The book takes readers through painful emotions, while raising questions that stay with you long after the final page. It is a story about loss, resilience, and what it means to be human, told with sincerity and without unnecessary drama. I believe this is an important book, both because it gives space to a subject that can be hard to talk about and because it helps readers understand it with greater empathy. I would recommend it to anyone looking for a moving story that also gives them something to think about.
Sempre fugi deste tema porque foi, é e sempre será muito doloroso.
Mas, quando vi que este livro retratava a história de uma avó e de uma neta, e que essa avó sofria da doença da qual sempre fujo, senti que tinha de o ler.
E ainda bem que o fiz. Porque, por mais dolorosas que sejam certas lembranças, não fazia ideia de quão especial seria esta viagem à minha juventude.
As coincidências entre esta história e a minha própria vida foram uma das maiores surpresas desta leitura. Muito mais do que os pormenores relativos à doença em si e a todas as vivências que dela advieram, foram os salpicos da minha própria história que ali fui encontrando. A Maria, o José, o David, os olhos verdes... e tanta, tanta coisa.
Obrigada à autora por escrever a história que eu tanto precisava de ler. E obrigada a ti, minha querida avó, minha estrelinha mais linda, por tudo.
Sara é obrigada a viver com o que resta, sabendo que, a cada dia que passa, restará ainda menos. Um livro que desperta em nós a urgência de amar, a urgência de estar presente. Mais do que isso, desperta a inquietação de não nos esquecermos, porque um dia podemos simplesmente deixar de nos lembrar. Uma história comovente, escrita de forma exímia. Aliás, sobre a escrita da Bárbara tudo o que se possa dizer é pouco! Em algum momento, todos nós carregamos o que resta de alguém dentro de nós. Todos guardamos pedaços diferentes daqueles que passaram pela nossa vida, e talvez uma pessoa só exista por inteiro na soma de todos os pedaços que deixou em quem tocou.
“Ela tem a casa cheia de molduras com montes de pessoas a sorrir, e estou sempre a imaginar qual delas será a primeira a desaparecer-lhe da memória. Rezo para que não seja eu. Acredito que não serei eu.”
“Sara engole em seco e estaca os olhos nos de Julieta, como que implorando para aquele não ser o momento em que é esquecida, em que o nome dela se dilui na memória da mulher que lhe ensinou o próprio nome. Olha-a, esperando a correção do nome, esperando uma aproximação à realidade que ambas vivem.”
“Vê-lhe as roupas torcidas, que caem de formas que pouco a favorecem, servindo apenas para lutar contra o frio e a nudez. Não encontra ali a avó. Há muito tempo que não a vê em parte alguma. Continua a chamá-la assim por hábito ou falta de alternativa.”
“As horas em que poderia ter estado com ela e que decidiu passar a fazer outra coisa qualquer atormentam-na.”
“Ela tem vindo a desaparecer, e eu não a encontro em lado nenhum.”
“A ausência do corpo da avó, que julgou não ser capaz de suportar, é mais insuportável ainda. Olha em volta, encontrando resquícios da existência de Julieta. Vê-os por toda a parte. Ela está por toda a parte e em lado nenhum. Está no guardanapo que Sara usou para Ihe limpar os lábios depois de lhe dar o pequeno-almoço, assim como nas botas que usava para ir para o jardim, que permanecem encostadas e abandonadas há mais tempo do que é capaz de contabilizar.”
“Todas aquelas pessoas que ali estão são uma parte que resta da sua avó no mundo. Podendo pegar no que todos têm a dizer ou lembrar de Julieta, Sara poderia montar uma imagem parecida com que a avó havia sido em vida.”
“Desvia o olhar sempre que o pano é levantado. Não quer correr o risco de que a imagem do corpo desligado da avó se lhe infiltre pela retina e a acorde durante a noite. Não quer lembrá-la morta, assim como não quer lembrá-la doente.”
“A vida tem destas coisas. Afastamo-nos com a ilusão de que poderemos voltar quando for oportuno. Depois vem a morte lembrar que não mandamos nada.”
“Vê aquele fio branco e grosso, mais frisado que os restantes, como um modo de persistência de Julieta na sua vida. Sente que a avó mora ali. Não no cabelo propriamente dito, mas em todas as coisas que a fazem lembrar-se dela. Sente-a agora mais próxima do que sentiu durante grande parte da vida.”
“Por mais que olhe, não compreende como é que alguém que ainda não morreu consegue estar tão imóvel. O corpo, com metade do seu antigo volume, jaz no sofá bege da sala. Ela procura, em cada cova que se aprofunda no rosto da avó, resquícios da Julieta que conheceu. Faz barulhos propositados para que os olhos fechados pela inatividade se abram ao de leve, por susto ou curiosidade, não importa, matando as saudades do seu tom verde profundo, que Sara sempre partilhou e ostentou com orgulho. Nestes dias em que a vê tão parada que lhe parece morta, pergunta-se se verá os traços de Julieta sempre que se olhar ao espelho. Se, com os anos, com o envelhecimento inevitável, verá a cara da avó surgir na sua. Se isso lhe trará alegria ou, pelo contrário, rebentará os pontos feitos no luto que sabe que virá? Vê-lhe as roupas torcidas, que caem de formas que pouco a favorecem, servindo apenas para lutar contra o frio e a nudez. Não encontra ali a avó. Há muito tempo que não a vê em parte alguma. Continua a chamá-la assim por hábito ou falta de alternativa.”
Como neta de uma avó com demência, sinto que este livro me tocou num ponto muito sensível, mas também especial. Fez-me lembrar de como foi ir perdendo a minha avó aos poucos, mas também da aflição que sentia em ver a minha avó a ficar cada vez confusa e pensar em como é que ela própria se estaria a sentir, perdida em tudo o que estava a acontecer. É uma doença realmente assustadora, onde esperamos sempre que vá melhorando, mas que piora a cada dia que passa. Começamos a fazer o luto ainda com a pessoa viva, porque a vamos perdendo aos poucos, todos os dias. O livro retrata muito bem a dificuldade e a frustração que existe em cuidarmos de alguém com esta doença, apesar de todo o amor que sentimos pela pessoa, é realmente uma dualidade e é muito difícil.
Saio deste livro com lágrimas nos olhos, com o coração apertadinho e com muitas saudades da minha segunda mãe ❤️ saudades das suas torradas com demasiada manteiga, dos seus bifinhos com demasiado azeite, dos seus beijinhos e de ouvir todos os dias um “até amanhã se Deus quiser” que durante tantos anos tomei como garantido.
Estava muito curiosa para ler este livro por acompanhar a Bárbara há vários anos, portanto assim que passei numa livraria fui logo buscá-lo e comecei a lê-lo imediatamente. Gostei de conhecer a Sara e a Julieta, as suas histórias, a sua evolução e a sua relação, e voltei a confirmar que a Bárbara escreve muito bem. No entanto, senti que não foi uma leitura tão fluída como gostaria, e achei que o estilo da escrita, nas descrições, era por vezes demasiado rebuscado, para o meu gosto poderia ser mais simples. Vou com certeza continuar a acompanhar a Bárbara e os seus futuros livros!
"Uma memória permanente e restrita, cingida àquilo que Sara se lembrou de perguntar ou que lhe foi contado por acaso. Julieta falava pouco sobre si. Julieta nunca se sentiu um tema de conversa que valesse a pena ter. Não há forma de encontrar uma base de dados dos amores, dos amigos, dos desejos que nunca foi capaz de contar ou dos pensamentos que tinha ao deitar a cabeça na almofada."
O que dizer sobre este livro? Qualquer história que envolva uma avó acaba por me emocionar, e esta não foi exceção.
É um livro intenso, que retrata a vida de Julieta e da sua neta, Sara. Aqui, lê-se e sente-se a evolução do Alzheimer, a tristeza de ver partir, aos poucos, os fragmentos da memória e a dolorosa sensação de impotência por não conseguir ajudar quem mais amamos.
Uma leitura que me trouxe muitas emoções e que é, sem dúvida, uma das minhas favoritas do ano!
Apesar do tema principal do livro ser difícil e de eu ter começado a chorar sem dar conta, de certa forma é bonito ler as tuas palavras e a forma como contas a história. É um sentimento que não consigo explicar muito bem. Nem acredito que tenho uma cópia autografada do teu livro e que vou poder guardar para sempre, com muito carinho.
“No fim de tudo o que dói, que o que resta seja eterno.” ❤️
Adorei! A autora escreve sobre um tema doloroso, mas de uma forma bonita e cuidada, envolvendo-nos na história, através de capítulos curtos. Sofremos com a Sara. Empatizamos com a Julieta. Enervamo-nos com o José. Através das suas palavras, conseguimos sentir! E também nos questionamos... o que resta, afinal?!? Atrevo-me a dar a minha própria resposta... o amor e as lembranças!
"O Que Resta" é o Romance de estreia de Barbara Cardoso. Gostei muito e relacionei com a fase final da vida da minha Bisavó (mãe da minha avó materna), que para alem de plantar rosas tinha uma quinta sua e do meu bisavô; e fazia figuras de barro e escrevia poesia popular.
Com capitulos curtinhos lê-se muito bem e tem momentos de uma sensibilidade bonita e unica.
Um livro que me surpreendeu e cativou em toda a sua dimensão, com a simplicidade da história, a sensibilidade da escritora na descrição dos sentimentos e emoções, a escrita simples e ao mesmo tempo rica e maravilhosa. Que maravilhoso romance de estreia.
Só não dou 5 estrelas pq fiquei confusa com a idade dos personagens , sinto que podia ser mais claros quanto a isso e talvez adicionar time stamps pq passaram se anos e não me apercebi ou percebi mas não percebi quantos ou como não sei foi de uma página para a outra sem aviso
Na minha opinião, O que resta de Bárbara Cardoso está bem escrito, mas senti que falta alguma profundidade na construção da história. Entendo que a narrativa é feita pela perspetiva da neta, Sara, o que naturalmente limita aquilo que é explicado e o que fica por compreender, mas ainda assim há certas passagens que podiam ser mais desenvolvidas ou clarificadas.
Um livro comovente sobre a deterioração da memória e de como afeta quem cá fica. Assim que o acabei, fiquei 5 minutos a olhar para a capa com lágrimas nos olhos. É uma história que acredito que nunca irá me abandonar totalmente. Obrigada Bárbara por teres partilhado esta história com o mundo.
acompanho a bárbara no youtube, spotify e instagram há alguns anos e já senti muitas vezes que ela conseguiu explicar por mim, aquilo que eu própria não tinha conseguido pôr em palavras. foi muitas vezes uma espécie de tradutora do meu coração, sem fazer sequer ideia de que eu existo. e isso é das coisas mais especiais que pode haver nas pessoas e na arte.
este livro é mesmo muito bárbara cardoso. o livro respira tudo aquilo que ela é (daquilo que conheço dela). a sua sensibilidade, na forma de olhar os outros, de olhar as coisas simples e ver a sua beleza (que nem todos conseguem ver). a capacidade de ver essa beleza também nas coisas tristes. achei que foi uma descrição perfeitamente humana de uma situação tão dura e desumana. tem pormenores e descrições tão específicos que me fizeram mesmo sentir que não era apenas uma história, mas momentos por que a bárbara passou. quer se tenha ou não passado por uma situação semelhante, parece-me inevitável sermos levados para dentro do livro e sentir tudo como se estivéssemos nos sapatos da julieta que, por um lado, lida com esta angústia tão grande, que é um autêntico abismo sem volta a dar: a perda da sua identidade, porque afinal a nossa memória é tudo o que somos. e da sara que, por outro lado, tenta viver com o que vai restando da sua avó, sabendo que a cada dia restará cada vez menos.
ao longo do livro, chorei, sorri, fiquei de coração apertado, e em muitos momentos tive muita vontade de abraçar a sara e a julieta. senti tudo com elas. para mim, foi mesmo uma experiência catártica.
“no fim de tudo o que dói, que o que resta seja eterno.” ✨🫂🫀
Tinha uma expectativa enorme em relação a este livro. Adiantei a minha ida a Portugal na ânsia de o poder ter nas mãos e, finalmente, pude desfrutar da escrita da Bárbara.
Acompanho-a desde 2017 e uma parte de mim emocionou-se a cada página por, estranhamente, mesmo sem a conhecer pessoalmente, conseguir ver tanto dela em cada capítulo. Mas, apesar de toda esta conexão, a história deixou-me extremamente tocada.
A dor de ver alguém desaparecer lentamente sem poder fazer nada contra isso. A constatação de que não conhecemos realmente alguém e de que nunca teremos a oportunidade de saber todos os detalhes perdidos, não mencionados ou simplesmente esquecidos sobre essa pessoa dói, mas torna-se inevitável.
Ainda assim, é bonito ver a forma como a Sara recorda a avó e a reencontra todos os dias em si mesma, ressignificando o inevitável processo de envelhecer. Esta última reflexão é, sem dúvida, a que mais me tocou no livro. Talvez também por conhecer a angústia que a Bárbara sente perante a passagem do tempo; o facto de conseguir ressignificá-la através da memória de alguém é algo tão bonito.
Definitivamente, um livro ao qual sei que vou voltar. E que vou andar a recomendar a toda a gente até já ninguém me conseguir ouvir falar dele. ❤️