O que aconteceria se os personagens de Dom Casmurro, de Machado de Assis, vivessem no universo de horror cósmico inventado por H. P. Lovecraft? Em A sombra da Guanabara, acompanharmos a lenta descida de Bentinho na loucura do na destruição à medida em que ele descobre as atividades sinistras de seu melhor amigo: Escobar, um ocultista cujos experimentos e rituais blasfemos ameaçam não só a esposa e o filho de Bentinho como toda a realidade como a conhecemos. Em A sombra da Guanabara, a pergunta já não é "Capitu traiu Bentinho?", mas sim "Com o quê Capitu traiu Betinho?"
O tomo chegou de manhã cedo pelo correio e sem aviso. O inconspícuo envelope de papelão continha poucas indicações sobre sua procedência. Dizia apenas o remetente: "Editora Pessoa". Logo estranhei, pois, apesar de minha vivência como ratazana de bibliotecas e sebos obscuros do Centro do Rio, não conseguia me recordar de ter visto antes algum volume publicado por essa editora em alguma prateleira empoeirada. Como a criada me chamava para algum assunto urgente e pouco importante, deixei o pacote sobre a bagunça da escrivaninha do gabinete e dele me esqueci. Horas depois, logo após o almoço onde forrei o estômago com uma larga fatia de quiche acompanhada de arroz à grega, o envelope voltou à minha memória. Tomei do abridor de cartas feito em prata 925 e assemelhado a uma espada medieval acometida de nanismo (presente cafona que recebi aos 15 anos de meu falecido padrinho) e, cuidadosamente, libertei o tomo de seu trivial invólucro de celulose parda. Um livro, cuidadosamente embalado em papel estampado onde entre desenhos de formas difusas, retorcidas e doentiamente coloridas se discernia apenas um título: "A Sombra da Guanabara". Sem autor. Acima do título, um selo amarelo alertava com letras em preto: "Pessoa". Quem dera eu soubesse a que a banalidade desse ato levaria! O simples bater de asas de uma borboleta no Ceilão pode desencadear tormentas em Paraty, dizem os técnicos. Mas aquele gesto revelaria não o prenúncio de uma tempestade, pois se uma tempestade traz consigo morte e destruição, ainda ela se move como se viva fosse. Não, aquele gesto era nada menos que o fim de tudo que se move, respira e pulsa, do tempo, do espaço, do próprio Ser. A quem chegará esse relato é coisa que não me interessa especular. Ao findar essas linhas, levarei o 32 à têmpora direita e calcarei o gatilho com um sorriso sardônico nos lábios. Que a escuridão me trague. O que será feito do mundo já não me concerne. Em verdade, o que pude entrever de relance na revelação que me foi dada por Eles, enche meu coração de um júbilo sulfuroso e borbulhante. Meu hálito já exala morte e putrefação. Mas não importa, porque eu sei. Ah, sim, eu sei! As estrelas, finalmente..! AS ESTRELAS ESTÃO CERTAS!