Nas serras mais escondidas de Portugal trava-se um combate de séculos entre lobos e pastores. São dois exércitos acossados, os últimos resistentes dos montes. Este livro fala de dois inimigos, sim, mas também do facto de estarem ambos cercados. Do desaparecimento do mundo rural, da extinção da vida selvagem, de uma certa ideia de progresso que não serve homens nem animais. Este é o relato de uma guerra silenciosa que está a chegar ao fim. E de como os ódios antigos só podem derivar de amores profundos.
Ricardo J. Rodrigues nasceu em 1976 e é jornalista há 15 anos. Escreve na Notícias Magazine e ensina jornalismo na Universidade Lusófona, em Lisboa. Esteve na equipa fundadora da revista Focus e colabora com vários jornais e revistas, dentro e fora de Portugal. Entrevistou o Dalai Lama e o líder de um gangue de traficantes de armas, o presidente do Brasil e o coveiro de um cemitério iraquiano. As suas histórias são normalmente sobre direitos humanos, minorias e tudo o que cheira a contracultura – e já foram reconhecidas com prémios de jornalismo da União Europeia e da Unesco, entre outros. Estudou no Committee of Concerned Journalists, em Washington DC, e na Universidade Nova de Lisboa. Malditos é o seu terceiro livro de reportagem.
Em Dezembro de 2017 entrei algumas vezes no Pingo Doce de Abrantes (não que seja cliente habitual – prefiro o Continente - passe a publicidade!) – e entre algumas compras o expositor da obras da Fundação Manuel dos Santos (passe a publicidade!) – uma instituição criada em 2009 por Alexandre Soares dos Santos – empresário e Presidente do Conselho de Administração do Grupo Jerónimo Martins detentor do Pingo Doce (passe a publicidade!) - e família, “para estudar os grandes problemas nacionais e levá-los ao conhecimento da sociedade. (…) Assim, a Fundação publica livros e elabora estudos, sobre temas relevantes para a sociedade, como a educação, a economia, a justiça ou políticas públicas; (…).” – atraía sempre o meu olhar. Entre as várias colecções da Fundação Manuel dos Santos a Retratos da Fundação foi a eleita – com mais um “pequeno” livro - ”Malditos – histórias de homens e lobos" do jornalista Ricardo J. Rodrigues (n. 1976). Nesta obra com um título principal bastante elucidativo e metafórico - Malditos - em que homens e lobos, ora surgem como inimigos, ora surgem como amigos, onde “a existência de uns não faz sentido sem os outros.” e que sendo inimigos, não são mais do que “dois lados de um único espelho.”. Na Introdução Ricardo J. Rodrigues refere: ”Recolhi histórias que considero serem representativas da tenacidade dos combatentes desta guerra. Aqui há lobos que sobrevivem contra todas as probabilidades, que encontram caminhos para perpetuar a espécie, que caçam como não devem e são caçados como não podem. E também há homens para quem uma ovelha morta põe em causa a própria sobrevivência, outros que perseguem os lobos por raiva e ainda outros que os protegem por consciência. Penso que em cada uma destas narrativas cabem várias dimensões da mesma tragédia: o desaparecimento do mundo rural, a extinção da vida selvagem, e uma paisagem tão humanizada que deixou de servir os homens, e muito menos os bichos.” - o sublinhado é meu, mas resume fielmente, na minha perspectiva de “ignorante” tão complexa temática. Tenho que reconhecer que aprendi inúmeros conceitos e algumas teorias científicas sobre a temática dos lobos. Destaco que só existem cerca de 300 lobos em Portugal, quase todos na zona do Gêres e do Montesinho; alguns destes animais tem coleiras com GPS e que são diariamente “acompanhados” por cientistas do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO); os animais monitorizados têm nomes; apresentam um período de cio que dura entre Janeiro e Abril; vivem amores tumultuosos (caramba, sem diferenciação com os humanos!); com lutas sanguinárias entre machos pelo direito de cópula com a loba, o que determina o casal alfa - o casal dominante; que existe um estatuto hierárquico bem definido; e muito, muito mais… A forma como ”Malditos – histórias de homens e lobos" está dividido – em quatro histórias ou quatro reportagens é muito interessante. Cada uma delas tem a sua autonomia - Lobos, Homens, Guerra e Paz -, mas é na conjugação de todas as histórias que compreendemos a verdadeira amplitude desta problemática – a possível ou impossível convivência entre lobos e homens. A reportagem ”Nos montes, há lobos e homens a lutar pela sobrevivência” da jornalista Vera Novais (Observador) - http://observador.pt/especiais/nos-mo... - é excepcional e complementa notavelmente a leitura de ”Malditos – histórias de homens e lobos". Estes Retratos da Fundação têm um preço de tabela de 3,50€ (comprei a 1,80€ em promoção) são uns "pequenos" grandes livros e são acompanhados com um postal - fotografia ou ilustração da capa -; neste caso com um lindíssimo trabalho de André Carrilho (n. 1974).
Carvalhal do Avelar - Montalegre - Fotografia de Lara Soares Silva (Observador)
Quatro fabulosas reportagens sobre os lobos e as gentes portuguesas. História, tradição e a natureza (do bicho-homem e do bicho-lobo) que nem sempre estão do mesmo lado. O retrato de um país e de uma sociedade. Muito, muito bom.
Um pequeno livro mas com uma mensagem intensa. A relação entre Homem e Lobo sempre foi vista como complicada. O ser humano sente medo do lobo, desde as histórias infantis que nos é ensinado isto. O lobo em certo modo sentem medo do ser humano, ou são mortos apenas por diversão ou acabam a ser usados para vestuário. Não digo que tenha gostado imenso do livro, apesar de contar com diversos testemunhos não senti que me tocassem. Houve um em especial, tocou-me profundamente. O último, fez-me pensar “quem seria realmente capaz de matar uma espécie em extinção?”
Um livro pequeno mas que recomendo a todos. Não é daqueles livros que gostemos à primeira, pensámos nele e acabámos por gostar de um ou outro detalhe. Queria mais detalhes, mais informações. Contudo, admito que fiquei encantada com a escrita do Ricardo Rodrigues, gostava e pretendo ler mais obras do escritor.
Um retrato envolvente da eterna relação de homens com lobos. Ambos lutam a mesma luta, ambos procuram o mesmo prémio, contudo ainda não perceberam isso. Um livro que recomendo sem reservas!
Um livro que é preciso ler. Fala-nos dessa relação ancestral entre humanos e lobos. Do medo primordial que estes seres selvagens e fugidios ainda hoje nos inspiram, apesar de terem perdido terreno em toda a linha e de estarem actualmente reduzidos a números tristemente insignificantes em Portugal. Cheio de histórias e de personagens reais que nos atraem, comovem ou enraivecem, este livro lê-se de um fôlego, até porque está muito bem escrito - há um sabor próprio na prosa do Ricardo J. Rodrigues. Ele fala-nos dos lobos, sim. Das feras que atemorizaram os nossos avós pelos caminhos ermos de montanha, mas conta-nos muito sobre nós próprios, também. De como perdemos um contacto essencial com a natureza e as suas criaturas, e nem sequer nos importamos com isso
Um livro pequenino com uma mensagem profunda de alerta. A capa e contracapa são deslumbrantes e encerram, só por si, a mensagem do autor. Quatro reportagens bem escritas, sobre a relação ancestral entre o Homem e o Lobo e o declínio do lobo-ibérico em prol do desenvolvimento, que merecem leitura e atenção. Desde o ano passado que estava na estante, a aguardar. Por recomendação da Tânia Ganho, no seu livro Lobos, decidi que era o momento indicado. Conheço o CRLI e interesso-me por estas temáticas. Fez-me lembrar o livro Urso-Pardo em Portugal - Crónica de uma Extinção.
Uma passagem pela extinção de duas figuras consequente de um país desligado das suas origens. Por outro lado, tão centralizado que o que outrora o que era natural e quotidiano, hoje é visto por uma lupa turística e que entretém confortavelmente os cosmopolitas, onde me insiro e me encurralo pela ordem dos tempos que correm.
Não é só um livro sobre humanos e lobos, é sobre respeito pelo mesmos, os devidos papéis, os desafios que enfrentam e empatia interespecies e muito mais, pelo olhar sensível, detalhado e honesto do autor.
Especial destaque para as histórias como a da Urzeira, da Cleópatra e para a bonita história (e infelizmente transparente à luz internet) do trevo e os jovens irmãos Lucas, Sara e Vítor Gonçalves.
Uma pequena edição bastante interessante. Ricardo J. Rodrigues conta a história do lobo-ibérico e do seu enquadramento social entre os homens que o demonizaram - os pastores. Fartas vezes estes relatos - retratos, como a FFMS os enquadra - são pesados e reveladores das consequências da forte divisão entre humano e natureza que a própria humanidade insistiu em criar, havendo espaço ainda para mostrar que há algo de redentor em toda a crueldade urbanizadora.
Uma reportagem em forma de livro sobre as relações entre duas espécies em vias de extinção, o português camponês e o lobo ibérico. Muito bem relatado, fiquei impressionado com a complexidade da vida social do lobo e com pena do sentimento de ódio evitável que existe para com este predador.
Ponto prévio: estou fã desta coleção de Retratos da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Pequeninos, escritos ao estilo de reportagem, além de abordarem assuntos quanto a mim muito interessantes, são uma pechincha. €3,50 cada um e ainda fazem o envio sem portes.
E agora vamos ao que interessa, as quatro histórias contadas por Ricardo J. R. Rodrigues sobre os lobos e a sua relação com os homens. A primeira, «Lobos», conta a perspetiva de uma loba, desde o nascimento até à sua morte vítima de uma bala, três anos depois. Na segunda, «Homens», ficamos a conhecer Adrian, cujo pónei que tinha desde pequeno foi morto por lobos, abalando toda a aldeia. Em «Guerra», a história de uma aldeia que nunca dará tréguas aos lobos, porque estes têm o rebanho da aldeia como única fonte possível de sobrevivência. Por fim, em «Paz», como três crianças salvaram um lobo da morte graças à educação ambiental cada vez mais presente nas escolas.
De uma maneira bastante imparcial, o autor expõe a eterna rivalidade entre lobos e homens, potenciada pelo progresso das infraestruturas e pela redução acelerada do habitat dos primeiros. Uma história em que praticamente só há vítimas, de ambos os lados.
Um livro em formato de reportagem que mostra o interior e o desespero da povoação envelhecida e de uma população que tem apenas a miseras reformas para sobreviver, tendo o gado como complemento para sobreviver. E de um dos mais belos animais selvagens, o lobo. O lobo que ataca os rebanhos porque é o mais facil, mas tambem porque não tem mais o que comer. E porque o interior esta cada vez mais deserto mas não selvagem.
Escritas de forma simples e direta, as histórias de lobos e de homens abordadas neste livro dão-nos uma visão bastante abrangente da temática relacionada com o lobo ibérico. Alternando histórias de uns e outros mostra-nos que, afinal, fazemos todos parte da mesma realidade, da mesma história.
Um livro fantástico que adquiri no Gradil, no Centro de Recuperação do Lobo Ibérico que desde já aconselho a visitarem para ficarem a saber o excelente trabalho que o Grupo Lobo faz na tentativa de salvar os Lobo Ibérico no nosso país, da sua extinção. Neste livro ficamos a conhecer as poucas alcateias que ainda existem no nosso país, a dificuldade que têm para sobreviver quando o homem começa a ocupar os seus locais de caça. A hierarquia dentro de cada grupo, o acompanhamento que biólogos e veterinários fazem a estes esplêndidos animais, mas acima de tudo como a sua preservação é importante para todo um ecossistema e como as novas gerações têm um papel importante na sua salvação. O Lobo não é somente a sua pele é realmente muito mais do que as histórias assustadoras que sempre ouvimos é um ser vivo que tem a mesma dignidade que todos os outros, mas que infelizmente tem que lutar cada vez mais para sobreviver. E é aí que devemos entrar nós e ajudar no que podermos para que a sua existência e coexistência como o homem se torne uma realidade.
Excelente. É tudo o que um retrato da fundação deve ser: direto e cativante.
É tão interessante descobrir sobre um tema obscuro, e este livro mergulha no tema com excelência. Apresenta diversas perspetivas - do lobo, do pastor, da vítima, das novas gerações ambientalmente conscientes.
E é espetacular em dar um Status Quo da espécie da investigação sobre o 'bicho' em Portugal. Um Livro que só alguém com interesse e conhecimento é capaz de escrever. Espanta-me que sejam nomeados todos aqueles que estão à frente de projetos de preservação, e como são referidos nos agradecimentos.
E depois é contado em histórias exemplares. Há personagens, há enredos. E está tudo em cima da mesa.
É uma verdadeira obra de arte. É apenas excelente.
Extremamente bem montada e escrita no tom exacto, esta pequena investigação jornalística de Ricardo J. Rodrigues fornece toda a informação necessária para uma introdução ao tema dos lobos em Portugal. Dividida em quatro partes, formando de certo modo um conjunto de reportagens interligadas, apresenta quer o lado dos lobos – conjugado com o trabalho dos biólogos que os estudam e tentam preservar – quer o das populações para quem o animal permanece o diabo na terra. Acaba ainda a ilustrar algumas facetas da realidade das últimas décadas no interior do país. Poucas páginas que merecem regresso, e tanto um belíssimo trabalho como uma leitura inebriante.
"Os perseguidores passaram a protetores e os lobos passaram de demónios a símbolos de hospitalidade barrosã. A mentalidade de uma terra inteira mudara porque houve três miúdos que souberam souberam dizer não à morte de um lobo".
Acredito que este livro deva ser lido por toda a gente. E, sendo eu biólogo, acredito que todos os biólogos e apaixonados pela biologia e natureza devam ler este livro.
Muito bem escrito, traz-nos 4 reportagens sobre a relação ser humano - lobo e faz-nos perguntar que será mesmo a fera entre os dois?
Um grande retrato da Fundação Francisco Manuel dos Santos este Livro (Malditos, histórias de homens e de lobos) do escritor Ricardo J. Rodrigues. Um livro que trás há baila o problema da extinção do Lobo ibérico, bem como as suas( guerras) com os seres humanos. Este Livro foca histórias verídicas, e coloca várias vezes o dedo na ferida, sobre o desaparecimento deste Animal selvagem que tanto nos protagoniza. Parabéns pela obra embora pequena tem um conteúdo enorme. Recomendo vivamente.
Um livro fascinante. Aqui temos uma história verdadeira, contada pelos olhos de dois inimigos: os lobos e os pastores. Uma rivalidade que durou há séculos está prestes a terminar com o fim duma moda de vida (a dos pastores) e o esgotamento de espaços selvagens onde moram os lobos. É uma guerra eterna que vive em mitologia (quem viu a capa do livro e não pensou de lobisomens?) mas não tem espaço neste mundo cada vez mais moderno.
Um livro interessante sobre a convivência entre Homem e mundo selvagem, que nos consegue transportar até aos locais dos acontecimentos e quase nos leva a ouvir os uivos...
Um pequeno livro com três peças jornalísticas de grande interesses, que se debruçam sobre a relação entre o homem e o lobo en Portugal, nos dias de hoje e no passado. Com isenção e um contacto íntimo com os aldeões, os técnicos e um respeito pelos animais. Vale a pena.
Gostei da capa e gostei do facto de ser um livro sobre lobos, pois é um assunto que precisa de divulgação, de informação e não de boatos, mas achei pouco e algo repetitivo.
O facto de estar muito por dentro do assunto não me permite perceber se o nível da informação transmitida é totalmente adequado ao público em geral, por vezes há algumas referências que me parecem não ter enquadramento. Acho que faltam algumas explicações básicas, como o porquê do lobo estar a regressar a zonas onde não era visto há décadas.
Talvez o outro livro do autor sobre este tema, Bitcho Bravo, de 2006, seja mais completo e coerente.
Nas serras mais escondidas de Portugal trava-se um combate de séculos entre lobos e pastores. São dois exércitos acossados, os últimos resistentes dos montes. Este livro fala de dois inimigos, sim, mas também do facto de estarem ambos cercados. Do desaparecimento do mundo rural, da extinção da vida selvagem, de uma certa ideia de progresso que não serve homens nem animais. Este é o relato de uma guerra silenciosa que está a chegar ao fim. E de como os ódios antigos só podem derivar de amores profundos.
O tema do livro é algo que tem de ser falado.Adorei-o pois cada historia tinha algo em que se pensar. Para não falar que adoro lobos. Foi muito bem escrito.
Muito bem escrito, conta a história de uma luta com muitos séculos que continua nos dias de hoje: a guerra entre homens e lobos pela sobrevivência no interior do país.