Pepetela nasceu em Benguela, Angola, em 1941. Licenciado em Sociologia em Argel, escritor, guerrilheiro em Angola, político e representante do MPLA, foi professor na Universidade de Angola e membro da Comissão Directiva da União dos Escritores Angolanos. A atribuição do Prémio Camões, em 1997, confirmou o seu lugar de destaque na literatura lusófona.
«Falo de um amor e de uma transgressão. Que sabe, talvez a transgressão nunca fosse possível. Mas a granada existiu, essa granada que traçou no ar espantado do planalto a figura da mulher amada. Mas uma granada, mesmo com tal magia, pode materializar um mundo?»
Pepetela, Prémio Camões 1997
Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura.
Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos is a major Angolan writer of fiction. He writes under the name Pepetela.
A white Angolan, Pepetela fought as a member of the MPLA in the long guerrilla war for Angola's independence. Much of his writing deals with Angola's political history in the 20th century. Mayombe, for example, is a novel that portrays the lives of a group of MPLA guerrillas who are involved in the anti-colonial struggle, Yaka follows the lives of members of a white settler family in the coastal town of Benguela, and A Geração da Utopia reveals the disillusionment of young Angolans during the post-independence period. Pepetela has also written about Angola's earlier history in A Gloriosa Família and Lueji, and has expanded into satire with his series of Jaime Bunda novels. His most recent works include Predadores, a scathing critique of Angola's ruling classes, O Quase Fim do Mundo, a post-apocalyptic allegory, and O Planalto e a Estepe, a look at Angola's history and connections with other former communist nations. Pepetela won the Camões Prize, the world's highest honour for Lusophone literature, in 1997. Pepetela is a Kimbundu word that means "eyelash," as does "pestana" in Portuguese. The author received this nickname during his time fighting with the MPLA.
Um livro sobre conflitos, como a Guerra Civil de Angola, conflitos geracionais e conflitos entre irmãos. Conflitos de sabedoria, a dos jovens e dos novos tempos, e a dos velhos e das tradições. Entre medos do desconhecido e a aceitação do incompreensível.
Mas também é um livro sobre amor, compreensão e perdão. Tudo isto apresentado pelas poéticas palavras de Pepetela, em forma de uma incrível parábola.
“Mas havia uma pergunta que há muito lhe perfurava a cabeça e resolveu fazê-la a Kanda: - Tu sempre foste esperto, por isso podes me explicar. Quem ganhou com esta guerra? Tu talvez tenhas ganho, pelo menos parece pelo aspecto. O teu irmão não tem nada. Quem ganhou, eu não sei. Quem perdeu, isso eu sei, fomos nós todos. Kanda baixou pela primeira vez os olhos. O osso da garganta mexeu, como se tentasse engolir qualquer coisa.”
A história narrada passa-se num lugar onde não existe igualdade entre homens e mulheres, a poligamia é algo que é aceite e o costume é a mulher obedecer ao marido, "comer e calar". No entanto, os jovens têm ideias inovadoras e que contrariam os costumes e tradições em que a sociedade assenta, e ambicionam ir para Calpe, a "cidade-sonho". "Esta juventude de agora não tinha só ideias diferentes, também os costumes".
Parábola do cágado velho retrata o conflito de gerações, as crenças e os costumes e a sua evolução, e como é que a guerra é vivida pelo povo, que não a fez, não a quer e não percebe porque é que existe. Mas sofre com as suas consequências. "Quem ganhou com esta guerra? Tu talvez tenhas ganho, pelo menos parece pelo aspecto. O teu irmão não tem nada. Quem ganhou, eu não sei. Quem perdeu, isso eu sei, fomos nós todos".
Uma história simples, que retrata a humildade de quem vive fora dos grandes centros urbanos, num lugar supostamente escondido, e que nem sabe quem os governa ou as razões para a existência de uma guerra. Gostei muito da forma como Pepetela escreve, e mal posso esperar por ler mais livros do autor.
Primeiro livro de Pepetela que li e, até à data, o único.
Quando comecei o livro, tive a impressão de que não iria gostar. Parecia-me poético demais e situado num mundo idílico, ideal. Eu andava mais à procura de romance e de acção. Não estava, nem estou, para demasiadas utopias, e as distopias só muito de quando em vez (1984 de George Orwell foi uma distopia de que sim gostei).
No entanto, continuei a ler e aos poucos o livro apresentou uma história (ou, melhor, estória): tornou-se romance. O autor talvez seja demasiado ideológico, de esquerdas, e constrói um mundo privado das multicromáticas variedades tribais de Angola. Ele, o que quer, é contrapor a corrupção da cidade e da civilização com a pureza ideal do campo. Para isso, não duvida em defender a poligamia tradicional em muitas culturas africanas face à monogamia, que vem imposta pelo Ocidente. Mas, no caso desta estória, a poligamia funciona e tem credibilidade.
Antes do que continuar com o Pepetela, prefiro redescobrir o Agualusa. Mas posso recomendar este romance por ser adequadamente breve. Se alguém o achar maçada, não será uma maçada que lhe roube demasiado tempo.
Acho que foi a simplicidade e humildade desta história que me apaixonou. Marcou-me de uma forma mesmo íntima, de maneira a fazer-me querer o máximo dos mínimos, a amar o chão que piso e a respeitar tudo o que está fora de mim.
Não sinto qualquer ligação a África, a minha família não viveu nas ex-colónias e o meu pai não lutou na Guerra do Ultramar. Por isso, confesso que não consigo entender o “encanto” de certas histórias e a “irmandade” que os portugueses dizem sentir com o continente.
“Parábola do Cágado Velho” fala sobre as aldeias interiores de Angola que, durante a guerra da independência e depois com a guerra civil, foram vítimas do saque e da destruição, sem realmente perceberem o que estava a acontecer, nem a razão das lutas. As personagens não me emocionaram, a história em si é muito repetitiva e parecia não levar a lado nenhum. Pepetela escreve de forma original, com palavras e construções de frases invulgares, mas não consegui retirar qualquer emoção do enredo.
Um livro muito bem escrito e com uma boa história. Retrata muito bem Angola, mostra as verdadeiras consequências de uma guerra. Como o autor nos diz, quem perdeu a guerra foram todos, mesmo aqueles que ganharam acabam por perder. A fome que é sentida por Angola e tantos outros países africanos. A diferença entre o papel da mulher e do homem. As tradições e o questionar de novas ideologias. É realmente um bom livro e apesar de ter sido escrito em 1996, infelizmente ainda é muito actual. Contudo não é muito o meu género daí só atribuir 3,5*.
Fortunately, I decided to give this book a second try after discarding it before, after reading just the first few pages. It is actually a very beautiful story and, at the same time, a very sad story that shows us a little bit of what happened with the African people when suddenly the wars took over their lives... The main reason for discarding this book on the first try was that a vast quantity of the text is composed of different slangs of African people, and only a minority of them are then explained in a glossaire, leaving for free interpretation many parts of the book, since you have nowhere else the explanation for what those words may mean...
trad.: Felizmente, decidi dar a este livro uma segunda oportunidade após tê-lo descartado tão rapidamente na minha primeira tentativa, logo ao fim de poucas páginas. É na verdade uma história muito bonita e, ao mesmo tempo, uma história muito triste que nos mostra um pouquinho do que terá sido a vida dos povos Africanos quando de repente as guerras os cercam por todos os lados... A principal razão que me tinha levado a descartar o livro inicialmente foi o facto de uma grande parte do texto é constituída pela gíria dos povos Africanos, e apenas uma muito pequena parte é explicada mais à frente num glossário, deixando para interpretação livre muitas partes do livro, uma vez que não temos em nenhum lado a explicação do que aquelas palavras possam significar...
This short novel is a fascinating description of a culture we seldom hear about in Europe. It leads to some uncomfortable reading when considering second wives and much older men marrying teenagers. The book also has a very good description of civil war from the perspective of the people caught in the middle. Soldiers from both factions come to the village, take what they want and leave destruction in their wake and the poor villagers neither know which faction is which, nor have anything they can do to protect themselves and their homes. But despite the dark themes of the novel there is a calm acceptance of life, magical insights and an ending that was more uplifting than I was expecting.
Um livro que fala de guerra, de reconciliação e de perdão. A linguagem e a escrita mudam ao longo do livro: mais dura, breve no inicio, com frases curtas e palavras essenciais, e mais de prosa e com períodos compridos chegando ao fim. Uma historia que deixa vários sentimentos em contraste e que poderia ser a historia de qualquer pais em guerra. Gostei muito.
Surpreendeu-me bastante (pela positiva) este livro. Coloca-nos numa posição em que temos de pensar nas decisões da nossa vida e como as podemos fazer. Nem sempre são fáceis, às vezes precisamos de nos afastar um pouco do problema para o vermos direiro e decidir.
Neste livro Pepetela retrata os tempos da Guerra Civil em Angola através dos olhos de um camponês: Ulume. Desde problemas familiares a problemas amorosos e geracionais, Pepetela retrata com simplicidade uma perspetiva da realidade vivida naquele tempo. Um livro simples, de fácil leitura, que envolve o leitor na cultura africana.
É uma historia contada numa linguagem própria, feita a medida por Pepetela, dado que a humanidade ainda não tinha inventado uma linguagem que fosse suficiente para contar esta historia. É o meu tipo favorito de livro porque é antropológico, filosófico sobre os efeitos da guerra nas pessoas, vidas e famílias e quando tudo começa a ficar muito serio, importante e consequentemente muito insuportável, entra o Mario Gago e conta como o seu vizinho muito amigo, uma noite veio com uma catana para o matar. Como não ha árvores os espíritos habitam os mamoeiros. Mamoeiros cortados e a paz volta e o vizinho muito amigo não o procura mais com a catana. Sobre Munazaki, que foge para Calpe, a cidade de sonho que afinal não era nada, sobre o real e a ficção. Sobre caminhos opostos entre gerações, tradição e evolução. É um livro sobre tudo. Eu quero ser Uluma, porque Ulume narrador e personagem principal do livro, vai ter com o cagado mudo e muito mais velho que ele, pedir conselhos, sentir o tempo parar e toda a sabedoria permitida a raça humana é então sua!
Como é que estive até agora sem ler este livro? Uma fábula simplesmente fabulosa! É notório que Pepetela nos remete, nesta obra, para a guerra civil angolana, num ambiente rural e sob a perspetiva dos habitantes do kimbo (ou povoado). Esta fábula tem claramente uma função pedagógica, uma vez que transmite vários ensinamentos. Não tenciono contar a história, mas destaco a relação de Ulume com um cágado velho que, todos os dias, se deslocava calmamente até às águas do regato para beber. Quando o cágado acabava de beber, dirigindo-se à sua gruta, Ulume bebia da mesma água e perdia-se em profundas meditações, pois ele acreditava que o cágado possuía uma sabedoria ancestral. Desejava que este, um dia, respondesse às suas perguntas. É o único habitante que mantém esta relação com o cágado, que acredita na sua sabedoria. Luzolo e Kanda, filhos de Ulume, partem para a guerra, mantendo-se cada um em “facções” opostas, num confronto que realça bem o caráter absurdo desta guerra civil. Durante os ataques, os soldados aproveitam para saquear os bens alimentares dos povos, raptavam raparigas e engravidavam outras, destruindo os kimbos. A par da guerra, surge o amor de Ulume por Munakazi e, a par das tradições destas povoações, surgem novas formas de pensar. Por exemplo, quando Munakazi rejeita a proposta de casamento com Ulume por este ser casado, e considerar que os tempos eram outros, já não era o pai que mandava nela, ela é que tinha de decidir se aceitava ou não e considerava que nenhuma mulher se deveria sujeitar a partilhar o homem com outra mulher. Saliento, por fim, a capacidade de Ulume em recomeçar do zero, de cada vez que o kimbo era destruído, a perseverança, a coragem, a resiliência que poderiam muito bem servir de exemplo a todos os angolanos. Um livro muito bem escrito, de que aconselho muito a leitura e a reflexão sobre a história que Pepetela nos apresenta desta bela forma metafórica. Destaco algumas das frases que me despertaram a atenção. Claro está, entre muitas outras… E passo a citar: “A guerra voltou. Aviões e canhões destruíram os Kimbos e as gentes tornaram a se entranhar nas profundezas das Mundas para sobreviver e lutar. Anos e anos. E a fome sempre presente, pois é difícil cultivar ou tratar do gado se vivemos escondidos em fuga. Ulume entendeu as razões desta dura guerra contra a fome, o imposto e a palmatória.” (pág. 21) “…homem prudente dá uma volta ao rochedo antes de urinar nele…” (pág. 58) “E não posso aceitar ser segunda mulher. São outros tempos, aprendemos ideias novas.” (pág. 60)
(PT) A vida de uma família num canto de África, num tempo onde a guerra chegava alternadamente e sem aviso. De como um homem subia para o cimo de um penedo todos os dias e via um cágado passear, porque nessa altura, o tempo parava na sua frente. E como uma granada mostrou a visão de que tinha de ser casada com uma determinada mulher, num tempo onde as tradições não funcionavam como dantes.
"Parábola do Cágado Velho" fala da guerra civil num local remoto do Planalto Central de Angola, da poligamia que não funcionava nos tempos que corriam, de famílias que estavam divididas por causa das fações em luta, das pessoas que queriam viver em paz, cultivando a terra e cuidando dos animais, dos sonhos de uns que colidiam com as vivências de outros, da tradição e modernidade, tudo isto na pena do realismo mágico de Pepetela, num tempo de guerra civil.
O livro é pequeno, bem contado, com uma boa fluidez. O cágado velho e a obsessão de Ulunde, a personagem principal, de querer os seus conselhos, que é aquilo que o move para ir ali todos os dias, porque achava que por causa dele, o tempo parava na sua frente. Não é o melhor dos livros do autor, mas é um que fala sobre os temas que lhe são caros: a vida, o amor, a terra, a fauna e a guerra. Vale a pena ler.
Parábola do Cágado Velho é, como o título indica uma parábola sobre a guerra mas, sobretudo sobre as pessoas que convivem com ela, que nada fizeram para a despoletar e que nem sequer compreendem porque se luta.
É um livro muito bem conseguido, sobre a guerra e o pós-guerra. É um perspectiva muito interessante sobre a guerra civil de Angola, porque penso ser essa parte da história angolana que Pepetela retrata, onde as populações mais afastadas dos centros urbanos não faziam ideia dos porquês da guerra e, é quando olhamos a guerra desta perspectiva que nos apercebemos de quão injusta esta pode ser, pois são estes os que mais perderam, materialmente e emocionalmente.
Fala também do eterno conflito geracional entre os mais velhos, presos a costumes e tradições que os mais novos consideram ultrapassadas e ridículas. O medo que os mais velhos sentem de perder o controle sobre a juventude, que eles desistam de trabalhar a terra, que os esqueçam e não os respeitem, no fundo, o medo do desconhecido.
Ulume, marido de Muari e pai de Luzolo e Kanda, tem o hábito de subir ao morte e observar um cágado velho, animal que ele acredita ter uma sabedoria superior. Enquanto isso, os filhos de Ulume partem para Calpe, destino de sonhos dos jovens do kimbo, e ingressam em frentes diferentes da guerra, numa luta onde uns eram considerados "os nossos" e outros "os inimigos". Quando apanhado por uma granada, Ulume recebe a imagem de Munazaki, a mulher que está convencido que tem de encontrar e ser a sua segunda esposa.
Uma coisa é o que se diz e o que se sonha, outra é o que se cumpre. O vento que uiva muito não é perigoso, diria o cágado velho se falasse.
À semelhança dos outros livros desta colecção, este é mais uma obra sobre África, neste caso particular, sobre Angola e os angolanos. Pepetela conta a história de amor de Ulume/Muari/Munazaki num cenário de guerra com forte recurso ao mesticismo, à crença dos espíritos e às tradições ancestrais. É o segundo livro que leio do autor e gostei.
O mundo que se vira do avesso com a explosão de uma granada. Uma visão que mexe com a vida de 3 personagens centrais. Este foi o primeiro livro que li de Pepetela. Gostei da forma como escreve, com ritmos, com cor, recuos e avanços. A forma como descreve a greve que ninguém entende nem sabe de que lado está, apenas que existem o "nós" e os outros.Porque lutam, ninguém parecer saber. Somos inimigos porque sim. Procuramos a paz fazendo guerra, mais irónico que isso é impossível. Um livro muito verdadeiro que nos permite ver a diferença este tradição e modernidade, onde a modernidade parece ganhar terreno mas que na recta final a tradição é que acolhe e bem trata os que dela tanto fugiam. No final ganha a tradição, com os seus costumes e valores. ganha a identidade, o amor e o perdão
Uma obra que nos transporta para o conflito de manter ou não as tradições ancestrais, bem como para a incerteza e desconhecimento acerca do que se passa na guerra, a qual faz com que irmãos estejam de costas voltadas. Apesar de não ser de leitura fácil não se consegue parar de ler. --- A work that transports us to the conflict of maintaining or not the ancestral traditions, as well as to the uncertainty and ignorance about what goes on in war, which makes brothers have their backs turned. Although not easy to read, you can not stop reading.
Uma história de amor em tempo de guerra em Angola…Simples, fácil de ler, mas envolvente. Não o melhor do Pepetela, mas muito bom mesmo assim.
“Falo de um amor e de uma transgressão. Quem sabe, talvez a transgressão nunca fosse possível. Mas a granada existiu, essa granada que traçou no ar espantado do planalto a figura da mulher amada. Mas uma granada, mesmo com tal magia, pode materializar um Mundo?
Que bom ter sido apresentada à literatura africana por esse livro. Guerra, ritos tribais, tradição e modernidade batendo de frente. Uma mistura perfeita para quem quer conhecer mais a repeito de Angola e sua história.
"Todos os dias sobe ao morro mais próximo, senta nas pedras a fumar o cachimbo que ele próprio talhou em madeira dura, e espera. A passagem do cágado velho mais velho que ele pois já lá estava quando nasceu, e o momento da paragem do tempo.(...) Odeia e ama esse instante e dele não pode escapar."
"Há sempre um tempo antes do tempo, não é?"
"Anos e anos passaram e sempre te deixei sossegado, ruminando os teus silêncios. Mas hoje preciso da tua sabedoria. Ou será falso aquilo que os mais velhos dizem e afinal és apenas um animal ignorante como os outros?"
Ulume ia observando os gestos seculares, calmos e seguros como é tudo que vem da tradição. Essa era a sua tranquilidade, como romper com ela? Nunca mandaria a Muari embora, quisesse ou não Munakazi. O que lhes restava na vida senão esses gestos confiantes, que se repetiam no tempo certo e com o ritimo certo, tudo previsível? "
"-Mas então o Kanda é dos nossos e o Luzolo do inimigo? -Penso que sim. Pelo menos o Kanda é dos meus nossos, não sei quais são os nossos dos outros."
"Que estavam velhos, já não tinham forças para limparam o terreno, cavar solos virgens, cortar troncos ou para fazer casas e capoeira e curral para o rebanho, era trabalho demais..."
"Muitas vezes Ilume se interrogava nessas ocasiões, mas que sentido tem isto tudo?(...) e a Muari porque há muito deixara de procurar um sentido para o sofrimento. (...) Uma vez a Muari lhe dissera, pouco depois da última batalha, mas para que queres saber?"
"Que havia paz, sim mas tudo podia acontecer e até quando havia paz? Melhor seria dizer não havia guerra."
"(...) Quem ganhou com esta guerra? (...) Quem ganhou, eu não sei. Quem perdeu, isso eu sei, fomos nós todos."
Guerras, cujas populações muitas vezes nem sabem quem é o inimigo ou o não inimigo ("os nossos "). Aproveitamento em nome da guerra, que justifica roubar, pilhar, violar e matar. É também a história de um amor por uma moça mais nova que Ilume, e que ele sonhou que tinha que ser sua mulher. A cena da granada vai acelerar a concretização desse sonho.
GUERRA |COSTUMES E TRADIÇÕES |RAPAZES RECRUTADOS| RAPARIGAS RAPTADAS|FOME|POLIGAMIA|CRENÇAS | FEITICEIRO CURANDEIRO|MEDO|MORTE|MIGRAÇÕES|INSEGURANÇA|AMOR|MINAS |VIOLÊNCIA |INFERTILIDADE|VIDA DE RECOMEÇOS|COMUNIDADE|FAMÍLIA|DESESPERANÇA|DESTRUIÇÃO|MOBILIZAÇÃO PARA A GUERRA|DESMOBILIZAÇÃO|REENCONTROS|CRUELDADE|PERDÃO
A 4.5. Pepetela presents us to Ulume and Mauri, an Angolan couple living in Munda central during the 2nd half of the XX century The beauty of this book is the simplicity of their lives and how it is affected positively and negatively by the war that erupted somewhere far but that spilled over to the peaceful of the valley of Peace. A fluid and simple book that helped me personally relate to the lives of farmers in the middle of Angola when the sounds of guns replaced the tweet of birds.
Adoro a escrita de Pepetela, com os termos africanos, a forma como conta histórias e mistura palavras de várias origens, fazendo tudo num encadeamento tão equilibrado. Este livro é uma reflexão da guerra e da paz; dos costumes e tradições que se mantêm ou se perdem com o tempo; dos valores da família e das crenças de cada povo. Maravilhoso.
Apenas um aviso: Há um glossário no final do livro (Não sei se todas as edições têm). Um glossário de termos angolanos usados ao longo da narrativa. Fica a informação, para quem ainda vai ler, para que não descubram isso só depois de terminarem de ler o livro, como me aconteceu.
Tudo o que eu procuro num livro: boa narrativa, desenvolvimento emocional das personagens, fácil de ler, poético e contém uma mensagem/crítica social com um final satisfatório. Definitivamente o meu livro favorito até agora.
Que agradável surpresa...gostei muito, quero ler mais deste autor. África, amor, hábitos, culturas diferentes e a guerra que faz sofrer cruelmente quem menos dela entende.