Em romance de estreia, Lucas Barros revela escrita madura e apresenta uma história sobre luto, sofrimento, descobertas e família no interior de Pernambuco.
Caetano descobriu a morte e a solidão no dia em que entendeu que foi abandonado pelo pai. Aos sete anos, depois de ouvir de um amigo na escola que criança sem pai é filho do diabo, o garoto passou a ser perseguido por uma obsessão: pensar na morte o tempo inteiro. Sua teoria era simples ― a morte gosta de surpreender, então, quem a espera não pode ser pego por ela. Mas a solidão não acompanha essa lógica. Essa ficou.
Solitário, enfrentando um dia a dia de violências, dúvidas e descobertas o menino cresce carregando perguntas que não sabe formular: quanto do seu sofrimento é consequência do abandono do pai, do corpo que tem, do jeito que é? Na escola, a perseguição parece ser só mais uma prova de que o mundo pune quem já nasce em desvantagem ― ou existe algo em Caetano que atrai violência?
Em seu romance de estreia, Lucas Barros narra a trajetória de um garoto no interior de Pernambuco que aprende, cedo demais, as várias formas do luto ― o abandono que não deixa o corpo, a violência que vira rotina, a morte que chega sem aviso. Com personagens complexos e diálogos potentes, Amanhã eu morri sozinho é um livro sobre crescer carregando o peso do que nos falta ― e descobrir, ainda assim, razões para continuar.
o que é escrever se não se lançar a um ato de vulnerabilidade. ler “amanhã morri sozinho” é entender a vulnerabilidade intrínseca em cada nuance da história e nos realocar nela. as lacunas no livro nos convida, de certa forma, a nos escancarar em nós mesmos, agarrar em lugares tão longínquos mas, ao mesmo tempo, tão próximos. existe algo engraçado em sua narrativa. o livro nos prega suas peças e seus jogos e sem nenhuma covardia constrói seus personagens de forma tão crua que quando os alcançamos nos percebemos humanos. cada personagem, cada contato, cada encontro, cada quebra de tempo, cada ausência, passo em falso e pensamento parece ter lugar em quantos “nós” o eu tem. as lacunas também.
não nos dar respostas é também uma resposta. se escrever é se lançar a um ato de vulnerabilidade, escolher viver é um ato de coragem em se lançar a diversas mortes.
morte morte morte
falo do processo de escrita por ter lido esse na maior experiência que poderia ter como leitora, lia enquanto acompanhava um escritor se formar, retirar aos poucos os pés da areia e se lançar pé a pé em mar revolto, águas paradas, águas turvas, águas onde se avista tubarões, águas límpidas. ler “amanhã morri sozinho” é presenciar o encontro indizível entre escritor e leitor. é ler um escritor se lançar. que deleite é presenciar esse ato.
estamos falando de um livro de 2026, mas quero citar aqui um trecho da escrita de hilda hilst, de quase 70 anos atrás: “somos iguais à morte. ignorados e puros. / e bem depois (o cansaço brotando nas asas) / seremos pássaros brancos à procura de um deus.” e, dada a premissa óbvia de que a maioria dos poemas carrega inúmeras interpretações, o verso “na morte pressinto a vida” também define muito do que senti aqui. queria poder mostrar este livro para ela.
queria encontrar palavras melhores para descrever o quanto gostei do caetano. ele, que carrega uma mente ansiosa como a de muitos jovens e adultos, me ensinou bastante. mas, mais do que conhecer essa sua mente inquieta (em uma das minhas anotações escrevi: ele ia adorar conhecer o tumblr), assumo o que mais me encantou no personagem: as suas falhas. particularmente, quando ele se mostra covarde. sinto que procuramos sempre pela redenção de personagens que erram, talvez por um puritanismo e pela busca pelo bem que a maioria das mídias reproduz. só que o caetano é o que um ser humano de verdade é. na vida real, vamos errar bastante e ser os vilões nas histórias de outras pessoas. ele não é um herói, e foi exatamente isso que me conquistou.
abro um parêntese para contar que, em uma conversa, uma amiga disse que gostava de ser a vilã porque era mais emocionante. acho que o caetano não concordaria muito, mas também sinto que ele jamais escolheria o papel de mocinho. até porque ele vivia sob o peso de um sentimento gigante: o medo excessivo de tudo, inclusive de continuar sendo covarde. a covardia acaba sendo um mistério para mim, pois ela não separa os puros dos pecadores, mas integra essa régua moral que insistimos em julgar. ele deveria ter tido mais coragem? sim, mas sinto que ele fez o que estava ao seu alcance. às vezes, isso precisa bastar. pensei bastante sobre isso durante a leitura.
há também a outra protagonista dessa história: a morte. ela se desdobra ao longo do livro e faz tudo acontecer. sem ela, o próprio caetano não existiria: “quando tudo se tornou tudo, já existia morte”. ela esteve ao seu lado desde a primeira página, pairando como algo extraordinário, indescritível e misterioso: “a morte que replica meus passos, meu caminhando, entra onde eu entrar...”. e, por ser também uma narrativa sobre a relação entre mãe e filho (embora não se resuma a isso), resgato o que minha mãe sempre diz: existe solução para tudo, menos para a morte. um pensamento completamente apavorante.
sobre a escrita do lucas: ouvi alguns trechos meses atrás, antes de o livro nascer, e nenhuma expectativa me preparou para o que realmente encontrei: uma narrativa corajosa desde o início. há uma sensibilidade e vulnerabilidade bonitas em expor a trajetória do caetano e daqueles ao seu redor. amanhã eu morri sozinho é sensível em cada citação, e minha recomendação é que você o leia escrevendo. há algo muito bonito em registrar seus próprios pensamentos enquanto a narrativa flui. preciso citar hilda novamente: “coragem de viver os dias / sem falar de loucos / quando há qualquer louco / no infinito.”
“é necessário que exista vida para que exista a morte, mas, além disso, é necessário estar embebedado pela vida para que a morte aconteça. ela, a vida, nos cega, nos ilude e nos transforma em seres esperançosos, mas, assim como nós, é também súdita da morte”
em uma conversa recente, o lucas me disse: “não consigo não estar escrevendo”. ainda bem! que novas histórias continuem surgindo. é lindo acompanhar a sua coragem de se afirmar como um autor nacional. e você se tornou um.
preciso que o lucas escreva um livro totalmente sem parágrafo agora mesmo, fiquei simplesmente hipnotizada em todos os momentos que tinham parágrafos beeeeem longos e contínuos, quero mais!!!!!!
leitura mais do que especial com minha amiga noemi <3 foi muito divertido ficar alucinando com todas as interpretações possíveis que se é possível ter com esse livro.
comecei ele sem muitas expectativas, confesso. acompanho o lucas faz Muitos anos pelas redes sociais e quando ele anunciou seu livro de estreia eu fiquei com um pé atrás, literalmente pensando: não tem como isso ser bom. e eu sinceramente não sei se eu gostei tanto por conta das minhas expectativas que eram baixas ou se o livro é bom de fato. não me importo muito também, igual eu amei o que ele foi.
chega a ser dolorido se identificar com os pensamentos do caetano, que é um alguém tão ansioso, covarde, medroso, e em alguns (vários) momentos, ridículo. crescer com ele e ler ele se descobrindo foi como se eu estivesse me redescobrindo também, junto a ele. desde quando ele era uma criança amedrontada, mais do que inseguro com seu próprio corpo, até se tornar um pré adolescente que odeia conflitos, solitário, obcecado com a necessidade de se sentir desejado e gostado, e que acha mais fácil pôr a culpa em si mesmo do que se impor, a até um adulto viciado em estar na companhia de um parceiro para ter alguém que o dê a atenção que falta, que não consegue sonhar com um futuro e que por esses motivos, está sempre infeliz. vou precisar de alguns dias pra pensar em tudo o que essa história foi pra mim.
algumas passagens e cenas tocaram em um lugar muito perto de casa, que eu honestamente jamais gostaria de encontrar em um livro novamente. doeu como se o lucas estivesse falando dos meus próprios sentimentos e vivências. achei um livro perfeito para ser sua estreia, fiquei hipnotizada com a escrita em vários momentos e de fato foi um livro que me Surpreendeu em sua forma mais genuína. espero conhecer mais desse lado escritor do lucas no futuro, com certeza amanhã eu morri sozinho se tornou um dos meus livros favoritos de 2026.
Ler o livro de uma pessoa que te incentivou a aprender e continuar a ler livros durante um período tão conturbado quanto a pandemia foi e é uma experiência muito especial. Saber que a pessoa que tanto falava sobre livros e devaneios escreveu algo tão impressionante na sua estreia é uma sensação maravilhosa. Não somos amigo íntimos, nem mesmo próximos, mas conhecer um pouquinho do Lucas e visualizar essa pessoa que tanto admiro há tantos anos concluindo um desejo que ele diz ter há muito tempo é muito gratificante.
Para além de bajulações e emoções pessoais de poder ler um livro de uma pessoa particularmente querida, Amanhã Eu Morri Sozinho também conseguiu atingir pontos de reflexão e emoções as quais nunca consegui colocar pra fora e, ver essas emoções serem representadas de forma tão cautelosa é lindo.
Lucas consegue decidir o que revelar e o que não revelar nos momentos certos, deixando dúvidas sobre qual personagem está se referindo sabendo que seu leitor sabe o motivo de não usar pronomes em certas situações e de deixar pontos ambíguos mas que, no fundo, sabemos bem o que significam.
Se esse é um romance de estreia, quem sabe o que pode vir por aí...
Sinto uma ânsia absurda na escrita do Lucas, como se o personagem tivesse tudo, menos clareza. E isso foi pra mim como um ponto que me fez desgostar bastante da trajetória dele. Sinto que muitos processos foram rápidos e acabamos entendo pouco sobre as fases de vida dele.
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"aqueles que não lidam bem com a solidão sofrem mais do que os que se acostumam com ela."
quando lucas autografou meu livro, ele escreveu "espero que esse livro te faça se sentir menos sozinha", mas eu não imaginava que ele estava sendo tão literal assim kkkkkkk
sinto que enquanto lia o livro eu caminhava junto de caetano, e não porque vivo em garanhuns (mais do que na minha cidade natal), mas porque ele parecia um espelho pra mim. um espelho pra aquelas coisas que a gente sente sem explicação, e que da tanto medo que a necessidade de aprisionar chega primeiro do que tudo.
tem livros que são desconfortáveis, e tem livros que são a mortE.
espero que lucas continue escrevendo sentimentos que não são fáceis de compreender. espero que continue existindo a coragem de surpreender, de tocar na ferida, de visitar o lugar mais podre que um ser humano pode visitar: a solidão; a falta de vida; a mortE.
obrigada caetano por me mostrar tudo que estava aprisionado em mim. ta tudo guardado na mortE, e talvez na Vida.
obs: descrição de garanhuns aprovadissima! falta livros que se passem na 📍mystic falls pernambucana mesmo
não gostei dessa escrita. primeiro que não sou fã de livros em primeira pessoa, mas depois de algumas paginas a coisa vai se desenvolvendo e eu me habituo, mas nesse aqui eu lia e lia e a escrita não me pegava, não consegui me apegar ao personagem, não senti clareza em nada (mas isso também creio que era meio proposital) e o final já tava ficando cansativo, talvez por não ter sido fã desde o inicio, porque o livro é curto. O tema é interessante e a história também, acho que tava esperando outra coisa, mas isso é total culpa da minha expectativa. Consigo entender as reviews positivas, mas não fui fã dessa escrita. Espero que tenha próximos!
queremos acreditar que o nada é a ausência de tudo, um limbo, vazio, inexplicável, o assemelhamos à escuridão, fechar os olhos é ver o nada, dizem alguns, não tem como ser! fechamos os olhos e vemos luzes, reflexos, fragmentos, lembranças luminosas do enxergar, até o escuro continua sendo algo, não pode ser o nada.