Neste livro estão reunidas entrevistas publicadas entre 1992 e 2008. A selecção é da responsabilidade de Luiz Pacheco e de João Pedro George. Entrevistadores: Baptista-Bastos; Carlos Quevedo; Cláudia Galhós; João Paulo Cotrim; João Pedro George; Mário Santos; Paula Moura Pinheiro; Pedro Castro; Pedro Dias de Almeida; Ricardo de Araújo Pereira; Ricardo Nabais; Rodrigues da Silva; Rui Zink; Vladimiro Nunes.
Luiz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco foi escritor, editor, polemista, epistológrafo e crítico de literatura. Nasceu em 1925, na freguesia de São Sebastião da Pedreira, numa velha casa da Rua da Estefânia, filho único, no seio de uma família da classe média, de origem alentejana, com alguns antepassados militares. O pai era funcionário público e músico amador. Na juventude, Luiz Pacheco teve alguns envolvimentos amorosos com raparigas menores como ele, que haveriam de o levar por duas vezes à prisão.
Desde cedo teve a biblioteca do seu pai à sua inteira disposição e depressa manifestou enorme talento para a escrita. Estudou no Liceu Camões e chegou a frequentar o primeiro ano do curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras de Lisboa, onde foi um óptimo aluno, mas optou por abandonar os estudos. A partir de 1946 trabalhou como agente fiscal da Inspecção Geral dos Espectáculos, acabando um dia por se demitir dessas funções, por se ter fartado do emprego. Desde então teve uma vida atribulada, sem meios de subsistência regulares e seguros para sustentar a família crescente (oito filhos de três mães adolescentes), chegando por vezes a viver na maior das misérias, à custa de esmolas e donativos, hospedando-se em quartos alugados e albergues, indo à Sopa dos Pobres. Esse período difícil da vida inspirou-lhe o conto "Comunidade", considerado por muitos a sua obra-prima.
Nos anos 60 e 70, por vezes viveu fora de Lisboa, nas Caldas da Rainha e em Setúbal. Começa a publicar a partir de 1945 diversos artigos em vários jornais e revistas, como O Globo, Bloco, Afinidades, O Volante, Diário Ilustrado, Diário Popular e Seara Nova. Em 1950, funda a editora Contraponto, onde publica escritores como Raul Leal, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Natália Correia, Herberto Hélder, etc., tendo sido amigo de muitos deles. Dedicou-se à crítica literária e cultural, tornando-se famoso (e temido) pelas suas críticas sarcásticas, irreverentes e polémicas. Denunciou a desonestidade intelectual e a censura imposta pelo regime salazarista. Denunciou, de igual modo, plágios, entre os quais o cometido por Fernando Namora em Domingo à Tarde e sobre o romance Aparição de Vergílio Ferreira.
A sua obra literária, constituída por pequenas narrativas e relatos (nunca se dedicou ao romance ou ao conto) tem um forte pendor autobiográfico e libertino, inserindo-se naquilo a que ele próprio chamaria de corrente "neo-abjeccionista". Em "O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor" (escrito em 1961), texto emblemático dessa corrente e que muito escândalo causou na época da sua publicação (1970), narra um dia passado numa Braga fantasmática e lúbrica, e a sua libertinagem mais imaginária do que carnal, que termina de modo frustrantemente solitário.
Alto, magro e escanzelado, calvo, usando óculos com lentes muito grossas devido a uma forte miopia, vestindo roupas usadas (por vezes andrajosas e abaixo do seu tamanho), hipersensível ao álcool (gostava de vinho tinto e de cerveja), hipocondríaco sempre à beira da morte (devido à asma e a um coração fraco), impenitentemente cínico e honesto, paradoxal e desconcertante, é sem dúvida, como Pícaro, personagem literário, um digno herdeiro de Luís de Camões, Bocage, Gomes Leal ou Fernando Pessoa.
Debilitado fisicamente e quase cego devido às cataratas, mas ainda a dar entrevistas aos jornais, nos últimos anos passou por três lares de idosos, tendo mudado em 2006 para casa do seu filho João Miguel Pacheco, no Montijo e daí para um lar, na mesma cidade.
Quero tentar perceber este fascínio que me fez ir até à biblioteca, pedir os escritos de Luiz Pacheco, assistir ao documentário sobre ele e ler dois livros de seguida.
Luiz Pacheco criou a Contraponto, uma editora que publicou Herberto Hélder (poeta maior, opinião “Letra Aberta”), Virgílio Ferreira, Manuel de Lima, Cesariny antes de ninguém.. Só publicava o que tinha qualidade, detestava gralhas e tinha uma forma de ver a literatura muito particular. E acho que é exatamente isso que me fascina, a forma como fala na literatura, escritores e poetas. As suas contradições são constantes em várias entrevistas e a má língua também. Não há uma mísera entrevista neste livro onde não agrida verbalmente os que outrora foram seus amigos. Nas suas palavras todos se venderam ao sistema, assinaram contratos para escrever e editar anualmente em troca de dinheiro, ou no caso do Cesariny, dedicaram-se a outros interesses para conhecerem a fama. Acho que único amigo salvo por esta corrente de criticas foi Herberto Hélder, homem com uma postura bastante reservada e dedicada à arte da escrita. Saramago é o cão da Agustina, Virgílio Ferreira só pensa em dinheiro, Antero de Quental é um homossexual disfarçado, Natália Correia uma lésbica devassa. Pacheco choca com as suas opiniões. Presumo que não vá agradar a muita gente. Li-o sem levar muito a sério o que diz. No entanto, consegui ver o seu amor pelos livros, a sua mágoa em relação ao grupo de amigos que se desfez.
Pacheco tem uma história de vida absolutamente cativante. Desde o número de mulheres (com 15 anos eram muito velhas), as hilariantes histórias de libertinagem e como acabou os últimos dias da sua vida. São páginas de entrevistas dadas a diversos jornais e revistas, num tom bem-disposto. Ri imenso, desprendi-me de ideias construídas à volta dos escritores mencionados. "Lobo Antunes tem muita inveja do Saramago. Pensava que podia ganhar o Nobel sozinho". Até da Pilar ele falou.
Antes das entrevistas li a obra-prima “Comunidade” que me fez admirá-lo como escritor e editor. É sua própria história, num tom melancólico e doce. Liguei a sua arrogância à dureza da vida. Ele era uma espécie de fantoche nas entrevistas. Nota-se em determinados momentos o aproveitamento por parte dos jornalistas. Quando tocam na ferida, repetem, insistem até que exploda com um “puta que os pariu”. Foi um homem com uma vida imensa, com um final medíocre porque quis manter-se à distância do deslumbramento proveniente da fama.
"Crocodilo que Voa" chegou a ser o título de uma revista que o Luiz Pacheco e o poeta António José Forte planeavam fazer, mas que nunca chegou a publicar-se. Esta edição tem entrevistas do Rui Zink, Ricardo Araújo Pereira, Baptista Bastos, Paula Moura Pinheiro, entre outros. "Esse livro é uma merda! Isso é uma aldrabice. É bom para andar por essas pequenas editoras", responde ele ao semanário Sol em 2008 sobre o lançamento deste livro.
Quero ler tudo o que ele escreveu. O próximo será a sua biografia lançada pela Tinta da China, de João Pedro George. Tags:
Estava então a escrever como negro e a traduzir o Dicionário Filosófico, para a Presença, mas quem assinava a tradução era o Bruno da Ponte. Eu tinha de o fazer porque era a única fonte de dinheiro, e numa parte ele [Voltaire] refere-se a um daqueles malucos profetas da Bíblia que faziam uma espécie de pão com excremento de vaca. Eu estava chateado e o que é que fiz? Escrevi: «Nota do tradutor: é o que chamaríamos hoje deliciosas sandes de merda.» [risos] Esqueci-me, e aquilo lá saiu em nota do tradutor, que era o Bruno da Ponte. Ele ficou um bocado magoado.
Livro de entrevistas ao Pacheco, o nosso libertino, o nosso excêntrico. O sentimento é agridoce. As entrevistas organizadas cronologicamente vão-nos dando um homem cada mais velho, mais desorientado e truculento, as perguntas muitas delas repetem-se e as respostas também. O lado agreste é precisamente por aí: perceber que se garimpam excentricidades da sua boca, gargalhadas sobre "broches de pino", partidos para a "extrema-unção", insultos a todo o tipo de escritores. Contudo, não vale a pena ser ingénuo aqui: a imagem do libertino era uma coisa que servia a ambos: ao leitor e ao autor. A este para agigantar o seu inegável talento alvoroçado, para colorir a aura do mendigo da literatura, do enfant terrible sem papas na língua. Mas os momentos mais bonitos surgem quando a capa da sátira e de um certo histrionismo caem e ficamos com as observações honestas e sóbrias acerca do ambiente de um lar: o que é nele sobreviver e morrer, o passar das torradas de dois andares à torrada lambida de margarina, os gritos, as dores, o dormir sentado, o mijar de duas em duas horas. Ou com os isolamentos familiares, os desejos de afecto, a estupidez que é umas calças a 3 contos, o gravar audio da prosa e do diário, a presença do rádio como companhia. Pormenores que revelam o artista sensível por detrás do fantoche, o envelhecimento possível numa alma sempre jovem e irreverente. Leitura aconselhada e bipolar.
Goste-se ou não de Luiz Pacheco – e é tão fácil desgostar-se dele –, há pelo menos que admitir que a sua personalidade tinha qualquer coisa de hipnótico. A liberdade do seu discurso, aqui explorada numa seleção de 12 entrevistas que lhe foram feitas entre 1992 e 2008 e que, entre outras coisas, são bem demonstrativas dos efeitos do tempo, é uma lufada de ar fresco no convencionalismo típico deste formato. Um olhar quase sem filtros a um homem quase sem filtros.
Entrevistas que mais gostei de ler: – "Luiz Pacheco, antes que se deixe morrer", Paula Moura Pinheiro – "Um diário inteiramente livre", Rodrigues da Silva – "Não estou aqui a fazer pose", Ricardo Nabais e Vladimiro Nunes