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No Meu Fim Está o Meu Começo

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Isabel, enfermeira, acompanha o declínio cognitivo da mãe enquanto é forçada a revisitar a sua própria história.

A infância num bairro periférico, o trabalho precoce, a formação no hospital, o casamento falhado, a maternidade atravessada por tensões raciais e a figura ambígua de um pai ausente emergem como farrapos ainda vivos, nunca totalmente resolvidos. Cuidar torna-se um gesto ambivalente, simultaneamente técnico e afetivo, exercício de sobrevivência e de exaustão.

A doença instala-se não apenas como condição clínica, mas como metáfora de uma herança coletiva feita de silêncios, violência normalizada e adaptação contínua. A memória materna que se desfaz convoca as estratégias de esquecimento que atravessaram gerações e um país, pondo em causa a ideia de progresso, de redenção e de linearidade do tempo. O fim deixa de significar apenas perda e passa a ser também um lugar de revelação.

232 pages, Paperback

Published April 1, 2026

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About the author

Filipa Martins

12 books46 followers
Filipa Martins nasceu em Lisboa, em 1983. É jornalista desde 2004, tendo colaborado em publicações como o Diário de Notícias, Notícias Magazine, Evasões e Jornal i.

Recebeu o Prémio Revelação em 2004, na categoria de ficção, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores (APE), com Elogio do Passeio Público, o seu primeiro romance publicado em 2008. Recebeu ainda o prémio Jovens Criadores do Clube Português de Artes e Ideias, com o conto Esteira. O seu segundo romance, Quanta Terra, foi publicado em 2009. Publicou, em 2014, o último romance pela Quetzal intitulado Mustang Branco.

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3 (2%)
1 star
1 (<1%)
Displaying 1 - 20 of 20 reviews
Profile Image for Nuno Markl.
23 reviews5,068 followers
May 4, 2026
Mais uma maravilha que eu pressentia: 1) Que ia ser incrível; 2) Que teria de ler em bom velho formato físico. Problema: as pressas. Queria ler já. E sim, já tenho mandado vir livros pela Glovo, como se fossem refeições (e são), mas o novo da Filipa Martins ainda não estava lá. Então, zunga: e-book na app Biblio, e o primeiro que leio inteiro no iPad.
Graças a No Meu Fim Está o Meu Começo, atrasei-me hoje para a Terapia Ocupacional, mas a verdade é que eu não conseguia deixar estas mulheres e a sua história ziguezagueante entre um passado feito em ditadura e nos primeiros tempos de liberdade, e um presente doloroso de esquecimento, a demência de uma mulher idosa a espelhar os riscos crescentes do esquecimento colectivo de um passado vergonhoso que há quem venda hoje como não tendo sido assim tão mau. Há bocado cruzei-me com um post do Matt Haig onde ele dizia: “O fascismo está a crescer e a leitura a diminuir. Isto não é uma coincidência. É por isto que os racistas queimam bibliotecas e Donald Trump adora os ‘pouco educados’. Os livros salvam a civilização. Combatam o fascismo. Leiam mais.”
E, por mim, comecem por aqui: No Meu Fim Está o Meu Começo é uma história que nos ensina muito: sobre um antes cada vez mais convenientemente difuso, sobre o que as mulheres passavam e sobre o que continuam a passar, sobre tanto que importa muito ler agora.
Profile Image for Dora Silva.
262 reviews94 followers
May 15, 2026
A escrita da Filipa é extremamente sensível e poética.
Este livro é uma história visceral e cheia de camadas.
Deixo a minha opinião em vídeo sem spoilers no Livros à Lareira com Chá no YouTube:
https://youtu.be/TT8h-shFRag?is=SzXEA...

Recomendo mesmo muito, é um livro muito duro, carregado de dor e memórias.
Belíssimo mesmo!
Profile Image for Rita da Nova.
Author 4 books4,886 followers
Read
June 24, 2026
«Mais do que qualquer outra coisa, pelo menos para mim, é uma história sobre a tendência do ser humano para criar narrativas, e sobre como essas narrativas suportam (ou não) a nossa existência.»

Review completa em: https://ritadanova.substack.com/p/rev....
Profile Image for Vera Sopa.
825 reviews82 followers
May 24, 2026
Sabia que ia gostar deste livro, ainda que nunca tivesse lido nada de Filipa Martins. O tema era um manancial que me interessava. O que eu não sabia é que me iria ser tão próxima. A escrita de Filipa é excelente. Não há desperdício de palavras e a linguagem é muito rica e precisa. Apetece ler em voz alta ou saborear lentamente o efeito das palavras que, descrevem maldade por parte da mãe. Um jogo de uma viciada, no início da demência. O que suscita uma questão. Como se cuida na doença e na velhice de quem fez mal? Uma questão que nunca se coloca quando se pensa em idosos.

Isabel quer respostas sobre a sua origem antes que a doença se instale irremediavelmente enquanto enfrenta memórias que ferem de miséria. Memórias essas que, expõem factos do antigo regime antes do 25 de abril. Difícil. E necessário.
Profile Image for Ricardo Trindade |.
475 reviews39 followers
June 24, 2026
Leitura de aconchego, é assim que defino os momentos que passei com No Meu Fim Está o Meu Começo.
Esta é uma história contada no tempo em que Portugal ainda vivia em ditadura, onde o grito de liberdade é contado neste texto tão bem conseguido por Filipa Martins. Retratando a história na primeira pessoa de Isabel e da sua mãe que enfrenta atualmente problemas de demência, mostrando o que a doença implica para com a própria e com quem está ao seu redor, este romance é colo para quem diariamente se vê perante esta situação, fazendo o leitor pensar no dia de amanhã e em como, de um momento para o outro, as nossas vidas podem ficar viradas do avesso com o que não conseguimos controlar. Uma história sobre passados de sofrimento, clandestinidade e com muito silêncio e presentes dolorosos com marcas profundas, num autêntico turbilhão de sentimentos narrados de forma real, sem omissões e com toda a brutalidade que as palavras conseguem atingir como descrição de factos. Isabel cresceu numa família com pai incógnito, sempre se sentiu para com as irmãs a menos importante aos olhos da mãe, seguiu perante riscos e desigualdades sociais até se tornar mulher, profissional de enfermagem, casou e foi mãe, vendo o seu casamento ruir quando ao mesmo tempo assumiu o controlo para com a decadência da mãe que não a desejou.
Um romance rico entre a relação de amor/ódio tantas vezes existente entre pais e filhos numa história de dor, reflexão e gritos perante o que é vivido por obrigação que é tanta vez imposta socialmente sem existirem métodos para se conseguirem controlar os erros do passado perante presente e futuro.
Profile Image for Andreia Machado.
255 reviews33 followers
May 14, 2026
A Filipa Martins escreve aqui uma história em que Isabel, protagonista e narradora desta trama, revisita o passado enquanto presta auxílio à mãe em estado de demência. Voltamos atrás no tempo à sua infância e à época da ditadura, nos anos 60, e depois vamos passando pelas várias fases da vida da protagonista e pela história recente do país.

É um livro que toca em temas como a identidade e a nossa herança geracional, incluindo traumas e silêncios, a violência sobre os corpos femininos e o silenciamento, resistência e, acima de tudo, a importância da memória coletiva.

Isabel procura incessantemente a sua própria identidade e fica, de certa forma, perdida e absorvida nessa busca ao longo da vida. O título é bastante explícito nesse sentido, só no fim é que ela começa, aos poucos, a encontrar-se.

É um livro com muitas camadas, que se vão desmontando à medida que exploramos, de forma fragmentada, o passado de Isabel através das suas memórias e da relação sempre tóxica que teve com a mãe.

O livro fala-nos também de uma parte da sociedade que era muitas vezes excluída. Isabel e a mãe viveram num bairro de lata e pertenciam a uma classe social marginalizada, marcada pela pobreza extrema, numa época em que faltava praticamente tudo.

Eu acho que a autora utiliza aqui uma forte metáfora da memória. A mãe de Isabel vai perdendo gradualmente a memória, e podemos aplicar essa metáfora à humanidade e à nossa própria sociedade, no sentido em que a nossa memória coletiva e histórica pode, aos poucos, ir sendo apagada.

Há partes em que voltamos ao passado e percebemos a atuação da PIDE. Há descrições dessa repressão e personagens que sofreram e que foram presas pela polícia política, o que é importante relembrar.

Num momento como o que vivemos hoje, acho ainda mais importante revisitar e preservar esta parte da história. Vivemos numa altura em que existe uma enorme quantidade de informação a circular, sobretudo online, mas também muitas tentativas de simplificar, distorcer ou até apagar partes do passado. Há cada vez mais pessoas que se apresentam como especialistas e afirmam factos sem fontes ou sem qualquer base histórica. O mundo, especialmente o mundo online, pode parecer por vezes uma verdadeira selva de informação. Por isso, acredito que é mesmo muito importante continuar a relembrar e reforçar esta parte da nossa história, ler sobre ela e falar sobre ela, para que não seja esquecida e para que possamos compreender melhor o presente.

Por fim, acho que a escrita da Filipa Martins é muito bonita. Em alguns momentos pode ser crua e também um pouco densa, mas é muito envolvente, ganhando ainda mais intensidade pelo facto de a autora ter afirmado que partiu da sua própria biografia familiar para esta história.

Para mim, é um livro magnífico. Gostei imenso.
Profile Image for Rosie.
486 reviews60 followers
July 18, 2026
** 4,5 estrelas **

Filipa Martins numa entrevista disse que sentiu a necessidade de entrar na história íntima da sua biografia familiar e é daí que nasce este livro poderoso:

"Há memórias que recebemos durante a infância, a juventude, quando ainda estamos numa fase de formação e uma fase formativa, e não compreendemos o seu peso; [memórias] que ouvimos à mesa da cozinha, entre vizinhas, nos encontros de família e pela repetição tornam-se quase episódios banais e, só mais tarde, entendemos que fazem parte de um arco maior, que é o arco da História. Neste romance, eu acho que a intimidade e a política, no sentido mais lato, respiram pelas mesmas feridas".

O livro aborda então esta dimensão íntima provocando o leitor quer com subtileza quer com uma assertividade desapiedada sobre desigualdade social e o passado colectivo, nas muitas experiências vivenciadas por uma “pedagogia de silêncio”, comum a várias gerações de mulheres. Numa urgência cívica, sem romantizar ou simplificar o passado, tenta sublinhar a importância de atentarmos na política vigente já que, infelizmente, parece que estamos a incorrer numa tendência de reinterpretação do Estado Novo desvalorizando as conquistas democráticas. Deplorável e assustador.

Sobressai o feminismo, o passado e o futuro, as passagens de mãe para filha e o papel da memória em tudo isso; é necessário estar muito atento a este vaivém, a este corrupio incessante tão bem urdido onde cabe tanto: no não dito mas ainda assim, dito está.

[sobre a mãe que padece da doença de Alzheimer]
"- Construa uma narrativa que tranquilize a sua mãe - sugeriu. - Fomos ensinados a encontrar sentido na nossa vida, a transformar episódios, até contraditórios, numa grande história artificialmente coerente. Grande logro, podemos concordar nesse ponto, mas até intuitivamente compreende a utilidade, maior quanto mais perto estamos da morte, de preservar a sensação de que vivemos com alguma finalidade." Pág. 217
"- A sua mãe já não se recorda da vida que teve. Percebe o quanto isso é assustador, numa altura em que, mais do que tudo, precisamos de encontrar significado?" Pág. 217
"Acabei por compreender intuitivamente o que o médico me quis dizer com «construa uma narrativa para a sua mãe» - pedia-me para a substituir na sua incapacidade de projectar o futuro, de ter esperança. Comecei a orgulhar-me daquele universo que erguia à custa da sua desorientação temporal e onde ela agora habitava." Pág. 220
Profile Image for Livros_escolhas_e_relaxar Marcia  Tavares .
247 reviews4 followers
May 7, 2026
📖 No Meu Fim Está o Meu Começo, de Filipa Martins 🤍

Mais uma estreia de uma autora portuguesa — e fiquei agradavelmente surpreendida. ✨

É uma leitura mais exigente, que pede tempo e atenção. Dei por mim a reler várias partes, tanto pela alternância entre tempos e memórias como pela linguagem cuidada e rica, fora do registo habitual. Ainda assim, surpreendeu-me muito pela maturidade da escrita.

Acompanhamos Isabel, enfermeira, enquanto cuida da mãe em declínio cognitivo… e, ao mesmo tempo, revisita a sua própria história.
Uma infância difícil, um pai ausente, um casamento falhado, uma maternidade atravessada por tensões sociais e raciais — fragmentos de vida que nunca chegam a cicatrizar totalmente.

💭 A ausência paterna está sempre presente — define-se pelo que não se sabe, mas influencia profundamente a vida de Isabel.
💭 E a doença da mãe… impossível não sentir. Ver os nossos pais perderem capacidades, a saúde a deteriorar-se, é duro.

O que mais me tocou foi a forma como o livro aborda o papel da mulher cuidadora 🤍
Existe quase uma expectativa silenciosa de que a mulher cuide de tudo — filhos, pais, casa — muitas vezes sem reconhecimento, sem descanso, sem espaço para falhar. E, muitas vezes, quem cuida é também quem mais é criticado.

Gostei também da forma como o livro recupera memórias de um passado marcado pela pobreza, pelo Estado Novo, pelo analfabetismo, pela violência doméstica, pela falta de informação e pelos filhos enviados para o Ultramar… realidades duras que marcaram gerações. 💭Gostei também da forma como o livro recupera memórias de um passado marcado pela pobreza, pelo Estado Novo, pelo analfabetismo, pela violência doméstica, pela falta de informação e pelos filhos enviados para o Ultramar… realidades duras que marcaram gerações. 💭
A falta de informação está muito presente — e gostei particularmente da forma como é abordado o momento em que Isabel descobre que está menstruada.

Fala também da PIDE, do medo constante e de como tantas pessoas arriscaram a liberdade — e até a vida — para lutar contra o regime. Da violência, das perseguições, das prisões e do silêncio imposto. Fez-me pensar em como, por vezes, ainda ouvimos dizer “devíamos voltar ao tempo de Salazar”… e como livros destes nos lembram da dureza real desses tempos.

🤍 Uma leitura intensa, sensível e muito humana. Daquelas que ficam connosco.
Profile Image for Monica Mil-Homens.
602 reviews32 followers
May 5, 2026
“Pensei que a determinada altura...parasses, percebesses e parasses.
- Parasse o quê?
-De ser como ela.”


Uma leitura comovente. Uma escrita tão doce como dura, selvagem. Estupidamente bruta.
Isabel, a narradora da sua história, da história da sua mãe, das histórias de todos os que passaram na sua vida numa época em que ainda não éramos livres em Portugal. E depois, bem depois de já sermos livres mas o que é na realidade a liberdade?

Numa profunda miséria social, Isabel cresce com a mãe e as irmãs num bairro onde tudo faltava. Fez-me de imediato lembrar a minha infância nas visitas à “barraca” da minha tia (que de barraca não tinha nada, até no chão se podia comer de tão asseado) no bairro Padre Cruz, entre terra batida e canaviais. As brincadeiras que Isabel descreve ter com a sua amiga Teresa em catraias, transportou-me para os dias passados junto ao poço e à figueira, onde tudo era simples, pobre, mas duma riqueza que jamais voltei a ter.

Mas falemos da mãe de Isabel. Uma mulher bruta, rude, que trata a filha mais nova como uma inconveniência. Sem saber quem é o pai, sem saber porque razão a mãe se foi comportando de forma leviana e submissa ao homem do Bairro que resolveu trazer para casa, numa altura em que a ditadura estava por um fio e que tudo se fazia em clandestinidade. No meio de tanta desigualdade social, a autora ainda teve tempo para

Infelizmente quis o destino que a mãe adoecesse, Demência que se instalou aos poucos mas que veio trazer a lume todas as coisas já esquecidas e convenientemente apagadas e Isabel, enfermeira, teve que lidar com a mãe no que fosse necessário. Mas a relação entre mãe e filha é tóxica até ao fim. Isabel casou, teve uma filha e a mãe teve logo uma conexão com a neta, mas não com a filha. Nunca a filha. A filha que foi aos poucos perdendo a sua identidade e ficando cada vez mais parecida a tudo o que a repugnava enquanto crescia.

Não me quero alongar muito mais até porque este livro tem camadas e camadas de dor, de sobrevivência e de aceitação do que não podemos mudar. E lá bem no fundo, bem escondido, o amor entre mães e filhas que por mais duro que seja, é único.

Eu “devorei” este livro. Achei a escrita da autora absolutamente linda, poética, e o título do livro faz jus a toda esta história de pessoas, de miséria e maus tratos, de censura e liberdade. E até que ponto a nossa liberdade começa, onde (in) felizmente acaba a dos outros.
@bibliotecamil_insta
Profile Image for Eduarda Luso.
94 reviews2 followers
June 22, 2026
Estou maravilhada com este pequeno grande livro! Já tanto foi dito, escrito e comentado, pela história e pela escrita, sempre de forma muito positiva e eu concordo plenamente! É uma escrita lindíssima, poética e que faz estarmos atentos a cada palavra pois o que acontece, o que se quer contar, tem de se perceber entre linhas! Tanto que sublinhei, que pouco sobrou! A capa do livro também é linda e o final do livro ainda conseguiu me encantar mais! Tão bom!
Duas gerações, Isabel e sua mãe, a doença, um pai ausente e tanta emoção, perda, identidade, e o passado entrelaçado com o presente!
Tão envolvente que mexeu comigo….e tenho muita dificuldade em escolher frases para aqui memorizar!

“O tempo é simultaneamente o que passa e escapa e o que dura e permanece. A negociação entre estes dois movimentos - o da perda e o da permanência …-, coloca-nos num presente incessante, seja este esperançoso ao projetar o futuro ou memorioso ao recordar o passado. Um alimenta-se do outro numa relação tóxica.”

“Poucas vezes se está no presente da atenção, aquele a que chamamos, equivocados, o dia de hoje. Saltitamos entre a espera e a memória. A espera a reboque da memória, que nos puxa pelo pescoço com uma corda.”

“… não podemos contrariar os adolescentes, há que respeitar-lhes os limites e as vontades, com medo de lhes abrirmos rachas na porcelana oriental de que são feitos.”
Profile Image for Gonçalves São.
8 reviews3 followers
July 4, 2026
A minha primeira observação interior acerca deste romance em particular foi de que ele dizia tanto nas palavras, como nos silêncios, dizendo de outra forma, no que está nas entrelinhas, no que a história sugere e não diz.
O romance começa com um " incipit" a primeira frase, deste modo:
" Desapareceu, 71 anos. Para sermos rigorosos, o desaparecimento começou a ser evidente há um ano
e deixou-lhe um sorriso ingénuo e duradouro."

Portanto sabemos à partida que vamos acompanhar e descobrir a vida desta personagem.

Mas não é só a vida desta mulher que acaba de morrer. É sobretudo o seu papel de mulher e de mãe num determinado tempo e num espaço histórico e social que se vai desvendando ao longo das páginas deste romance.
Ler este livro é reconstruir a história destas duas mulheres, mãe e filha e é também olhar para um país onde a pobreza, a violência contra as mulheres, o trabalho e a desumanização das crianças estavam normalizadas.
Este romance nas suas várias dimensões: humanas, sociais, culturais lembra-nos que a vida está sempre a recomeçar. Por vezes é "no meu fim está o meu começo."

A escritora Filipa Martins escreve um romance onde emergem várias camadas da vida humana e em particular da vida das mulheres num determinado tempo e num espaço. Escreve sobre a memória e esquecimento, sobre afetos, dores, silêncios, identidade e pertença.
Profile Image for Inês Gomes.
Author 11 books11 followers
July 29, 2026
A minha relação com este livro foi prejudicada pelo tempo que demorei a lê-lo. Tive inclusive de o recomeçar pois a história tinha-se diluído num outro livro que lia simultaneamente e que me impactava mais - “Matilde”.
Somos levados para um lado menos pacífico da portugalidade (nós que aprendemos a definir-nos como povo manso, não violento, versões enfabuladas, e em certa medida infantilizantes, que trocam a narrativa sobre balas e torturas por uma história de cravos, como se uma apagasse a outra).
Filipa Martins explica-nos que uma mudança de regime muda muita coisa num país, mas quase nada nas heranças transgeracionais. “No meu fim está o meu começo” ou “No meu começo se escreve o meu fim”. Os aspectos fulcrais da identidade: quem são os meus pais, de onde venho, que relação possível existe com a minha mãe, a que pai tenho acesso, são questões que se colocam de forma tão diferente e ao mesmo tempo tão igual nas duas gerações que aqui nos traz.
Profile Image for João Simões.
25 reviews1 follower
July 30, 2026
Livro pequeno mas a escrita é densa e desafiante. Levou-me aquilo que um romance de 400 páginas normalmente me leva a ler. É preciso concentração e capacidade mental para poder entrar na profundidade da narrativa. Uma história sobre uma filha que procura a sua identidade e o seu lugar ao mesmo tempo que encontra a própria história da mãe. Uma abordagem à camada social pré 25 de abril, dos dias de hoje e às dinâmicas familiares. Talvez porque tive dificuldade em determinados dias de aceder ao espaço mental que requere, sinto que me perdi por vezes na elevação da autora.
104 reviews
July 12, 2026
Um livro muito bem escrito, que nos conta a história de uma mãe e de uma filha, desde os tempos da pobreza e miséria do Estado Novo, até à actualidade, em que a mãe sofre de demência. Essa mãe e essa filha são inspiradas na avó e na mãe da autora, que nos conta diversos episódios reais. Sendo impossível parar de ler, é maravilhoso e imperdível.
Profile Image for Rita Carmelo.
70 reviews1 follower
May 28, 2026
4.5 // É a primeira vez que leio uma obra da Filipa Martins e fiquei fascinada pela sua escrita. Não é de leitura fácil, é necessário estar focada e atenta a cada frase lida. Mergulhei neste mundo da Isabel, das memórias e da importância do passado que nos define.
15 reviews1 follower
July 19, 2026
“A demência é um carro ao relenti num piso inclinado- diz-me, desenhando uma reta na diagonal com um declive, cada vez mais acentuado até à extremidade do papel. A ciência apenas cria desníveis que atrasam a progressão, mas é evidente que o carro continuará a andar, e cada vez mais rápido, devido à própria energia cinética.”
Profile Image for Carla Tomé.
48 reviews13 followers
May 29, 2026
Mais uma estreia de uma autora portuguesa. Escreve de uma forma tão bonita!!!
Numa profunda miséria social, a história é narrada por Isabel, numa época em que não éramos livres em Portugal. Gostei muito da forma como o passado influencia tudo o que acontece. A narrativa prende porque vai revelando as respostas aos poucos, mantendo sempre curiosidade suficiente para querer continuar. E mesmo quando achamos que percebemos para onde a história vai, ainda consegue surpreender. Para mim, é um livro magnífico! 5✨
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