Entrei bem. Primeiro conto fabuloso e um ou outro mais que fizeram sentido. O resto foi um andar à volta, à volta, e perceber... muito pouco.
Talvez em meia dúzia de contos HH tenha desenhado forma inteligível de arrumar a "violência da vida", ficando , nos restantes, próximo da "tenebrosa e maravilhosa loucura (...) mais nobre e mais conforme ao grande segredo da humanidade" ?
Cinco estrelas para "Estilo", " Holanda" "Lugar lugares", 'Os comboios que vāo para Antuérpia", Teorema", "Equaçāo", " O Quarto" e "Trezentos e sessenta graus".
“Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro...Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida...compreende?...a nossa vida, a vida inteira, está ali como...como um acontecimento excessivo...Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor e da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. (...) O mundo é assim, que quer? É forçoso encontrar um estilo. Seria bom colocar grandes cartazes nas ruas, fazer avisos na televisão e nos cinemas. 𝘗𝘳𝘰𝘤𝘶𝘳𝘦 𝘰 𝘴𝘦𝘶 𝘦𝘴𝘵𝘪𝘭𝘰, 𝘴𝘦 𝘯ã𝘰 𝘲𝘶𝘦𝘳 𝘥𝘢𝘳 𝘦𝘮 𝘱𝘢𝘯𝘵𝘢𝘯𝘢𝘴. Arranjei o meu estilo estudando matemática e ouvindo um pouco de música —João Sebastião Bach. (...) Consegui um estilo.Aplico-o à noite, quando acordo às quatro da madrugada. É simples: quando acordo aterrorizado, vendo as grandes sombras incompreensíveis erguerem-se no meio do quarto, quando a pequena luz se faz na ponta dos dedos, e toda a imensa melancolia do mundo parece subir do sangue com a sua voz obscura...Começo a fazer o meu estilo. Admirável exercício este. (...)Gosta d poesia? Sabe o que é a poesia? Tem medo da poesia? Tem o demoníaco júbilo da poesia? Pois veja. É também um estilo.”
Estilo
“𝐉á 𝐦𝐞 𝐝𝐢𝐬𝐬𝐞𝐫𝐚𝐦 𝐪𝐮𝐞 𝐚 𝐠𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐪𝐮𝐞 𝐧𝐚𝐬𝐜𝐞 𝐞 𝐞 𝐯𝐢𝐯𝐞 𝐚𝐨 𝐩é 𝐝𝐨 𝐦𝐚𝐫 é 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐩𝐮𝐫𝐚. 𝐏𝐞𝐧𝐬𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐨 𝐦𝐚𝐫 𝐝á 𝐮𝐦𝐚 𝐪𝐮𝐚𝐥𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐩𝐞𝐜𝐢𝐚𝐥 à 𝐟𝐚𝐧𝐭𝐚𝐬𝐢𝐚, 𝐚𝐨 𝐝𝐞𝐬𝐞𝐣𝐨 𝐞 à 𝐜𝐨𝐧𝐟𝐢𝐚𝐧ç𝐚. É 𝐮𝐦𝐚 𝐩𝐫𝐨𝐩𝐫𝐢𝐞𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐦𝐢𝐬𝐭𝐞𝐫𝐢𝐨𝐬𝐚 𝐝𝐨 𝐞𝐬𝐩í𝐫𝐢𝐭𝐨, 𝐞 𝐩𝐨𝐫 𝐞𝐥𝐚 𝐬𝐞 𝐚𝐩𝐫𝐞𝐧𝐝𝐞 𝐚 𝐧𝐚𝐝𝐚 𝐞𝐬𝐩𝐞𝐫𝐚𝐫, 𝐚 𝐧ã𝐨 𝐝𝐞𝐬𝐞𝐬𝐩𝐞𝐫𝐚𝐫 𝐝𝐞 𝐧𝐚𝐝𝐚. 𝐓𝐚𝐥𝐯𝐞𝐳 𝐬𝐞𝐣𝐚 𝐢𝐬𝐬𝐨 𝐚 𝐢𝐧𝐨𝐜ê𝐧𝐜𝐢𝐚. 𝐓𝐚𝐥𝐯𝐞𝐳 𝐬ó 𝐧𝐨 𝐦𝐚𝐫 𝐧𝐨𝐬 𝐬𝐞𝐣𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐞𝐝𝐢𝐝𝐨 𝐦𝐨𝐫𝐫𝐞𝐫 𝐯𝐞𝐫𝐝𝐚𝐝𝐞𝐢𝐫𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞, 𝐦𝐨𝐫𝐫𝐞𝐫 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐧𝐞𝐧𝐡𝐮𝐦 𝐡𝐨𝐦𝐞𝐦 𝐩𝐨𝐝𝐞.”
Os comboios que vão para Antuérpia
“Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para o outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte isso o lugar era execrável. As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa tarde, boa noite. E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam. Às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente. Tenho medo – diziam. E depois amavam-se depressa e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite.”
Lugar lugares
“Avó... (...)
A Avó abre os olhos, e eu vejo uma nova luz áspera e gelada: a inteligência, uma energia que de repente recompõe todo o corpo e traz agora o retrato para o centro do tempo, tornando-o movimentado e audaz, completo. Nesse olhar progride agudamente um sorriso que o limpa da velhice e deixa o sal de uma fina malícia. Os lábios mexem-se, parecem brilhar um instante. O corpo renasce do próprio esgotamento. A Avó diz:
– É tudo mentira...
Depois as pálpebras descem e o corpo é absorvido pelo enigma. As paredes alteiam-se, o retrato recua, a minha juventude fica sem armas – fulgurante e estúpida.
Assim é porventura a sabedoria: vil, esmagadora. O único tempo que lhe pertence deve ser a idade mas quando dela se aproxima um jovem fascinado que a si mesmo impôs a condição de mensageiro, como se quisesse tocar no gelo, convencido – ele! – de que o calor dos poucos anos poderá fundir o gelo, então o gelo agarra a idiota mão quente, e queima-a.
A Avó morreu nesse mesmo dia." Equação
«Desabituei-me dos milagres. Sabe-se como é: quase todas as manhãs acordo angustiado, esforço-me por imaginar que este dia é virgem e primeiro, carregado de poderes enigmáticos, destinado às revelações. (…) Trata-se de mais um dia em que me vou chatear, aturar os meus semelhantes, a filha-da-putice teológico-emocional de um Deus que, ainda por cima, não existe». Como se vai para Singapura