Canfranc é com certeza um nome desconhecido para imensas pessoas. Também o era para mim. Mas se fizermos uma pesquisa no Google, rapidamente descobrimos que Canfranc é o nome de uma estação ferroviária que uniu até 1970 Espanha e França através de um túnel escavado nos Pirenéus. E rapidamente nos deslumbramos com as imagens que ilustram a grandiosidade e majestosidade do seu edifício com porte e silhueta de um palácio real.
Mas Canfranc não é apenas sinónimo de tudo isso ou de uma degradação que dói de ver e que é consequência do encerramento da via ferroviária internacional. É também sinónimo de uma via de escape para centenas ou milhares de judeus que durante a Segunda Grande Guerra fugiram ao jugo nazi. Entre eles nomes célebres como o do pintor bielorrusso Marc Chagall, Alma Mahler, uma das mulheres mais fascinantes do século XX, o irmão mais velho de Thomas Mann e a sua família e ainda a controversa e famosíssima Josephine Baker e o seu marido judeu. Famosos e anónimos cruzaram os Pirenéus e quando chegavam a Canfranc sabiam que estavam um pouco mais perto da ansiada liberdade, pois aí apanhariam um comboio que os levaria a atravessar a Península Ibérica até alcançarem Lisboa, onde embarcariam rumo a uma vida livre.
“Para muchos perseguidos por el régimen nazi, la esperanza se llamó Canfranc.” (pág. 11)
Este é a premissa, o ponto de partida para Volver a Canfranc, um romance que parte dos referidos factos históricos e aos quais a sua autora habilmente mistura a ficção e assim cria uma história que nos prende desde as páginas iniciais.
A estação de Canfranc, apesar de estar situada em terras aragonesas, ou seja, em solo espanhol, era uma estação internacional. Todos os seus serviços eram em duplicado – havia, por exemplo, um chefe de estação espanhol e francês e serviços aduaneiros de ambas as nacionalidades. O seu piso superior estava ocupado pelo Hotel Internacional. E é nestes serviços e instalações que se movimentam dois dos protagonistas da obra – Laurent Juste é o chefe francês dos serviços aduaneiros e Jana Belerma é criada do hotel. Para além desses mesteres, dedicam-se clandestinamente a ajudar de todas as formas possíveis os refugiados judeus que chegam a Canfranc escondidos em vagões ou que descem das montanhas que rodeiam este enclave ferroviário onde, desde o inverno de 1942, uma bandeira com a cruz suástica “acolhe” todos aqueles que por lá passam.
Laurent e Jana não trabalham sozinhos. A eles se juntam outras personagens de ambos os lados da fronteira, como Montlum, o companheiro de outras guerras de Laurent, Valentina, uma miúda de treze anos que ajuda Jana com as lides do hotel, um médico, o doutor Mallén, que em Zaragoza acolhe os refugiados que necessitem de cuidados clínicos, Didier, um trabalhador da ferrovia e Esteve Durandarte, contrabandista, cavaleiro enigmático que vive nas encostas das montanhas e que desassossega os corações femininos. Este punhado de personagens, armados de valentia e de um intrínseco sentido do dever e da justiça, põe todos os dias as suas vidas em risco para que a guerra possa terminar um pouco mais cedo e para que a liberdade seja um direito que assiste a todos.
Não é novidade nenhuma para quem me conhece e segue as minhas leituras aqui no blogue que sou obcecada por obras que abordem períodos bélicos, sobretudo aqueles que foram longos e atrozes. Sendo assim porque a cronologia assim o ditava, porque em janeiro se comemora o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto e porque quis participar no projeto Leituras do Holocausto II no Goodreads, embarquei na leitura de Volver a Canfranc com algumas expectativas e aquele interesse que me percorre todinha quando tenho entre mãos um grande amontoado de páginas (504, para ser exata) que absorverá a minha atenção e mexerá comigo de uma forma inexplicavelmente boa.
Agora que já se passaram alguns dias desde que a terminei, posso afirmar que foi uma leitura muito saborosa, que ainda me habita e que por isso não desiludiu. Não foi uma leitura a que darei sem hesitar a pontuação máxima, talvez porque lhe falta alguma intensidade nos momentos mais dramáticos e na caracterização das personagens principais, mas foi uma leitura muito interessante, que me abriu caminho para confirmar que a Segunda Grande Guerra não se desenrolou apenas nos palcos principais e que me deixou com umas ganas tremendas de pisar in loco as vias e os espaços que compõem o soberbo espaço da estação de Canfranc, fechar os olhos e reconstruir na minha memória tudo o que de bom e vital para a humanidade se fez por lá há uns bons anos atrás.
Tenho muita pena que esta obra ainda não esteja traduzida e publicada no nosso país, pois sei que agradaria a muitos leitores e faria com que os mesmos soubessem onde fica Canfranc e por que razão esta estação foi sinónimo de esperança e liberdade para muitos judeus nos anos 40 e ainda continua a sê-lo para os seus descendentes.
NOTA – 09/10