«Esses desconhecidos estão perto de nós. Gente que se reúne em caves, em garagens, em lojas suburbanas, para adorar a Deus. Gente que canta e que bate palmas, que proclama alto e bom som o amor a Deus. Gente que, no final, vem para a rua a sorrir. Gente que conhecemos mal.»
Após anos de ligação a uma igreja neo-pentecostal, João afastou-se e, mais tarde, criou o seu ministério independente. Nuno estudou no seminário baptista mas, a certa altura, compreendeu que a religião organizada estava a matar a sua fé. Foi então que decidiu fazer uma mudança radical na sua vivência da espiritualidade. Aleluia! é o retrato urbano, pessoalíssimo, de uma nação de fés no plural, narradas na primeira pessoa por B., o guia desta demanda que talvez seja também a dele.
BRUNO VIEIRA AMARAL nasceu em 1978 e licenciou-se em História Moderna e Contemporânea, pelo ISCTE. Em 2002, uma temerária incursão pela poesia valeu-lhe ser seleccionado para a Mostra Nacional de Jovens Criadores. Colaborou no DN Jovem, na revista Atlântico e no jornal i. É crítico literário, tradutor e autor do Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa e do blogue Circo da Lama. O seu primeiro romance, As Primeiras Coisas, foi distinguido com o Prémio Literário Fernando Namora e com o Prémio Narrativa do PEN Clube. É editor-adjunto da revista LER e assessor de comunicação das editoras do Grupo Bertrand Círculo.
Um livro interessante para se conhecer de forma mais próxima o cenário das "igrejas alternativas" em Portugal, embora se trate de uma perspectiva muito humana com a apresentação do percurso de casos concretos de pessoas ou grupos. A escrita de Bruno Vieira Amaral é irrepreensível.
Iniciei esta leitura motivada pela reportagem sobre as testemunhas de Jeová e pela entrega do prémio José Saramago ao autor.
Assim, consegui ficar com uma ideia da sua escrita - clara e fluída - e consegui esclarecer algumas ideias sobre a questão das minorias religiosas em Portugal, principal tema deste livro.
Gostei particularmente da forma franca e aberta como o autor abordou a sua experiência enquanto antigo membro das testemunhas de Jeová e de como se mantem continuamente aberto às vivências religiosas ou às posições dos não-crentes, estabelecido na sua dúvida, tal como eu.
O livro aborda o panorama dos cultos minoritários em Portugal, IURD, Testemunhas de Jeová, Maná, etc. As melhores partes do livro foram a forma franca com que o autor abordou a sua experiência enquanto antigo membro das testemunhas de Jeová, assim como a questão da Fé ser utilizada muitas vezes de forma exploratória e gananciosa. A Fé que, por sinal, é uma coisa muito íntima e pessoal e vivida por cada um de nós da sua forma peculiar. Gostava de ter visto abordada também a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (conhecidos na gíria popular como Elders), também apelidada de Igreja Mórmon.
Enxuto e bem escrito, na medida certa entre a simplicidade e a beleza da forma. Trata-se de um percurso pelo submundo das comunidades cristãs não-católicas em Portugal, contado a partir de testemunhos pessoais, de gente que o autor conhece e com quem fala, coração a coração, sem pé-atrás nem julgamentos a priori. Na narrativa, entrelaçam-se ecos da experiência pessoal do autor, um não-crente que cresceu numa família de Testemunhas de Jeová, com tudo o que isso aportou à sua formação pessoal e à experiência de descriminação que sentiu muitas vezes na pele. O melhor do livro é o modo como o autor deixa entrever a sua relação complexa com Deus: a mágoa de já não acreditar e, ao mesmo tempo, a associação que faz entre a não-crença, a liberdade e a responsabilidade pessoal. A admiração que sente pelos fiéis e, ao mesmo tempo, a distância que o separa deles. A obra é bem-sucedida na abordagem limpa que faz destes fenómenos religiosos. Talvez peque por não conseguir, nesse rasgo de abertura de espírito com que os olha, fazer precisões teológicas que seriam importantes (as Testemunhas de Jeová, por exemplo, não serão exactamente "cristãs", e a distinção entre "igreja" e "seita" não pode ser vista apenas como uma arbitrariedade de pendor discriminatório).
Quase sempre que a religião é abordada fico com dores de cabeça. Julgo que não é por acaso, é que o a polêmica e a subjectividade predominam. Gostei de ler este livro por apresentar alguns factos de religiões minoritárias. A Fé é difícil de definir. Usar a fragilidade humana para proveito pessoal é comum. Não sei opinar sobre assuntos que não são evidenciáveis por qualquer motivo, mas concordo que a Fé é utilizada, muitas vezes, no âmbito da ganância, não só monetária como de outra índole.