RODRIGO GUEDES DE CARVALHO nasceu no Porto, a 14 de Novembro de 1963. Licenciado em Comunicação Social, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, profissionalizou-se na RTP. Actualmente é subdirector de Informação da SIC. Em 1997 recebeu o Prémio Especial do Júri do Festival FIGRA, em França, pela reportagem A condição humana, sobre as urgências hospitalares. Em 1992 estreou-se na escrita, com o romance Daqui a Nada, vencedor do Prémio Jovens Talentos da ONU, conhecendo uma reedição pela Publicações Dom Quixote, em 2005. Nesse ano lançou o best-seller A Casa Quieta e assinou o argumento da longa-metragem Coisa Ruim, co-realizada pelo seu irmão Tiago Guedes. É ainda autor de A Mulher em Branco (2006), Canário (2007), O Pianista de Hotel (2017), Jogos de Raiva (2018) e Margarida Espantada (2020).
Portugal, 2066. Mais drones do que pássaros, água racionada e toda a gente com Eyephones nos olhos. O futuro próximo como espelho do presente.
Trata-se de uma sátira inteligente e desconfortável. Rodrigo Guedes de Carvalho pega nos vícios que conhecemos bem, a manipulação das massas, a ascensão da direita, o culto da juventude, o egoísmo dos governantes, o facilitismo da linguagem, a destruição ambiental por interesse imediato, e projecta-os cinquenta anos à frente. O resultado é reconhecível demais para ser ficção confortável.
A Ava Carina é a personagem que fica. Nunca teve cargo oficial mas atravessou décadas intocável. É a sombra por trás de cada líder, a ministra da Influência que não pode ser criticada, que bajula ou despede, que molda o que as massas pensam, acham e escolhem. É o poder que cooptar quem ainda pensa, com condições. O poder real raramente tem nome oficial.
A Laura Ganjavi é o contraponto. Jornalista, escritora, a voz que ainda observa, analisa e mantém a integridade mesmo quando o mundo à volta desistiu disso. Acredito que é o alter ego do próprio autor. A forma como Rodrigo Guedes de Carvalho se insere na história através desta personagem é subtil mas completamente intencional. Faz sentido quando percebemos o que está a fazer.
Mas a Laura aceita o convite da Ava, com condições. E é aí que o livro fica genuinamente incómodo. Porque resistir de fora é fácil. Manter a integridade dentro do sistema que criticas é outra conversa completamente diferente. E muito mais honesta.
Em pano de fundo, o fim do planeta. Desta vez sério e sem solução. E a pergunta que o autor deixa no ar é real: num mundo a desmoronar-se, onde cada vez se lê menos e a linguagem se empobrece a olhos vistos, escrever para quê? E para quem?
Muito actual para ser ficção. Gostei! @livros100fim
Primeiro livro que leio do Rodrigo. Excelente primeira experiência, com um romance que é mais na verdade um ensaio bastante pertinente de uma projeção do que a sociedade portuguesa e mundial se irá provavelmente tornar desde hoje até mais ou menos daqui 40 anos, através dos dados que podemos analisar atualmente do estado atual de coisas. Política, sociologia e naturalmente, a psicologia e comportamentos humanos, transversais a tudo isto, são objetos de sátira mordaz, tal como a algumas "personagens" da nossa sociedade atual (tenho uma opinião de "quem é" a Ava Carina, mas deixo para os leitores aferirem ;) ), com críticas explícitas e implícitas a extremismos (de ambos os lados da balança), mostrando que a nossa espécie tem muita coisa boa e má, mas tem sobretudo um incrível dom para a autodestruição, para onde todos, a este ritmo, caminhamos alegremente. Ou para isso, ou novamente para a caverna. O que acontecer primeiro. 4,5 Estrelas.
O Rodrigo emociona-me sempre e é muito fácil deixar-me levar pela sua prosa inteligente, fluída, elegante e envolvente. No caso deste livro, além da emoção, experimentei também outros sentimentos e, de forma quase permanente, o sorriso. O sorriso perante o humor sarcástico com que o autor aborda temas profundos, tais como a alienação digital e a forma como o mundo está subjugado aos interesses económicos. Ava Carina é a personificação desse mundo, é ela que tudo controla ( penso que já se podem ver algumas Avas Carinas em 2026...) e é ela que dá a Laura Ganjavi ( o nome Laura tem uma grande carga simbólica) a missão de resgatar a palavra escrita neste mundo distópico de 2066. É aqui feito um importante alerta em relação ás consequências da falta de leitura, principalmente a incapacidade de construir ideias e argumentos. Com muita sensibilidade, o autor leva-nos a refletir sobre a humanidade, sobre nós, as nossas fragilidades e a nossa desesperança perante o extremismo político, a crise climática e o poder da desinformação. Lutar e estar atento é cada vez mais difícil nesta sociedade anestesiada pela tecnologia, por algoritmos e vaidades. Este mundo futuro á beira do colapso não me parece muito diferente do presente e até, em muitos aspetos, do passado. É como se houvesse um diálogo entre as três dimensões temporais que se interligam como camadas de um todo. O que é ainda mais assustador, porque somos nós sempre os protagonistas. Ignorantes do apocalipse iminente, " hoje, toda a gente acredita que tem ainda tempo". E sempre assim foi... Talvez o final transmita a mensagem que a escrita consegue suspender o tempo e continuar a fazer sentido. Recomendo vivamente!
O Meu Primeiro Apocalipse é um daqueles livros que mistura ficção, ensaio e crítica social de uma forma bastante particular. Foi inicialmente estranho ler uma narrativa em que o autor escreve sobre si próprio, mas rapidamente percebi que essa escolha faz parte da identidade da obra.
Apesar de passar por alguns lugares-comuns do género, o livro destaca-se pelas reflexões que provoca sobre temas extremamente atuais, como a inteligência artificial, a política e a forma como a sociedade se está a transformar. Muitas das ideias apresentadas são inquietantes, por parecerem bastante possíveis.
Bruna e Soraia foram uma agradável surpresa. Funcionam como contraponto ao tom mais sério da narrativa, acrescentando humor, sátira e alguma leveza a um discurso que, por vezes, pode tornar-se pesado. Gostei particularmente de perceber, no final, qual era a verdadeira finalidade destas personagens.
A história desenvolve-se de forma lenta, mas consistente. A estrutura é lógica e bem construída, desenrolando-se gradualmente como um fio de lã que vai revelando novas camadas ao leitor. Mais do que a ação em si, o foco está nas ideias e nas questões que o livro levanta.
No geral, gostei da leitura. É uma obra com uma crítica social mordaz, personagens curiosas e muitas reflexões.
Ficção, mas também uma espécie de ensaio. É uma espécie de antevisão/crítica da sociedade atual com olhos no futuro. Acredito que não será muito diferente do que se "imagina" no livro. Gostei.
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" Eu não sei se sou vaidosa. Se sim, de quê? A primeira carta do baralho é a cara que Deus nos deu, a segunda é o corpo que sustenta a face. Não adiantam grandes teorias, questionarmos se devia ou não ser assim, lembrar diferenças entre aspecto e essência, relevar a importância da alma, o peso da alma, o blá-blá-blá da beleza interior, a natureza mais exacta do que somos, que pode não ter ficado muito exacta do lado de fora, o lado que primeiro mostramos aos outros. O embrulho."
"Há demasiado tempo que isto anda tudo num pantanal que não conhece meio-termo, meias-palavras, meia posição para um lado e meia para o outro. Nada de podermos ter simpatia só a dois terços por algo, ou de podermos abraçar causas onde também vemos algumas imperfeições."