No Sul de Itália, na década de 1970, uma mulher gravemente doente engravida, e tem de tomar uma decisão drástica: continuar a tratar-se para sobreviver, ou interromper os tratamentos para dar à luz. O caminho que ela escolhe é condição de existência deste livro. Em Ocupação da Mãe, Paola D’Agostino procura forjar uma língua partilhada entre mãe e filha, para construir a narrativa de um laço que nunca chegou a existir.
Face à ausência da voz da mãe, face ao silêncio instalado depois da sua morte, a autora cultiva a escuta e a contemplação. Coloca o ouvido na terra, procurando discernir o rumor surdo que a atravessa e unir pontos invisíveis da sua própria vida. Observa, como se perante uma fotografia, a condição feminina numa sociedade católica, conservadora, patriarcal, onde as escolhas são limitadas e os sonhos de liberdade, infindos.
Se não tivermos conhecido a nossa mãe, talvez nos falte para sempre uma língua materna, ou talvez fiquemos numa travessia sem começo nem fim. Este é um livro que põe em cena o desejo primordial de pertença e, paradoxalmente, o impulso permanente de mudança. A travessia, afinal, é contra o esquecimento.
Uma coisa é saber atravessar a escuridão, outra é aprender a ser atravessada por ela.
Tal como muitas crianças que perderam algum dos progenitores (ou ambos até) ou que não foram criadas por eles, Paola d’Agostino cresceu com o constrangimento de ter de declarar a sua mágoa perante estranhos.
A minha mãe ter morrido era a única informação que eu possuía acerca dela, ou a única que sabia manejar. Estar morta era a única ocupação que eu lhe conhecia. Durante décadas, não consegui sequer pronunciar a única palavra que só a ela pertencia: Mãe. Mamma. Mamã.
A mãe da autora engravidou dela enquanto realizava tratamentos contra o cancro. Face ao dilema de interromper a gravidez para os continuar ou interrompê-los para levar a gravidez por diante, Ida, uma italiana católica em plenos anos 70, não hesitou: teria o bebé. Quando retomou os tratamentos, deixou a pequena Paola aos cuidados da irmã, mas ciosa da terminologia a que tinha direito, pediu-lhe exclusividade.
Quando Ida morreu, fiquei a viver com Isabella, que sempre tratei por ‘avó’, embora fosse tecnicamente minha tia e praticamente minha mãe adotiva. Mas as promessas entre mulheres são pactos de sangue. E ‘nonna’ tinha um som mais parecido com ‘mamma’. Desde o princípio das palavras, a minha língua materna foi uma ficção negociada.
Bastam estas passagens deste “livro-utopia” para percebermos que se trata de uma leitura extremamente emotiva, mas o que Paola d’Agostino nos traz, ao fornecer um contexto espaciotemporal do seu nascimento, não é apenas a tentativa de resgate da figura materna, um exorcismo da raiva que alternou com o sentimento de culpa por a mãe não se ter salvado ou a reconstrução dos passos de Ida desde que se casou aos 18 anos até que morreu, quando Paola tinha apenas 25 meses.
A minha mãe e eu coincidimos no tempo e no espaço durante 150 semanas, gestação e despedida incluídos. Só sei escrever sobre ela nesta língua que não é minha, nossa, porque uma língua que seja inteiramente nossa não há, nunca houve. Somos a utopia de um idioma, a minha mãe e eu. Nunca terei uma língua materna, porque nunca falei com ela, para ela, com consciência linguística. A última vez que esteve ao meu lado, viva, eu tinha dois anos e ela, 39. Que palavras me terá dito? Que palavras terei eu tentado dizer-lhe? Bastarão para compor uma língua materna?
Houve, então, uma necessidade de fuga desse espectro que a acompanha sempre, e em 1998, chegou a Lisboa com uma bolsa de estudos, onde aprendeu a língua adoptiva que lhe permitiu ter a distância suficiente para escrever sobre este doloroso tema. E que eloquente que é o português de Paola d’Agostini, capaz de fazer corar muitos escritores nativos se, claro, estivessem conscientes das suas limitações.
Aos 50 anos, depois de meio século de tentativas falhadas, pronuncio pela primeira vez, em plena consciência, a palavra ‘Mãe’. É aqui que a fábula começa.
Foi no ano que a autora chegou a Portugal que se realizou o primeiro referendo para a despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Lembro-me bem desse dia e da frustração que senti depois, visto que, até então, apesar de já ter atingido a maioridade há alguns anos, nunca tinha votado em nenhumas eleições por não me identificar com nenhum partido político. O referendo, fosse qual fosse a matéria em causa, era para mim o plebiscito ideal numa democracia, até chegar esse dia, em que percebi que o povo português gosta mais de ser conduzido do que de conduzir, que não se informa o suficiente para poder ter uma opinião consistente, que adora o sítio confortável que é o cimo do muro. Confrontada com a ideia de que poderia não ter nascido se a mãe não tivesse dado a vida por ela, “Ocupação da Mãe” é também uma meditação sobre o aborto, então e agora, em Itália e em Portugal, através de uma tecedura orgânica e intimista.
A gravidez foi uma escolha consciente da minha mãe. Percebi também que assim deveria ser sempre, para todas as mulheres, a opção da maternidade. Em mim, ganhou força desmesurada o valor da liberdade de escolha, a profunda convicção de que quem decide sobre o parto deve ser sempre a mulher, em qualquer circunstância. Percebi, por fim, que só devido a uma liberdade de escolha a minha vida faria sentido. Uma escolha livre, uma escolha generosa.
"A escrita é o único lugar onde coisas e pessoas, e as ligações entre elas, existem para sempre. O único lugar, entre nós e o Tempo, onde tudo pode ser salvo." Pág 156
“Trazer uma criança ao mundo é um ato animalesco e criminoso, se não tivermos as ferramentas materiais e morais para o fazer.”
“ O acontecimento biológico de ter tido origem num espermatozoide e num óvulo humanos não é suficiente para fazer um ser humano - argumenta Calvino — uma vez que não somos seres humanos por direito natural, mas apenas porque outros seres humanos querem participar no desenvolvimento da nossa humanidade e acompanhar-nos pela vida fora. Só quem estiver plenamente convencido de que tem os meios necessários para criar um filho com amor pode sentir-se moralmente autorizado a procriar. Em todos os outros casos, dizia Calvino, «a decisão a tomar é uma das mais graves que se pode enfrentar: grave se se decide interromper a gravidez e certamente muito mais grave se se aceita que a gravidez continue».”
Há livros que escolhemos por impulso e acabam por nos surpreender. Entrei na livraria, apaixonei-me pela capa e trouxe-o comigo sem grandes expectativas. No fim, superou-as.
A escrita de Paola D'Agostino é simples, delicada e simbólica. É daquelas que nos toca. Aos poucos, e quase sem darmos conta, leva-nos para um lugar completamente diferente daquele que imaginávamos no início.
Mais do que contar uma história, este livro abre espaço para a reflexão. Aborda o aborto e a sua legalização através da experiência de uma mulher que, numa época em que interromper uma gravidez era ilegal, teve de escolher entre fazê-lo para sobreviver ou continuar a gravidez e morrer. Não procura impor respostas mas convida-nos a pensar: o que faria eu? E o que sente quem cá fica? Foram essas as perguntas que ficaram comigo depois de fechar o livro.
No fundo, senti este livro como uma carta escrita através de um texto muito humano.
"Há uma intenção de vida que não chega ao destino e não deixa de ser uma viagem carregada de sentido."
“A escrita é o único lugar onde coisas e pessoas, e as ligações entre elas, existem para sempre. O único lugar, entre nós e o Tempo, onde tudo pode ser salvo.”
Gostei deste livro, sobretudo pela forma como coloca a mulher no centro da discussão enquanto ser independente, com direito a escolher, a decidir sobre o próprio corpo e a construir a própria vida para além da maternidade.
Foi também essa reflexão sobre a maternidade que mais me interessou, a ideia de que uma mulher não tem de existir em função de ser mãe, nem de colocar os filhos ou a família acima de si própria.
Gostei particularmente da parte dedicada ao aborto e de conhecer alguns dos acontecimentos históricos que o livro recupera. É um tema que, apesar de hoje poder parecer-nos mais distante, deixa muito claro o caminho que foi preciso percorrer para que as mulheres pudessem ter aquilo que hoje tantas vezes damos como garantido: o direito de decidir sobre o próprio corpo.
Há várias passagens que ficaram comigo, mas esta talvez seja a que melhor resume aquilo que retirei do livro:
«Numa liberdade que se sente em condições de abraçar, a mulher liberta também o filho, e o filho é a humanidade.»
Apesar de ter gostado muito destes temas e das reflexões que o livro me proporcionou, confesso que esperava que a leitura me envolvesse mais. Talvez por isso fique pelas 3,5 estrelas.
Por vezes queremos dizer tantas coisas sobre a leitura de um livro, mas faltam-nos palavras tanto esse livro nos interpelou.
" Ocupação da mãe" da escritora Paola D'Agostino não se enquadra num género literário específico, é antes, um misto de romance, autobiografia, memória e ensaio.
Pareceu-me um livro com leitura urgente nos tempos em que vivemos, por levantar questões como: o poder das escolhas, a liberdade do corpo da mulher, o amor, o aborto, a condição feminina, etc.
É a partir de uma ferida de perda e ausência da mãe que a autora vai abordar questões inerentes a condição feminina. E para tal constrói um diálogo silencioso com o tempo, as pessoas e os objectos pertença da mãe. Faz um caminho de contemplação e diálogo para o interior de tudo, na ânsia de compreender, o tempo, as escolhas,a linguagem e a voz da mãe.