Neste panorama monumental de São Paulo, surge uma cidade que deixa a condição de vila e se impregna com a fuligem das chaminés, o vapor das fábricas e a fumaça dos automóveis.
Após reconstituir em A capital da solidão a história de São Paulo das origens a 1900, o jornalista Roberto Pompeu de Toledo narra em A capital da vertigem sua arrancada rumo à modernidade. Eis uma cidade que deixa a condição de vila e se torna a maior metrópole do país. É a capital da vertigem: vertigem artística, industrial, demográfica, social e urbanística.
Neste painel que vai do início do século XX a 1954 — quando a cidade completa quatrocentos anos —, aparecem personagens como Oswald e Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Washington Luís, Prestes Maia, e Francisco Matarazzo, e surgem episódios que vão da Semana de Arte Moderna de 1922 à epidemia de gripe espanhola, da Revolução de 1924 à chegada do futebol ao país.
Eu, particularmente, sempre acompanhei os excelentes textos do autor na revista Veja, de forma que não fiquei surpreendido com mais esse grande trabalho dele, que está no mesmo nível do título anterior, A Capital da Solidão. Ambos livros deveriam fazer parte do curriculum de todos os estudantes secundários de São Paulo, pois quem os lê, saberá sem dúvida apreciar e dar mais valor a cidade e seus patrimônios históricos. Apos terminar a leitura, fiquei com vontade de revisitar, principalmente, o centro histórico, com olhos mais atentos e me imaginando na primeira metade do século XX, ao me deparar com o que ainda resta por lá. O livro também me despertou a curiosidade de ler e pesquisar mais sobre as obras de personagens da epoca. Se este livro for rapaz de fazer o mesmo em 10% dos demais leitores, já deixará outra imensa herança, além do seu valor histórico.
Dando sequencia a história de São Paulo, após "Capital da Solidão", o livro "Capital da Vertigem" revela o boom da cidade após os 400 anos iniciais onde São Paulo era uma pacata vila.
Excelente para quem quer conhecer a história da cidade e entender os problemas que refletem até hoje.
É marcante citar a ausência de mulheres. Nos dois livros. Tanto por que lhes foram negados espaço, e também falha do autor e não destacá-las.
Aliás, existem sim momentos de presença feminina, que infelizmente são marcados por femínicidios. Onde os assassinos, hoje ganham seu nome estampando ruas em bairros nobres.
Sendo eles Peixoto Gomite que assassinou a filha com um tiro no peito e se matou em sequencia. E Moacyr de Toledo, que assassinou a tiros também, Nenê Romano.
Um livro incrível, mesmo para quem (como é meu caso) não leu o Capital da Solidão. Roberto acompanha a evolução cronológica da cidade, pontuando bem diversos aspectos da cidade: obras públicas, política (e politicagem), os feitos das elites, a cultura, o desejo de ser metrópole. Ao meu ver, a leitura traz também a sensação de vertigem que o autor diz que acompanhava os paulistanos. Descobri o livro ao acaso, numa pesquisa para um trabalho de universidade sobre a história da nossa maior metrópole. Mas realmente fiquei surpreso e maravilhado pela grande abrangência da descrição do autor. Desde Antônio Prado até Mário e Oswald de Andrade e incluindo nesse meio a importância da Mappin e das revoluções. O livro é recomendável a qualquer um que, como eu, seja apaixonado na história dessa cidade
Um livro delicioso sobre a história da cidade de São Paulo.
Embora as primeiras páginas sugiram um tom brega de jornalista engagé à la Folha de São Paulo, vê-se que o autor deparou-se com essa dificuldade por se tratar da introdução - um cartão postal para os suplementos culturais dos grandes jornais - e deixou-se sucumbir frente à pressão de agradar a elite jornalística. Tudo de tedioso e clichê está lá: Mário de Andrade e sua turma, expressões literárias descoladas e repetitivas. Porém, uma vez no texto em si, o autor fica à vontade, e sua narrativa se torna mais transparente e sincera.
Tão sincera que o epílogo é verdadeiramente tocante e nostálgico. O leitor encerra o livro convencido de que a São Paulo da primeira metade do séc. XX, em seu auge na década de 50, era uma cidade belíssima, próspera, agradável, da qual seus cidadãos tinham profundo orgulho. Infelizmente, como o sr. Toledo mesmo diz, a cidade de hoje guarda com essa cidade antiga apenas uma semelhança: o nome. Que tragédia.
O recheio do livro é ótimo. Episódios culturais engraçadíssimos, curiosidades surpreendentes, e uma atmosfera de texto que consegue recriar o orgulho paulistano das primeira décadas do século passado, com aquele ar de ironia e humor que parece contido em qualquer filme em preto e branco da antiga cidade. É como uma viagem a uma cidade desconhecida e esquecida, cujos vestígios, porém, é possível vislumbrar ainda hoje nas esquinas da cidade.
Eu gostaria que o autor enriquecesse sua perspectiva tornando-a mais interpretativa. Há elementos suficientes na história para que se sugira uma interpretação sobre a cidade de São Paulo, especialmente na questão do progresso - São Paulo era a cidade do progresso, do futuro, da mudança, a cidade que não parava de crescer. Não seria esse justamente seu calcanhar de aquiles? Não é justamente por isso que ela causou sua própria ruína, destruindo tudo que remetesse à tradição e ao passado, às suas próprias raízes, e colocando no lugar qualquer moda arquitetônica ou urbanística do momento? O fardo de São Paulo não é justamente sua provisoriedade móvel, tão bem explicitada pela vida nos automóveis?
Os paulistanos se esqueceram de sua própria cidade. Felizmente, esse livro ajudará-lhes a lembrar dela. Ainda está para ser escrito, entretanto, uma obra que deixe a turma do Mário e do Oswald em segundo plano, e que nos revele a verdadeira vida urbana de todos os dias em uma belíssima cidade que se perdeu nas ondas da mudança sem fim.
A Capital da Vertigem conserta alguns defeitos de seu predecessor, A Capital da Solidão, como a ausência de mapas. O livro também revela algumas informações que deveriam ser ensinadas nas escolas, mas que ninguém faz ideia, como, por exemplo, a inversão ocasional do fluxo do Rio Pinheiros para a represa Billings, algo que deveria ter sido vastamente comentando, com a recente crise hídrica.
Mesmo sendo ligeiramente melhor que seu anterior, ainda senti falta de mais imagens e de menos adjetivos. Sei que o autor já tem certa idade e que pode ter vivido em alguns dos momentos narrados, mesmo assim me incomodam as referências a "triunfal marcha" e ao "esplendoroso prédio". Fica duvidoso, mas talvez eu tenha essa impressão porque não gosto de adjetivos que engrandecem as coisas.
Lá pelo final a narrativa começou a se arrastar focando demais em política e esquecendo os bairros e a sociedade. Ouvi demais sobre grãos finos quando queria mesmo era saber como os bairros operários se expandiam, sobre as porteiras do Brás e, depois de ver a Zona lost abandonada e servindo como chácara aos ricos e só retomar quando já haviam todos os tios morando aqui. Parece que vou ter que ler mais para descobrir como é que meu bairro ficou com cara de meu bairro.
Anyway, vale a pena pelo retrato jornalístico, mas ainda assim, deixa gosto de quero mais.
Todas aquelas personagens incríveis. Sampa bombardeada, a semana de 22 (com vaia encomendada). Incrível.
E tem aquele texto que Mario leu no conservatório durante a solenidade em comemoração à entrada do Brasil na I Guerra, que chamou a atenção do jovem Oswald para a arte do seu parceiro de Movimento Modernista.