O regresso de Madalena Sá Fernandes, autora de Leme. Um livro que nos convida para o território íntimo de uma escritora à escuta de si mesma.
«Talvez as casas também girem lentamente na direção de quem as habita.»
Lugar mítico da infância, mas também da loucura. Arquivo misterioso da nossa história, e da sua efabulação. Abrigo ingénuo, ou esconderijo de fantasmas e fantasias. Quantas vidas cabem num sótão? Entre o pó e os ruídos da madeira, Madalena Sá Fernandes revisita episódios íntimos, memórias de violência e relações que deixaram marcas, balança entre a aprendizagem da autonomia e a ternura da maternidade, mostra como o corpo aprende a adaptar-se à solidão.
Espaço inclinado entre o chão e o céu, é no sótão que se acumulam objetos sem uso, histórias que ninguém conhece, fotografias por arrumar, medos que persistem. Mergulhando neste lugar de clausura e de criação, de vigilância e de liberdade, a autora interroga a própria ideia de abrigo, prisão, promessa, ficção. Madalena Sá Fernandes testa a resistência de soalhos e vigas como se fossem a engrenagem da memória, espreita da janela alta as copas das árvores para derrotar o medo, entrega-se ao silêncio para que se escute a sua escrita. Um sótão, afinal, nunca está vazio.
Arquitetado sobre a ideia de um movimento perpétuo entre passado e futuro – entre as casas que herdamos, as que tentamos construir e a possibilidade, sempre incerta, de encontrarmos um lugar onde por fim possamos ficar –, Sótão inscreve-se na tradição das narrativas que são uma chave para o presente que partilhamos.
O Sótão prendeu-me de forma diferente dos outros livros da Madalena. Um livro mais poético. Se tivesse o hábito de sublinhar livros, teria sublinhado frases quase página sim, página sim. Senti que estava a entrar nos pensamentos mais escondidos de alguém - pensamentos e memórias de momentos da vida Madalena, alguns violentos e desconfortáveis, outros profundamente bonitos e humanos.
O melhor livro da autora e já tinha gostado bastante dos anteriores. Este livro mistura vários estilos de forma bem tecida e muitíssimo bem conseguida. O romance, o ensaio e até a crónica e a filosofia, sem nunca se tornar excessivamente denso e transparecendo muita sensibilidade.
Cada escritora é única, mas, tendo de comparar, Madalena Sá Fernandes é a Annie Ernaux portuguesa. Auto ficção que não é mero relato. Há um trabalho artístico, literário, com a palavra.
"Cada segredo tem um espaço só seu, de que cedo aprendemos a manter distância. Os segredos devem ficar onde pertencem, nos lugares escuros e distantes. Vivem no sótão."
É bonitinho, mas talvez por ser um pouco circular, parecido com os outros títulos da autora e com as crónicas, ou talvez por eu própria estar com bastante cansaço da auto-ficção e dos géneros híbridos que são muito publicados agora, não me encantou particularmente. Mantive uma sensação de circularidade e de repetição ao longo de toda a leitura, de estar a ler ou já ter lido as mesmas ideias. A autora tem também uma tendência, no livro e nas crónicas, para fazer listas e enumerações - que me remetem sempre a uma música do pedro abrunhosa que passava na rádio no princípio dos 2000: suponho que seja inevitável quando se descreve ambientes, mas é um mecanismo sobre-usado e cansativo. Menção honrosa aos capítulos em que a narradora discorre sobre as férias de verão com o pai- não sei se pela época do ano, se por ser um tema que me é querido, achei muito bonitos.
«Cada capítulo se comporta como um artefacto que encontramos num sótão, com a capacidade de nos levar para pensamentos, recordações e sentimentos diferentes. Gostei mesmo muito de conhecer um bocadinho mais da cabeça da Madalena neste livro, e reforço que continuarei aqui para continuar a ler o que escrever.»
É o terceiro livro que leio de Madalena Sá Fernandes e uma coisa é certa: irei ler todos os livros que ela quiser escrever e publicar.
A escrita melancólica é, simultaneamente, sincera, poética, simbólica e de grande beleza. Dei por mim a saborear cada frase, a guardar cada citação, a interiorizar cada reflexão.
Lido num fôlego. Há muito a pensar neste sótão. O fôlego com que foi lido foi o de uma inspiração. A Madalena sobressai aqui como o espaço de quem inspira. Voltarei a subir estas escadas várias vezes, que livro tão bem escrito.
3,75 Se no filme “Valor Sentimental” casa é uma personagem por si só, no “sótão” de Madalena Sá Fernandes, esta divisão é o pulsar que dá vida e sentido à narrativa do livro.
Em certos momentos, não pude deixar de comparar a representação da casa no filme “Valor Sentimental” com o sótão desta obra-prima. Enquanto no primeiro a casa simboliza a dinâmica familiar e a relação entre pai e filha, refletindo os seus estados mentais, é evidente, para quem leu “Sotão”, que este espaço também incorpora os pensamentos, memórias e sonhos de quem nele passava tempo.
Este livro, com os seus capítulos poeticamente elaborados e repletos de textos curtos, mergulha numa reflexão sobre um local de clausura e criação, de vigilância e liberdade. No entanto, a sua beleza reside não no enredo ou nas reflexões, mas sim na escrita.
Este foi o meu primeiro livro da Madalena, mas com certeza não será o último.
Acompanho desde o início o trabalho da Madalena. O seu primeiro livro “Leme” teve um impacto imenso em mim. As temáticas, o registo intimista, a qualidade da sua escrita.
Estava convencida, pelo que fui lendo, de que o “Sotão” iria seguir as mesmas pegadas. No entanto o registo que adoptou não me cativou tanto. Tal como em “Leme” o livro são compilações de memórias, momentos reflexões, sem respeitar uma ordem cronológica específica. Mas neste livro há mais divagação e aleatoriedade. É muito escassa a partilha episódios ou memórias mais concretos. Deparamos-nos com uma catarse de simbolismos e metáforas, que começam a pesar à medida que a leitura avança.
Não obstante, foi uma leitura bonita e não deixa de ser um trabalho válido e honesto. A escrita da Madalena é muito sólida e elegante e revela uma enorme profundidade emocional. Quero continuar a acompanhar o seu trabalho.
Com Sótão, Madalena Fernandes confirma-se como uma das vozes mais singulares da literatura portuguesa contemporânea. Situado entre a autobiografia, o ensaio, a memória e a ficção, este é um livro que transforma um espaço aparentemente banal da arquitetura doméstica num vasto território simbólico, capaz de acolher a infância, o medo, a imaginação, a violência, a maternidade e a própria escrita. O resultado é uma escrita de grande maturidade ética e literária, capaz de representar a dor sem a transformar em espetáculo. Mas Sótão não é apenas um livro sobre a memória ou sobre o medo. É também um livro sobre a criação artística. Ao longo das suas páginas, o sótão surge como oficina, observatório e laboratório de imaginação. A escrita aparece como uma forma de reorganizar os fragmentos dispersos da experiência, não para alcançar uma narrativa definitiva, mas para tornar habitável aquilo que parecia condenado ao silêncio. Sótão é, em última análise, uma meditação poderosa sobre aquilo que guardamos dentro de nós e sobre os lugares — reais ou imaginários — onde aprendemos a sobreviver. Com uma escrita de grande beleza, inteligência e originalidade, Madalena Fernandes oferece aos leitores um livro que resiste às classificações fáceis e que permanece connosco muito depois da última página. É uma obra ambiciosa, emocionalmente profunda e formalmente inventiva, que confirma a autora como uma das vozes mais interessantes da literatura portuguesa da sua geração.
Boas metáforas e reflexões, mas achei um pouco repetitivo a referencia ao sotão e parecia não haver grande ligação nos capitulos uns com os outros. Ainda assim, gostei da escrita.
Gosto muito da forma peculiar que a autora tem de olhar para momentos e pormenores. Este livro é uma coleção de textos em torno do espaço físico e metafórico que um sótão pode representar. Fez-me refletir acerca das memórias de infância e na forma única como os acontecimentos, marcantes ou nem tanto, impactam a pessoa que somos. Sem dúvida, uma autora para continuar a acompanhar.
É um livro bonito, mas infelizmente não me cativou especialmente. As descrições tornam-se, por vezes, exageradas e desnecessárias e senti-me a andar às voltas. Além disso, acho que acaba por ser “mais do mesmo” em relação às obras anteriores da autora. Continuo a gostar da escrita mas realmente a história em si não me prendeu.
Ao ler o Sótão é quase impossível não nos confrontarmos com as nossas próprias memórias e infância. Com os nossos medos e com a solidão ou a forma diminuta com que por vezes nos olhamos e nos falamos, principalmente nós mulheres.
Neste livro, a Madalena expõe-se de uma forma tão vulnerável e crua que comove. Ao partilhar a sua dor e nostalgia, oferece abrigo a quem partilha desse sentimento, unindo-nos como que por um fio invisível. Obrigada, Madalena, por este livro tão bem escrito e importante, principalmente para quem, como ela, ainda procure um Sótão.
Admiro muito a capacidade da Madalena de partir do mais simples conceito (seja um sótão, um pensamento, ou qualquer contemplação quotidiana) para apresentar uma reflexão profunda sobre a condição humana, e em particular da mulher. Uma escrita lindíssima, que eu desejava que não tivesse terminado. Obrigada por nos teres deixado subir ao teu Sótão. 💚
De uma sensibilidade inexplicável… cada comparação, cada recanto, cada detalhe inserido nestas páginas dizem tanto e fazem-nos pensar em tanto. Já li todos os livros desta autora e este é ainda melhor do que o “Leme” (algo que seria por si só muito ambicioso). Ansiosa por ler o próximo, mas a fasquia é já muito elevada).
Este é um livro cheio de metáforas e camadas simbólicas, intercaladas com retalhos de memória e instantes de lucidez. Mais do que uma estrutura fragmentada, assume uma forma desordenada, caótica, como são as nossas construções mentais. A escrita da autora continua a ser de grande sensibilidade, intimista. No entanto, é-me impossível não comparar com os outros livros da autora, aos quais fiquei rendida. Infelizmente, neste, a leitura tornou-se cansativa pela insistência nos mesmos temas. Escolhi parar a meio e recomecar depois. Pensei ser da minha disposição, mas não era. Senti alguma saturação por parecer uma repetição dos livros anteriores, trazendo apenas um ambiente diferente. Faltou-me o fator surpresa. Gostava mesmo de ter gostado mais.
Gosto muito de contos, crónicas, novelas. Em suma, textos curtos e sentidos. Em bom. Dispensam o uso de muito vocabulário porque projetam a imagem e o sentido com perícia e argúcia. Madalena Sá Fernandes é ótima nisso e vai buscar vivências e reminiscências para nos levar na viagem que pretende e que provavelmente muitos reconhecemos. O sótão é um espaço exíguo, de transição. Real e figurado. Um exercício de montagem afetiva. Madalena construiu neste livro o seu sótão mas percebeu que viver num sótão é viver tão-só. E não faltou o catalogo de medos que, em breves fragmentos solta, delicada e franca numa prosa que me encanta. A violência é uma surpresa que marca.
Magnífico! Dúvidas houvesse (eu não as tinha) de que temos uma das escritoras mais interessantes do panorama nacional, com Sótão foi a confirmação e superação. Mais do que confirmar o talento já evidente nos seus livros anteriores, Sótão representa um salto qualitativo grande. Um livro de uma grande riqueza literária, formalmente exigente mas profundamente comovente, capaz de unir inteligência, imaginação e emoção numa mesma linguagem. Poucas obras contemporâneas conseguem ser simultaneamente tão íntimas e tão universais. Não estamos apenas perante a confirmação de uma escritora. Estamos perante uma obra que consolida uma voz literária fundamental neste país, talvez pequeno para a Madalena.
O sótão é o espaço onde guardamos o que já não usamos, mas não queremos deitar fora. Metaforicamente, o sótão é o lugar da memória, uma espécie de espaço interior onde há um arquivo das recordações. Se fisicamente o sótão é um espaço onde há pó e acumulação de tralhas variadas, metaforicamente é um espaço de nostalgia, de saudade e, quem sabe, possibilidade de redescoberta. Porque quando abrimos as nossas “caixas”, percebemos como alguns momentos nos moldaram de maneira tão marcante e é altura de arrumar o sótão. Foi a partir desta ideia que a autora escreveu o seu livro: explora a dupla dimensão de um sótão, aquele em que viveu e o das suas memórias. O sótão é um repositório de tudo o que a autora guardou, do que foi sendo esquecido e um dia reencontra: memórias, reflexões, pedaços que regressam a partir de algo… Uma ideia bonita e que funcionou bem. No entanto, tal como num sótão, o livro não tem uma estrutura muito definida. É desordenado, as ideias vão sucedendo como se a autora estivesse a arrumar o seu sótão e as fosse descobrindo em caixas amontoadas. Esta desordem não me incomodou, mas gostei menos da repetição e insistência nos mesmos temas que origina uma circularidade que acaba por pesar na leitura. Sem dúvida que a autora escreve de forma intimista e com sensibilidade, levando-nos até às nossas próprias memórias de infância. Não é um livro para quem procura uma história, não tem personagens marcantes nem nenhuma reviravolta surpreendente. É um livro que nos pode levar até ao nosso próprio sótão, se estivermos disponíveis para tal.
Madalena Sá Fernandes é um caso sério no panorama editorial português recente. Gosto muito da sua escrita, da sua forma de transmitir a mensagem e, neste livro em particular, trouxe uma nova camada que me surpreendeu.
Tendo por ponto de partida o Sótão, de forma literal e figurativa, irá desfiar toda uma série de memórias da vida da narradora, com muitos altos e baixos.
E é aqui que entra a mestria de Madalena a contar esta história, na forma como nos apanha e atira ao chão quando menos esperamos, quase como se nada se passasse, quando se passa tanto!
É um livro que requer atenção na leitura, mas é também um livro muito interessante, que gostei muito de ler!
Não é, de todo, um livro leve, mas foi uma lufada de ar fresco voltar a ler a Madalena. Uma escrita que impressiona e que fica connosco muito depois de acabarmos de ler o livro. Sótão é olhar para dentro. Um regresso em grande e, para mim, um regresso às leituras de cinco estrelas, que andam escassas este ano.
Gosto muito da escrita da Madalena e tenho vindo a gostar cada vez mais de livros com este tipo de estrutura mais dividida, que altera o presente com momentos-chave do passado. Neste caso em específico, gostei particularmente da ligação subtil entre Sótão e Leme e das pequenas reflexões e histórias sobre a casa como um espaço nem sempre de segurança. Esta forma de pensar o lugar casa interessa-me particularmente e, por isso, acho que não surpreendo ninguém ao dizer que sublinhei várias passagens e dei por mim e gatafunhar alguns pensamentos aleatórios durante a leitura. Como ponto menos positivo, senti que a escrita fragmentada por vezes tinha cortes muito vincados, algo de que não gosto tanto. Prefiro quando os fragmentos parecem surgir tão naturalmente que não questionamos a mudança de assunto ou a revelação sem continuidade. Ainda assim, no geral é um livro bastante bom, que coloca a Madalena como um dos bons exemplos deste tipo de literatura em Portugal.
Difícil escolher entre este e o “Deriva” como favorito.
Tinha saudades de ler livros da Madalena. Adoro a forma como transforma as suas memórias e vivências em algo tão especial e bonito de recordar e conhecer. Ler as suas memórias é recordar as nossas memórias mais vividas na nossa infância/ adolescência. Memórias algures esquecidas por nós.
Fiquei muito comovida com esta história e o significado do sótão para a autora.
Algumas das minhas frases favoritas:
“Eu procuro alguma coisa no meu sótão./ Um sítio onde se pode guardar um báu ou uma vida inteira” (pág 41)
“As recordações, quando são muitas, sufocam. É preciso esquecê-las, permitir que se afastem, devolvê-las à origem” (pág 47)
“ … tive medo … de que me conhecessem a sério … de que alguém veja, de facto aquilo que guardo nos bolsos” (pág 102)
“O meu pai dava-me sempre moedas … para eu gastar nas rifas. Havia sempre um rádio portátil em jogo, um presunto pendurado, um conjunto de facas, um serviço de chá de flores desbotadas. Eu desejava qualquer coisa com música. “ (pág 147)
O terceiro livro que leio da autora e sem dúvida o melhor. Chegou ontem e li-o em poucas horas. Nota-se maior maturidade literária, um relato memorável e comovente que nos faz entrar de forma profunda neste sótão. Mais uma vez existem momentos de violência e brutalidade, temperados com momentos de maior introspecção, e subtilezas que encantam e comovem. Uma cabeça fascinante. A ler!
Fabuloso. A escrita da Madalena Sá Fernandes é maravilhosa e leva-nos sempre de mão dada com os seus pensamentos. Mais um livro cheio de post it como o Leme.