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Xaxim

Xaxim é o nome que se dá ao tronco fibroso usado como vaso para certas samambaias. É também uma cidade no mapa, no interior do Brasil. É nesse duplo território, matéria e lugar, que Ieda Magri constrói uma narrativa em que o passado se infiltra no presente e a memória se organiza menos como linha do que como sobreposição. Na casa das freiras, onde passa a infância e a adolescência, a narradora aprende a olhar o mundo ao mesmo tempo em que toma distância dele. Entre a disciplina dos dias e as pequenas epifanias que marcam a formação de uma jovem leitora, emerge uma geografia íntima, um museu imaginário feito de imagens, dúvidas e tentativas de entender o próprio lugar no mundo. Ao revisitar essa história, já adulta, ela não busca respostas, mas as formas que a memória encontra para permanecer. Como uma infiltração que se espalha lentamente, o passado desenha mapas imprecisos, nos quais vida, linguagem e experiência se confundem. Em Xaxim, Ieda Magri confirma a força de uma escrita que transforma o íntimo em paisagem e faz da lembrança não um abrigo, mas um campo de investigação: como pode um mapa de caminhos palmilhados no passado se impor à geografia do presente?

121 pages, Paperback

First published January 1, 2026

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About the author

Ieda Magri

13 books4 followers
Ieda Magri nasceu em Águas Frias (SC) e vive no Rio de Janeiro. É doutora em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora de Teoria da Literatura nos programas de graduação e de pós-graduação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

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Profile Image for maria julia.
118 reviews9 followers
July 6, 2026
"Reconheço a minha cabeça no teto do museu. Agora é com ela que eu falo."

primeiro livro que leio da ieda, e com certeza um dos melhores livros que li esse ano até agora. verdadeiro, visceral, divertido, lindo, escrita de si em uma de suas melhores formas.
Profile Image for Alysson Oliveira.
407 reviews47 followers
July 4, 2026
Xaxim, de Ieda Magri, começa com um mapa, localizando a cidade que dá nome ao livro. Poucas páginas depois, esse mapa aparece num formato diferente foi desenhado por alguém. Esse mesmo mapa se repete de jeitos diferentes ao longo do romance, que, de maneira quase metafísica, faz uma cartografia da memória.

Conhecida mais como a samambaia, Xaxim, também, é um município de Santa Catarina, onde se passa parte da vida da narradora-protagonista – uma figura de lembranças marcantes e detalhadas, ainda que cobertas por uma bruma do tempo. Magri entra nessa bruma quase como uma personagem de filme de terror entrar numa bruma perigosa.

Os perigos aqui são maiores do que quaisquer monstros, pois vivem nas memórias, em narrativas do passado confusas. Fredric Jameson aponta que, na pós-modernidade, a experiência do tempo é destruída enquanto o espaço domina. Vivemos no presente eterno – e é isso que a autora figura aqui: a experiência do passado que nos constituiu mas borrou as fronteiras e se tornou o eterno agora.

“Me apavora saber que tantas pessoas importantes [na minha vida] estejam perdidas para mim. Que não possa encontra-las no mapa, que não possa ir até elas, bater em sua porta e dizer um Oi, quanto tempo!”

É essa percepção da vida diante dos fragmentos de construção das lembranças que tornam a narrativa mais viva e pungente. Memórias, aliás, são matéria fundamental à literatura de Magri, como Uma Exposição e Um crime bárbaro – nos quais o ato de narrar é fagocitado pelas lembranças. Ou vice-versa?

Obviamente, tudo isso passa por classe e gênero – coisas que não passam despercebidas no livro, e, pelo contrário, são determinantes na vida a personagem. As mulheres do romance estão sempre trabalhando, da narradora às freiras com quem ela mora por um tempo. A esfera da esfola é parte indissociável da constituição da protagonista, e isso nos faz compreender sua visão de mundo.

Xaxim, a planta, foi tão usada como substrato para orquídeas e samambaias, que correu o risco de extinção. Ao mesmo tempo, é a cidade de SC, mas, também, uma metáfora útil para a memória – o substrato no qual o futuro se apoia para crescer.
Profile Image for hanna (lily).
120 reviews94 followers
July 8, 2026
"Ouço a voz da minha irmã: escreva sobre a solidão. Eu continuo: a solidão das cidades pequenas. Das praças vazias" (p. 22). Esse foi um dos primeiros trechos que sublinhei de Xaxim, acho que quando ainda estava lendo com Maju, nos jardins do Catete. No meio dos patos que se aproveitavam dos piqueniques das pessoas, tentei entender o primeiro mapa mostrado no primeiro capítulo do livro. Nunca visitei o sul do Brasil, mal saí do sudeste, mas a imagem das praças vazias me lembravam algo que ainda não tinha tomado a forma de linguagem para mim, algo como a lembrança de um sentimento.

Agora que minha sobrinha tem um ano e meio, tenho aproveitado com ela a pracinha que eu e minha irmã brincávamos quando pequenas. Ela ainda não sabe brincar muito bem, corre atrás do vento, pega o brinquedo de alguma criança, cata folhas e se arrisca a subir em alguns brinquedos com a nossa ajuda, só pra descer depois de ver que conseguiu. O balanço, que era o meu favorito, não chama sua atenção (ainda!). Me lembro de passar horas nele. Assim que chegávamos, deixava minha mochila com minha avó e saia correndo para garantir o tempo mexendo as pernas e bagunçando o cabelo, pra frente e pra trás, pra frente e pra trás. Era só perto de ir embora que eu percebia minha irmã, ou se, antes disso, minha avó me gritava pra ir mais devagar. A minha irmã sempre soube explorar mais que eu, se pendurava em todos os brinquedos e sempre, sempre dava um jeito de embolar as pernas de um jeito que sustentasse seu corpo todo de cabeça pra baixo. Minha avó faltava infartar, mas depois de tantas repetições a cena deixou de provocar medo nela. Eu tinha um pouco de inveja desse talento, mas não conseguia sair do balanço pra fazer outra coisa e sentia um certo prazer em chegar em casa e sentir coxas doloridas e a cabeça latejando de tanto ter me balançado.

Essas lembranças que me vieram durante a leitura não aparecem em momento nenhum como cenas do livro. As praças dele são, inclusive, ponto de encontro para jovenzinhos da região, definitivamente nada a ver com a pracinha dos cavalinhos ou a do bairro peixoto. Mesmo assim, fico com os meus pés suspensos, meu corpo voando no balanço e o da minha irmã de cabeça pra baixo enquanto leio. E minha avó, que estava nos observando o tempo todo e hoje em dia não está mais.

Também tem algo nesses brinquedos que me remete a instalação de cabeças no teto, cabeças para cima, não para baixo, mas ainda assim cabeças suspensas, "presas ao teto com ventosas". É aí que está, ao meu ver, uma declaração de método de escrita, ou pelo menos uma amostra do desejo no laboratório: "E me deitei no chão, com os braços cruzados sob a cabeça, como gosto de fazer ao sol. Fiquei olhando para o teto e aos poucos ele foi se povoando de cabeças. Cabeças penduradas como se fossem samambaias. Cabeças sem corpo. Não era horripilante, não era mórbido. Não eram cabeças de górgona. Nada de Medusa com seus cabelos de cobra, como no bóton verde da obra de Caravaggio que eu trouxe da Galleria degli Uffizi. Logo me dei conta de que não eram cabeças humanas, nem míticas. Talvez fossem cabeças de bonecas, com olhos grandes e abertos, lábios coloridos, cordões pendurados em um pescoço inexistente. Talvez me perguntando como os colares podiam se sustentar sem o pescoço, me ouvi dizer - ventosas, garota, são ventosas" (p.65). É com uma instalação de cabeças penduradas que estamos lidando.

Penso nas praças, as que conheço da metrópole, nos balanços pendurados, nas barras de metal que deixam as crianças de cabeça para baixo, nos escorregas que deslizam os corpos de cima para baixo e na areia, esse resíduo de todas as pessoas que um dia passaram por lá e já não estão mais, já não são e, ainda assim, permanecem. Depois que a narradora se muda, assumindo identidades que, aparentemente, estão afastadas da vida xaxim-xanxerê-chapecó, as mãos que teclam livros volta para a terra, para uma horta que, por escolha sua, é cultivada com seus saberes acumulados das primeiras fases da vida.

Esse foi meu livro favorito da Ieda. A relação da narradora com a religião, a vergonha que faz parte da maioria das memórias mencionadas, o gesto de refazer mapas ao mesmo tempo que refaz imagens de si, os ecos que vão e voltam nos fragmentos desde a infância, me fizeram ler quase que desesperadamente. E foi engraçado, porque tenho pensado muito na escrita em fragmento. eu gosto que a escrita em fragmentos possibilita uma brincadeira com a incerteza entre forma e conteúdo, uma noção de não totalidade, uma abertura para continuações desses pedaços. Depois que terminei de ler, pude perceber como há espaço nesses fragmentos para que as minhas próprias imagens, cenas e cabeças fossem adicionadas a instalação. Enquanto eu pausava para observar um mapa, era o tempo de uma lembrança distante voltar. Fui sendo levada para frente das páginas e para trás das minhas memórias.
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