Olegário, um patriarca alentejano, luta contra a avareza do solo, que nada lhe permite cultivar, e a crueldade do destino, que lhe nega o filho varão que tanto deseja, tentando moldar a terra que o rodeia à sua ambição. Uma história simultaneamente épica e intimista, a meio caminho entre o neo-realismo e o realismo mágico sul-americano, marcada pelas cores quentes do Alentejo, e que no Festival de BD da Amadora de 2004 arrebatou os prémios para Melhor Livro e Melhor Desenho.
Beterraba poderia ser a história de mais uma família pobre, num Alentejo atrasado durante o Salazarismo, não fosse o cunho algo alucinado e surrealista que Migue Rocha introduz na sua narrativa, enchendo-a de estranhas personagens e eventos, que tornam este livro em muito mais do que um simples romance do mundo rural. São sinal disso a bizarra tempestade quase diluvial que assola a propriedade de Olegário, os motivos semi-africanos da escrita que as muitas filhas dele inventam, depois de crescerem numa espécie de isolamento selvagem, e as construções fantásticas e grandiosas que o obcecado patriarca da família vai construindo naquela planície árida e batida pelo Sol, enquanto sonha com as suas plantações de beterrabas...
O que mais atrai na obra de Miguel Rocha é o seu estilismo, numa poderosa incografia de contrastes onde a violência da cor se sobrepõe às formas. Sente-se o olhar o real numa constante super-exposição lumínica. Sendo o Alentejo o local onde se desenrola esta singula história, é impossível não fugir ao lugar-comum de interpretar a predominância de vermelhos opressivos como uma metáfora visual do calor estival e da dureza da vida campestre. Mas podemos ir mais longe e rever nas vinhetas tão pictóricas de Miguel Rocha o expressionismo de Franz Marc e o modernismo de Dordio Gomes. Aliás, enquanto lia este livro não consegui deixar de pensar na forma como este pintor retratou o Portugal rural da primeira metade do século XX.
É a uma era a que Miguel Rocha também nos leva, com uma história que mistura a dureza real da lavoura à magia do isolamento solipsista. A história do herdeiro enjeitado que regressa à aldeia para reclamar como herança uns tristes baldios que denodadamente irá transformar num plantio de beterraba cruza-se com uma narrativa de obsessões psicóticas de um homem que apenas deseja ter um filho mas lega ao mundo um bando de raparigas quase selvagens. História intrigante, a colidir entre o neo-realismo da tradição literária portuguesa com o fantástico do realismo mágico, mas que nos desperta mais a atenção pela força pictórica das imagens.
If I focus only on the technical side of the work, this graphic novel is actually pretty good. It has solid writing. Good artwork. Good narrative and good panel sequence. It was a good experience overall. I had (almost) no problem reading it.
However, the story is just fucked up.
I appreciate the unfiltered language and the characters behavior along the story that is probably a little bit too shocking for the political correctness of nowadays, it's very refreshing.
That said, the story itself doesn't have much more. You never really understand the point of telling this story. Why is this a good story to tell? What is the point of it?
It has funny moments and interesting dynamics between the characters but it's not a story that was a pleasure to read.
Olegário é um homem com um sonho: enriquecer com o solo ressequido e ingrato do Alentejo. Enriquecer com beterraba. Enriquecer com um filho. Um filho que se torna numa descendência feminina que vive no mundo que Olegário criou. Este conjunto constrói (literalmente) castelos no ar para satisfazer a ambição de um sonho desfazado da realidade, que leva uma família a uma existência cada vez mais tribal. O sonho começa a ganhar vida própria, enquanto os velhos sentados à sombra das casas vêem a vida a passar. O sonho é alimentado pelo traço inexistente de Miguel Rocha, transformando cada página numa obra de arte, povoada de pinceladas de cores tão quentes como a paisagem retratada. No fim, apesar da ficção da narrativa, o Alentejo pode alimentar estes sonhos e permanecer como no início. O descendente filho nasce da terra alentejana, como as beterrabas.
O grafismo não é bem do meu agrado, mas surpreendeu-me como consegue dar vida à narrativa, cuja história não gostei mas se é baseada em factos verídicos, acabo por lhe dar mais valor.
Depois de ter lido “As Pombinhas do Sr. Leitão”, do qual gostei bastante, fiquei com vontade de conhecer as outras obras de Miguel Rocha.
Este livro continua a mostrar o desenho bem característico do autor, desta vez bem colorido e que muito me agrada. Os tons quentes, que retratam paisagens onde as temperaturas altas se fazem sentir, são uma constante. O argumento porém, já não me satisfez da mesma maneira. Apesar da história ser baseada em factos verídicos, insere-se depois num realismo mágico que não é um estilo que me agrade particularmente. Achei até confusa, por vezes.
“Um pé apertado, o outro solto, o mundo não lhe servia. Ia fazer um para si, à sua medida”.
A história parece ter influenciad de um alentejo rural, pobre, com condições de vida muito duras! Os desenhos são maioritariamente em tons fortes de amarelo, vermelho e azul. É uma história engraçada mas um pouco enfadonha por vezes.
Uma boa obra, tanto a nível visual como da estória e diálogos. História em que um dos personagens principais é o cenário. Um cenário seco, extenso como se fosse de um Alentejo ou da Andaluzia. A falta de àgua e de outros bens levam o personagem principal (Olegário) a avançar para o cultivo da beterraba, o vegetal mais resistente para aquelas terras. E um objectivo central de ter um filho varão. A mulher quer ir para Paris. Só tem filhas que acabam por viver naquele mundo mágico da fortaleza que o pai fez para a família. Custou-me um pouco a adaptar ao desenho desfocado, mas há belos quadros que não precisam de linhas nem traços. Uma história fora da caixa que mostra que não devemos ter objectivos que impliquem que toda a família siga o nosso sonho. Há que deixar os outros sonhar também. Olegário tem um fim que justifica todo o desmoronar das suas ideias.