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O número dos hóspedes crescia, os casulos subdividiam-se em cubículos do tamanho de sepulturas, e as mulheres iam despejando crianças com uma regularidade de gado procriador.
“O Cortiço” é um formigueiro repleto de vida, cheiros e cores, habitado por negros, mulatos e brancos, por portugueses e brasileiros, por lavadeiras e trabalhadores braçais numa perpétua agitação, construído graças à manha e esperteza do João Romão, um taberneiro português, mas paredes meias com o casarão de outro português, o Miranda, um comerciante burguês que não vê com bons olhos aquele bulício e aquela mistura de raças, que dá origem a todo o tipo de conflitos e celebrações.
Nesta enorme montra de personagens, não há muito espaço para o desenvolvimento individual de cada uma, que é um dos aspectos que mais valorizo numa obra, dando antes lugar a uma espécie de caricaturas onde não falta o corno, a burguesa, o português com o seu faduncho, a virgem, o efeminado, a bruxa, a prostituta, o parasita.
É um retrato muito colorido de Botafogo no final do século XIX, traçado através de uma linguagem extremamente expressiva, vibrante e até sensual.
Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostálgico dos desterrados, iam todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e caindo em tristeza; mas, de repente, o cavaquinho do Porfiro, acompanhado pelo violão do Firmo, romperam vibrantemente com um chorado baiano. Nada mais que os primeiros acordes da música crioula para que o sangue de toda aquela gente despertasse logo, como se alguém lhe fustigasse o corpo com urtigas bravas. E seguiram-se outras notas, e outras, cada vez mais ardentes e mais delirantes. Já não eram dois trumentos que soavam, eram lúbricos gemidos e suspiros soltos em torrente, a correrem serpenteando, como cobras numa floresta incendiada; eram ais convulsos, e chorados em frenesi de amor; música feita de beijos e soluços gostosos; carícia de fera, carícia de doer, fazendo estalar de gozo. E aquela música de fogo doidejava no ar como um aroma quente de plantas brasileiras, em torno das quais se nutrem, girando, moscardos sensuais e besouros venenosos, freneticamente, bêbados do delicioso perfume que os mata de volúpia.