Um romance notável pela sua contenção ao falar de temas extremamente difíceis com extraordinária elegância, um bom retrato da juventude contemporânea.
Na Praceta das Tílias, onde as pessoas mal se veem na azáfama dos dias, ninguém sabe o que acontece na porta ao lado. É entre quatro paredes que nasce esta história.
Esmeralda esforça-se por ser a mãe que lhe faltou em criança e por dar à filha o que não teve. E Teresa parece ter tudo para ser uma adolescente feliz. Porém, uma descoberta perturbadora estilhaça a harmonia familiar e põe à prova os laços entre mãe e filha.
Ao contrário da sua amiga Teresa, Ana Lurdes cresce desamparada numa casa onde o amor não entra, refugiando-se nos poemas que escrevinha nas aulas. Já Sebastião, que guia um táxi pela cidade, anda desnorteado desde que a vida lhe trocou as voltas; quem o segura é Olívia, a filha sempre atenta ao que a rodeia - sobretudo quando observa Teresa da janela do seu quarto e desenha o que mais ninguém vê. E Lúcia julga que tem tudo controlado, até ao dia em que sofre um ataque violento; mas, quando volta à casa da infância para se restabelecer, percebe que o maior perigo, afinal, vem de onde menos esperava. A turbulência que abala todas estas personagens levanta o pó do que está para trás, deixando a descoberto cicatrizes e segredos. E, quando tudo falha, até os vínculos mais fortes se podem romper.
Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno - o quarto romance da autora já duas vezes finalista do Prémio LeYa - é uma obra notável pela sua contenção ao falar de temas extremamente difíceis com extraordinária elegância. Surpreende até à última página e oferece-nos um bom retrato da juventude contemporânea.
Susana Piedade nasceu em 1972, no Porto. É mestre em Ciências da Comunicação, com especialização em marketing e publicidade. A paixão pela escrita veio para ficar. Estreou-se na literatura com As Histórias Que não Se Contam, finalista do Prémio LeYa em 2015 e publicado no ano seguinte nesta mesma coleção, a que se seguiram o romance O Lugar das Coisas Perdidas (2020), o conto «Dois Minutos e Meio até Passar o Comboio», integrado no projeto Mapas do Confinamento (2021), e o romance Três Mulheres no Beiral, finalista do Prémio LeYa em 2021 e semifinalista do Prémio Oceanos 2023. Uma Porta de Vidro entre o Céu e o Inferno é o seu quarto livro de ficção.
Quatro anos depois do último livro, a Susana volta a surpreender-me. Neste intervalo, fui alimentando as minhas expectativas. Sem querer pressionar, mas também sem esconder a curiosidade, lá ia perguntando: “Então, e o próximo?”. No fundo, sei que, seja qual for o tema, eu vou ser sempre sua leitora. Assim que li a sinopse, tive logo o pressentimento de que este ia ser daqueles que ficam. Mais um mergulho nas emoções que preferíamos manter guardadas, bem fechadas numa gaveta qualquer. E bastaram-me as primeiras páginas para perceber que não estava enganada. Mantém-se a intensidade narrativa a que a Susana já nos habituou, mas desta vez com um foco especial na adolescência, o que, só por si, já é um exercício de grande ousadia, não fosse esta uma fase tão complexa, cheia de nuances, que nem sempre é retratada com a honestidade que merece. Na praceta das Tílias, esse espaço indefinido, as vidas das personagens cruzam-se de forma inevitável. São pessoas muito diferentes entre si, cada uma com as suas dores e as suas feridas, mas que acabam ligadas por fios invisíveis, como numa teia em que ninguém está verdadeiramente isolado. A construção das várias personagens e a ligação que a autora faz entre elas é notável: cada história individual acaba por ter impacto nas restantes, já que cada vida acaba por ser determinante para as outras, como se ninguém conseguisse atravessar a sua própria história sem a ajuda, consciente ou não, de quem vive mesmo ao lado. Não é uma leitura fácil. Muito menos uma leitura confortável. Mas é uma leitura muito necessária. A escrita mantém-se cuidada, rigorosa, com aquela atenção ao detalhe que já lhe reconhecemos. Nota-se ainda mais precisão na forma como constrói cada personagem, em cada frase que escolhe, como imprime cada silêncio e como omite o que não quer dizer, porque não há necessidade. Nos seus livros, é visível a contenção da sua escrita: a autora escolhe bem o que diz, mas, sobretudo, tem maior atenção ao que prefere não dizer. É uma leitura dura, mas talvez seja essa contenção, essa escolha consciente do essencial que revela que torna tudo mais impactante. Não há excessos, não há condução emocional: há espaço para que o leitor sinta, por si, o que precisa de sentir. Porque, nos livros da Susana, há tanto valor no que é dito como naquilo que fica por dizer. E o fim… gostei muito! Pela escolha corajosa. Por não ceder à tentação de um final fechado ou, de alguma maneira, reconfortante. Por deixar perguntas sem resposta. Por confiar no peso do que não é dito, porque há silêncios que tudo revelam. Parabéns, Susana!
Que realidade se faz por esquecer para dar tréguas ao passado? Como moldamos o comportamento ao julgamento dos outros? Como nos reconstruimos? Podemos?
Susana Peidade é uma das minhas escritoras. Para mim, este livro foi um mergulho emocional. Assentou como uma luva na espectativa que tinha, como já me tinham cativado as outras obras da autora. Considero uma mestria a precisão cirúrgica com que escreve, a forma como a contenção na escrita cria impacto, como consegue abordar temas de enorme violência psicológica sem cair no erro do melodrama. Há quatro anos que esperava este livro. A Susana pode escrever sobre o que quiser, eu vou querer ler.
As histórias reais estão cheias de aleijados.
Uma mente desgovernada está sempre em risco de colisão.
Porém, cada um veste a sua pele, trava as suas batalhas, cuida dos seus golpes; a experiência não torna ninguém perito no sofrimento dos outros.
é difícil para mim classificar este livro porque: 1) gosto muito da sensibilidade e maturidade da susana 2) acho a escrita muito delicada e bem articulada 3) acredito que é uma crítica mais pessoal que propriamente imparcial
ainda assim, este livro é demasiado dramático para mim. não resultou. e houve muitas passagens "instragramaveis" que nunca funciona comigo. pelo contrário, estraga-me o encanto da leitura.
acredito que quem tenha maior sensibilidade emocional que eu (o que não é difícil, sinceramente) irá gostar e, por isso mesmo, recomendo darem uma oportunidade
"Às vezes alimentamos os nossos demónios como feras de estimação."
"Não te preocupes, mãe - disse Lúcia, sabendo que aquele abraço a seguraria para sempre."
Nunca sei o que dizer dos livros da Susana Piedade, porque sinto que não tenho maturidade para falar deles; que me falta a idade.
São livros belos, tristes e tão reais quanto a ficção permite. São envolventes até nos impedirem a respiração, até nos deixar as lágrimas nos olhos.
Tudo neste livro é dilacerante e deixou-me com um nó na garganta, tanto pelo que me revi no livro quanto por aquilo que, por sorte (por amor) não revi. É tenso até o final. Não por ser um thriller, mas por ser real; assustadoramente real, e possível.
Estreia com a autora e não me desiludi. Li sem qualquer expectativa e encontrei uma escrita bonita, humana, focada na forma em como os protagonistas superam o trauma e as agruras da vida. Na praceta das Tílias, todas as vidas se cruzam e convergem. Esmeralda e Francisco lutam para perceber a melancolia da filha, Ana Lurdes só queria o amor da mãe, Sebastião conduz um táxi enquanto cria a filha Olívia, menina tão esperta e sensível. Lúcia viu a sua vida como a conhece fugir-lhe pelos dedos e regressa à sua casa de infância na praceta para se recompor. E entretanto acontece algo que muda tudo.
São estórias de vidas distintas mas que de uma forma ou outra se cruzam e acabam por ser determinantes para todos seguirem em frente. São abordados temas sensíveis como saúde mental, alienação parental, doença prolongada, abuso e violência, mas com sensibilidade e respeito pelos envolvidos. E acima de tudo senti que nem sempre têm que existir finais felizes para que exista maior impacto da narrativa na leitura. A força das personagens assim como a escrita da autora fazem com que seja uma leitura rápida, bonita e marcante.
Recomendo, e já tenho mais livros da autora comigo para ler, fiquei muito fã.
“Nem sempre a morte tem a ultima palavra” “Olharam durante muito tempo para a parede em branco e, a certa altura, fecharam os olhos. Afinal, o escuro era igual em qualquer parte.”
Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno aborda temas fortes como trauma, família e superação, com personagens emocionalmente complexas e uma escrita sensível. Reconheço o cuidado com que a autora constrói as diferentes histórias e as entrelaça, mas, no meu caso, a leitura acabou por não ter o impacto emocional que esperava. O ritmo pareceu-me irregular e tive alguma dificuldade em criar ligação com certas personagens. Ainda assim, é um livro com reflexões interessantes e momentos que dão que pensar. Apesar das suas qualidades, não foi uma leitura que me conquistasse por completo.
Acabei de o ler com o coração apertado e um misto de emoções. É um livro forte, que aborda temas pesados, como o suicídio, a depressão, a morte e outros. Retrata realidades que podem estar ao nosso lado e que não fazemos ideia que acontecem. Adorei a história e a escrita é muito boa!!
« Os filhos moldam o nosso colo e o coração para a vida e, quando se afastam, ficamos como cadeiras vazias, talhadas à medida deles, à espera de que voltem.»
« Andamos uma boa parte da vida a esculpir diferenças e, a certa altura, só queremos ser comuns, com dramas portáteis e simples de manejar. »
« A maior violência é a que cometemos contra quem mais amamos. Há coisas que se dizem e fazem que nos desmerecem e magoam profundamente, ofensas, atos e agressões que abrem fissuras para o resto da vida. Quando crescemos a tapar fendas que o passado deixou e comprometemos o que nos resta de tecido são, os danos podem ser devastadores. »
Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno reveste-se de sinais, de diferentes tipos de perda e de desencontros. Num meio onde ninguém se conhece realmente, ficamos a saber de casos de alienação parental, de doença prolongada, de abuso e de violência. Por esse motivo, este livro é plural nas suas dores, quer nas do passado que acabam a condicionar o presente, quer nas do presente que nos acompanham sem data para nos libertarem. Ao refletirmos acerca da possibilidade de nos reconstruirmos ao longo do tempo, torna-se inequívoco que uma simples descoberta estilhaça a nossa harmonia, deixando entreaberta esta porta que nos mantém equidistantes da paz e do precipício.
Que livro incrível! Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno mostra os segredos escondidos por trás das famílias perfeitas. É uma leitura viciante, realista e muito intensa. Recomendo muito!!!