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Um Corpo para Jaime
Jaime precisava morrer, mas não tinha um corpo. E aí estava todo o seu problema. Viver sem um corpo, como ele mesmo provou, era viável, ainda que não fácil ou simples – postagens periódicas nas redes e interações constantes no Whatsapp, uma manobra aqui e ali para continuar assegurando aos outros a própria veracidade, e as coisas caminhavam, de certo modo. Poucos duvidam da existência de alguém, as pessoas têm pouco tempo. Ele seguiu vivendo enquanto pôde, até que não foi mais possível, porque o seu caminho, ao invés de continuar adiante, voltou-se em círculos. Logo: matar-se sem possuir propriamente um corpo.
Para um enterro digno de ser acompanhado, fotografado, postado e curtido por outras pessoas, era preciso, ao menos, algo que fizesse um bom peso no caixão. E conseguir um corpo demandaria também obter documentos válidos do defunto, porque qualquer funerária exigiria a comprovação de que o óbito se deu e assim foi registrado, ainda que o cadáver fosse isso, um cadáver.
Necessário também comprovar o vínculo com o defunto; nesse caso, provar que o defunto era ele mesmo e que teria, portanto, o direito de enterrá-lo, enterrar-se. Afastar a possibilidade da existência de um parente ou amigo próximo do cadáver, alguém que aparecesse de surpresa e reivindicasse o direito de enterrar o corpo. Outra preocupação, assegurar ao defunto uma causa mortis trivial, nada que chamasse a atenção – fosse um assassinato, por exemplo, ou suicídio, o enterro atrairia curiosos, imprensa… enterrar alguém morto em condições não totalmente esclarecidas é uma complicação maior. Ainda que a morte seja nosso unânime mistério, exigimos que as circunstâncias em que ela se deu sejam esmiuçadas em um papel, por isso a documentamos, não sem antes registrarmos os nascimentos, assim tem sido. Não explicamos, mas registramos, catalogamos, arquivamos, verbos burocráticos nos dão a ilusão de controle.
A última coisa de que ele precisava eram mais complicações com a polícia. Então estava certo, Jaime carecia de um corpo, e não se pode morrer sem um. Quem sabe: defunto sem dono, mendigo de poucas queixas morto de frio, crackeiro coberto de esgoto, pomba silenciada pelos motores, tudo isso na madrugada. Alguém que tivesse morrido de forma terrivelmente solitária (como se todas não fossem); um ser feito Mariano, imperceptível, quase.
Mariano começou a pensar nessas questões complexas cerca de oito meses depois de ter criado Jaime. No dia em que Jaime nasceu, um dia sem graça e sem vento em Brasília, Mariano não imaginava o quanto poderia ser complicado o processo de se desfazer dele. Aliás, nem imaginava como Jaime poderia ser importante. Apenas supunha entrar em uma vida nova, uma vida na qual se escolhesse o caminho e as conjunturas a serem vividas e compartilhadas, não essa vida pálida que mastigava há anos sem sentir o gosto.
Para um enterro digno de ser acompanhado, fotografado, postado e curtido por outras pessoas, era preciso, ao menos, algo que fizesse um bom peso no caixão. E conseguir um corpo demandaria também obter documentos válidos do defunto, porque qualquer funerária exigiria a comprovação de que o óbito se deu e assim foi registrado, ainda que o cadáver fosse isso, um cadáver.
Necessário também comprovar o vínculo com o defunto; nesse caso, provar que o defunto era ele mesmo e que teria, portanto, o direito de enterrá-lo, enterrar-se. Afastar a possibilidade da existência de um parente ou amigo próximo do cadáver, alguém que aparecesse de surpresa e reivindicasse o direito de enterrar o corpo. Outra preocupação, assegurar ao defunto uma causa mortis trivial, nada que chamasse a atenção – fosse um assassinato, por exemplo, ou suicídio, o enterro atrairia curiosos, imprensa… enterrar alguém morto em condições não totalmente esclarecidas é uma complicação maior. Ainda que a morte seja nosso unânime mistério, exigimos que as circunstâncias em que ela se deu sejam esmiuçadas em um papel, por isso a documentamos, não sem antes registrarmos os nascimentos, assim tem sido. Não explicamos, mas registramos, catalogamos, arquivamos, verbos burocráticos nos dão a ilusão de controle.
A última coisa de que ele precisava eram mais complicações com a polícia. Então estava certo, Jaime carecia de um corpo, e não se pode morrer sem um. Quem sabe: defunto sem dono, mendigo de poucas queixas morto de frio, crackeiro coberto de esgoto, pomba silenciada pelos motores, tudo isso na madrugada. Alguém que tivesse morrido de forma terrivelmente solitária (como se todas não fossem); um ser feito Mariano, imperceptível, quase.
Mariano começou a pensar nessas questões complexas cerca de oito meses depois de ter criado Jaime. No dia em que Jaime nasceu, um dia sem graça e sem vento em Brasília, Mariano não imaginava o quanto poderia ser complicado o processo de se desfazer dele. Aliás, nem imaginava como Jaime poderia ser importante. Apenas supunha entrar em uma vida nova, uma vida na qual se escolhesse o caminho e as conjunturas a serem vividas e compartilhadas, não essa vida pálida que mastigava há anos sem sentir o gosto.
172 pages, Paperback
First published January 1, 2026
About the author
Luiza Fariello
1 book2 followersLuiza Fariello é professora de Língua Portuguesa e doutoranda em literatura na Universidade de Brasília (UnB), onde pesquisa metodologias para ensino de poesia em sala de aula. É autora de dois livros de contos: Essa palavra eu não falo, semifinalista do Prêmio Oceanos (2022) e finalista do Prêmio Candango de Literatura (2022) e Hoje, deserto, finalista do Prêmio Candango de Literatura (2025), ambos lançados pela Editora Patuá. Um corpo para Jaime é o seu primeiro romance.
Atraída pelo jornalismo, sua primeira profissão, deixou a capital paulista, onde nasceu, para se estabelecer em Brasília há quinze anos. Atualmente é professora da rede pública do Distrito Federal, dedicando-se especialmente à formação de jovens leitores. Luiza é mãe da Bia, do Chico e do Vini.
Atraída pelo jornalismo, sua primeira profissão, deixou a capital paulista, onde nasceu, para se estabelecer em Brasília há quinze anos. Atualmente é professora da rede pública do Distrito Federal, dedicando-se especialmente à formação de jovens leitores. Luiza é mãe da Bia, do Chico e do Vini.
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Community Reviews
Displaying 1 - 2 of 2 reviews
August 24, 2026
O romance de Luiza Farielo é envolvente do começo ao fim. Pesado, denso, aborda tecnologia e IA de um modo natural, sem tecnicismos e com doses brutais de realidade. Um solitário técnico de TI, em Brasília, cria um personagem virtual, que começa a sair de seu controle. A pressão por um encontro presencial com uma paquera virtual o faz decidir pela morte do avatar. Mas ele quer um corpo real para isso. Não é spoiler, a gente sabe disso no título do livro e na primeira página. Mas o percurso para conseguir um cadáver é a grande sacada do romance. Incrível. Leiam.
This entire review has been hidden because of spoilers.
August 28, 2026
Os perfis fakes são uma realidade desde que as redes sociais existem (e até antes disso, mas com outro nome). Há os que os criam para passar golpes, os que os criam para acessar recantos excusos da Internet, e os que os criam para viver uma outra vida digital, onde possuem mais controle, mais agência.
No caso de Mariano, um solitário técnico de TI em Brasília, a criação de Jaime, pelo menos a princípio, se encaixa na terceira categoria.
Com a ajuda de IAs e um acesso privilegiado a documentos sigilosos de empresas, Mariano cria, em Jaime, a vida que nunca teve. Jaime esbanja sucesso como CMO de uma empresa de investimentos, ostenta fotos de viagens internacionais e exibe o corpo esculpido com disciplina em paisagens paradisíacas, sempre acompanhado de frases de autoajuda. Não demora, Jaime atrai seguidores, fãs e admiradoras.
Porém, à medida que Mariano se envolve na vida falsa e perfeita de Jaime, sua existência se torna cada vez mais difícil de fingir, levando-o à decisão de matar Jaime e fazer um velório. Mas como matar alguém que não tem corpo? Eis, então, a busca que dá título ao romance de @luizafariello: encontrar um corpo para se passar por Jaime.
Tem início, então, um thriller instigante que se coloca como uma inversão da dualidade do clássico Dr. Jekyll e Mr. Hyde, onde descobrimos, pouco a pouco, a real natureza de Mariano, que se mostra numa intersecção de psicopatas como Lou Bloom, de O Abutre, Jean-Baptiste Grenouille, de O Perfume, e de Gabriel Pasternak, de Relatos Selvagens.
Não se enganem pela belíssima capa: esse é um romance desconfortável, repleto de imagens e ações fortes, mas, por isso mesmo, impossível de largar.
Recomendo!
No caso de Mariano, um solitário técnico de TI em Brasília, a criação de Jaime, pelo menos a princípio, se encaixa na terceira categoria.
Com a ajuda de IAs e um acesso privilegiado a documentos sigilosos de empresas, Mariano cria, em Jaime, a vida que nunca teve. Jaime esbanja sucesso como CMO de uma empresa de investimentos, ostenta fotos de viagens internacionais e exibe o corpo esculpido com disciplina em paisagens paradisíacas, sempre acompanhado de frases de autoajuda. Não demora, Jaime atrai seguidores, fãs e admiradoras.
Porém, à medida que Mariano se envolve na vida falsa e perfeita de Jaime, sua existência se torna cada vez mais difícil de fingir, levando-o à decisão de matar Jaime e fazer um velório. Mas como matar alguém que não tem corpo? Eis, então, a busca que dá título ao romance de @luizafariello: encontrar um corpo para se passar por Jaime.
Tem início, então, um thriller instigante que se coloca como uma inversão da dualidade do clássico Dr. Jekyll e Mr. Hyde, onde descobrimos, pouco a pouco, a real natureza de Mariano, que se mostra numa intersecção de psicopatas como Lou Bloom, de O Abutre, Jean-Baptiste Grenouille, de O Perfume, e de Gabriel Pasternak, de Relatos Selvagens.
Não se enganem pela belíssima capa: esse é um romance desconfortável, repleto de imagens e ações fortes, mas, por isso mesmo, impossível de largar.
Recomendo!
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