Novo romance de uma das mais celebradas escritoras brasileiras de hoje.
Um jovem magistrado, em resposta a uma representação por excesso de prazo, precisa prestar contas de sua lentidão em um caso sensível que o acompanha há meses. Aos seus superiores, dirige uma espécie de defesa-autobiografia em que revisita os anos de carreira nas pequenas comarcas de Cláudia, Vera e Feliz Natal, no interior do Mato Grosso. Entre audiências, despachos e tentativas de conciliação, acumulam-se histórias extravagantes que expõem a afetação — e o ridículo — de todo um sistema que se quer solene, revelando as fissuras do universo de servidores que orbitam os fóruns, figuras tragicômicas como o próprio juiz, unidas pela contingência do cargo — e quase nada mais. E enquanto sela o destino dos outros, o jovem juiz vê o seu lhe escapar.
Transferido de cidade em cidade, cercado de relações provisórias e com dificuldade de construir laços duradouros — amigos, companheira, uma família possível —, enfrenta a experiência de ter autoridade sobre tudo, exceto a própria solidão. Em Cláudia Vera Feliz Natal, Mariana Salomão Carrara confirma a singularidade de um projeto literário que se reinventa a cada obra.
Com arquitetura narrativa ousada e domínio cada vez mais surpreendente da linguagem, a autora transforma o universo jurídico em matéria de ficção de alta voltagem e escancara o desconcerto cômico de quem acredita que a lei pode dar forma ao mundo — apenas para descobrir que o mundo insiste em escapar.
Mariana Salomão Carrara é paulistana, escritora e Defensora Pública, nascida em 1986. Tem publicados um livro de contos (Delicada uma de nós – Off-Flip, 2015), e os romances Idílico (EI, 2007), Fadas e copos no canto da casa (Quintal Edições, 2017), Se deus me chamar não vou (Editora nós, 2019, entre os 10 indicados ao Prêmio Jabuti 2020, em Romance Literário), “É sempre a hora da nossa morte amém” (Editora Nós, 2021, finalista do Prêmio São Paulo 2022 e entre os 10 indicados ao Jabuti 2022),”Não fossem as sílabas do sábado” (Todavia, junho/2022, Vencedor do Prêmio São Paulo 2023, Melhor Romance do Ano) e A árvore mais sozinha do mundo (Todavia, agosto/2024). Por contos e poemas avulsos, recebeu na juventude prêmios nacionais como Off-flip (2012), SESC-DF, Felippe D’Oliveira (2015 e 2016), Sinecol, Josué Guimarães e Ignácio de Loyola Brandão. Recebeu o segundo lugar no Prêmio Guiões (Portugal, 2019) pelo roteiro de longa-metragem É lá que eu quero morar.
Segundo livro de Carrara que eu leio, tendo sido precedido por Se não fossem as sílabas de sábado. O que me deixou contente é que, embora a autora use a voz narrativa na primeira pessoa nos dois romances, não se repete. Aqui, adentramos na mente, na vivência, nos medos e receios de um jovem magistrado estadual cujo nome não nos é informado e que, pela dificuldade de obter aprovação num concurso para a magistratura em seu estado de São Paulo, arrisca o concurso no estado do Mato Grosso, onde é aprovado, passa pela formação e tem de ir trabalhar em pequenas comarcas onde nada é certo e tudo pode acontecer.
Os medos desse jovem juiz não ficam circunscritos apenas ao imponderável nos confins do Brasil, onde conflitos de terras e questões diárias por vezes podem ser resolvidos com um tiro de arma de fogo (como se isso não acontecesse em outros locais mais litoráneos e que pretensiosamente se acham mais desenvolvidos), mas é, em especial, a partir de reflexões acerca dos poderes que são conferidos a uma pessoa que passa a ter a capacidade de tomar decisões sobre a vida dos outros. Essas reflexões humanizam muito o jovem juiz do romance, que por vezes pondera se não é melhor furar um olho, ter uma mão cortada para, assim, poder se aposentar na magistratura sem precisar correr os riscos de tomar decisões que possam ocasionar mal a outros e a si mesmo, ou se colocar em situações que comprometam o seu sentido de ética e de dever moral. E assim, seguimos seu início em Feliz Natal, depois Vera e por fim em Cláudia, onde tem o seu caso mais complicado, embora a princípio tudo indicasse solução rápida e fácil, e a partir do qual se origina o romance, escrito na forma de uma longa defesa própria à Corregedoria do Poder Judiciário do Mato Grosso.
Acaba por ser um romance original e bem construído, que me deu bastante prazer em ler.
Se você é fã de Dr. House e tem uma quedinha por seriados jurídicos como Law & Order ou Suits, esse livro é pra você. Ambientado no Brasil Profundo, conta as dinâmicas de um juíz que circula por pequenas comarcas do Mato Grosso (não confundir com Mato Grosso do Sul porque há rivalidade entre os estados). A narrativa traz um tom irônico e sarcástico, mas também muito contexto de uma região que aparece pouco no nosso imaginário, pois é pouco retratada. Algumas descrições, como o juíz se entender como uma espécie de “Roberto Carlos com poderes decisórios” são sensacionais. A adaptação e as situações pelas quais passa são divertidas e ajudam a ponderar sobre os desafios de julgar a realidade e lidar com os impactos de suas decisões. Mariana Salomão Carrara mescla de maneira ímpar sua escrita cuidadosa com seu conhecimento técnico, já que é defensora pública e tem amigos que circulam por estes espaços descritos. Cheguei a economizar a leitura de tão gostoso que estava. Recomendo pra quem quer um imaginário diferente no seu radar.
Mariana Salomão Carrarra é sempre genial. Aqui, além dos já sabidos limites da democracia, ela mostra o brilho que podem ter as pessoas no meio da máquina - ou a sombra. Desconstrói o estereótipo do juiz super seguro de si e mostra como cada um dá o que é para o processo legal, que fica diverso apesar das repetições inevitáveis. Afora isso, temos personagens muito bem construídos dretratos fidedignos do interior do país
Acabei de acabar Cláudia Vera Feliz Natal, de Mariana Salomão Carrara. Poucas escritoras brasileiras contemporâneas evoluíram de forma tão consistente de um livro para outro. A cada nova publicação, fica mais evidente o domínio técnico da autora sobre a linguagem, o ritmo e a construção da prosa. Depois de romances como Não fossem as sílabas do sábado e A árvore mais sozinha do mundo, acompanho seu trabalho com enorme expectativa e profundo respeito.
Talvez por isso esta tenha sido uma leitura particularmente difícil de avaliar.
Até a sinopse resiste a uma descrição simples. Um jovem juiz precisa responder a um procedimento administrativo e, ao escrever sua defesa, revisita diferentes momentos da carreira e da vida pessoal. Mas essa premissa funciona muito mais como um ponto de partida do que como uma trama propriamente dita.
Foi justamente aí que o romance menos funcionou para mim.
Mariana faz uma escolha formal bastante clara: abandona uma estrutura romanesca mais tradicional para construir uma sucessão de episódios independentes. Cada um deles é inteligente, bem observado e, muitas vezes, muito divertido. O cotidiano do Judiciário rende situações inusitadas, personagens memoráveis e um humor sutil que torna a leitura extremamente agradável. Para quem conhece esse universo, imagino que a identificação seja ainda maior.
Ao mesmo tempo, senti falta de uma linha narrativa que costurasse essas histórias e produzisse uma curva de tensão mais evidente. Os personagens entram e saem de cena, os episódios se acumulam, mas raramente tive a sensação de que um acontecimento impulsionava o seguinte. Ao terminar o livro, fiquei com a impressão de ter lido excelentes contos unidos por um mesmo narrador, e não um romance cuja estrutura conduzisse naturalmente até seu desfecho.
A qualidade da escrita, por outro lado, é irretocável. Mariana escolhe cada palavra com precisão, domina o ritmo das frases e faz a leitura fluir com uma naturalidade admirável. É um daqueles livros que continuam prazerosos de ler mesmo quando a narrativa não desperta a curiosidade sobre o próximo capítulo.
Também tive alguma dificuldade em me conectar com a voz do narrador, especialmente na primeira metade do romance. Em diversos momentos, nunca consegui esquecer completamente a presença da autora por trás daquela primeira pessoa. É uma percepção bastante subjetiva, naturalmente, mas acabou criando uma pequena distância entre mim e o personagem.
No fim, esta foi uma experiência curiosa. Sob o aspecto da escrita, encontrei uma autora em pleno domínio do seu ofício. Como romance, porém, senti falta de uma trama mais coesa e de reflexões que me provocassem com maior intensidade. Continuo considerando Mariana Salomão Carrara uma das escritoras mais importantes da literatura brasileira contemporânea e seguirei lendo seus próximos livros. Desta vez, apenas aconteceu de admirar muito mais a escritora do que a obra.
Ai, eu amo tanto a escrita da Mariana. Acho que esse livro foi o mais engraçado que ela escreveu desde Se Deus Me Chamar, Não Vou (eu li todos de lá pra cá). Ela tem esse jeitinho de escrever no ritmo dos meus pensamentos, parece que todos os protagonistas, desde Maria Carmem, estão lendo as conversas da minha cabeça. Não dei 5 estrelas pra esse livro na tentativa de fazer um ranking mesmo que pífio hahaha. Não é o meu preferido, mas ainda assim gostei muito, nenhuma novidade.
"[...] porque na maioria das vezes ele reinvidicava que eu fizesse justiça apesar da lei - uma decisão fundada mais no prudente arbítrio e no ponderado senso de justiça além da letra da lei (sic) -, e eu então lhe aplicava a lei, que, de modo geral, não faz justiça."