"É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir."
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João Sem Medo, "fala-barato de imprecações e graçolas populares, desprezador dos tiranetes e dos poderosos e, sobretudo, cheio de alegria de existir, de respirar, de acreditar nos bons sentimentos e de inventar monstros para os destruir e vencer”, que não por acaso se cruza com o eterno Rocinante de Quixote, começou a ser escrito, em 1933, sob o pseudónimo de Avô do Cachimbo, e em forma de folhetins, para a gazeta O Senhor Doutor.
Este João, nada mais que um fanfarrão sem idade ou rosto definido, passa o seu tempo a inventar, por necessidade e engenho - lá está, como o tio Quixote - os seus próprios monstros.
E antes de passar a interpretações duvidosas, era inevitável reconhecer as palavras de José Gomes Ferreira:
"...ninguém conseguiu nem conseguirá anular, garanto-vos, (...) a alegria encantada com que criei o meu João Sem Medo, afinal um pequeno-burguês gabarola que se ilude de não parecer covarde. E o sentimento de liberdade feliz com que senti correr a pena no papel, mesmo quando a constrangia a não cair no sentimentalismo moralizante. Ou o prazer com que ainda hoje me recreio com algumas páginas deste divertimento pícaro, sempre esperançado que o meu gozo, suspeito de vaidade efémera, contagie os leitores mais relapsos e os convença a lerem esta saga de contestação mansa, vencendo o preconceito de nela entrarem gigantes, fadas e bruxas.
Bruxas? Não existem - dirão os senhores peremptórios, naturalistas e suficientes. Pois não.
Mas a caça às bruxas, isso afirmo-vos eu que há.
[Nota final da 2° edição;
Lisboa - 1973]
Pois bem, e agora, em que universo se arrumam as fábulas?
Confesso que jamais as apreciei como hoje. E só chegada a idade adulta me apercebi da imensa quantidade de dor, tristeza e realidade que se acumula nestas histórias.
E se por um lado defendo que a literatura não deve ser rotulada, estratificada, classificada segundo faixas etárias (e recordo uma memória dolorosa: estaria, eu e uma colega de turma, num 5°/6° ano de escolaridade, embasbacadas frente à capa d'O Gato Malhado E A Andorinha Sinhá numa feira do livro da escola. Perante o interesse dela surgia o meu. Estava tentada a pegar no livro...e de trás de mim ouço dizer à dita colega: "Acho muito bem que o leia que já tem maturidade suficiente para isso...ao contrário dos seus colegas." Escusado será dizer que a primeira vez que peguei nesse livro se passavam já 15 anos sobre esse episódio). Não podemos assumir que as crianças são tolas, têm fraca percepção ou discernimento. A literatura é a forma maior de democracia que o homem logrou conseguir e assim se deverá manter.
Depois, por outro lado reflito arrogantemente as ironias, as metáforas, os comentários (os sociais, e sobretudo os políticos) encaixados num tempo e lugar próprios e fica a dúvida se a obra é apreendida na sua totalidade até determinada altura da nossa vida - e se o é jamais!
"...todos por fim embarcariam na confusão, até certo ponto legítima, de esta história parecer exclusivamente destinada a crianças (que só lhe poderão entender a superfície). Visão pitosga, em suma, mas inevitável."
[José Gomes Ferreira,
Op. Cit.]
Afinal, o próprio João Sem Medo, quando parte de Chora-Que-Logo-Bebes, a pé, no Rocinante, montado em complexos engenhos mecânicos, o que seja, enfrenta as mais variadas aventuras e regressa pela metade! àquilo que deixou.
O autor é desapiedado na crítica, mordaz e ácido no retrato dos choraquelogobebenses (alguém extraviado que se acuse). Lido sob uns binóculos que o retomem ao seu contexto temporal, ou trazido para a nossa contemporaneidade, não deixa de fazer absoluto sentido acatar de orelhas baixas o dedo que aponta o texto:
" - A maioria das pessoas já nem pensa! - filosofou o rapaz.-Fala. Isto é: limita-se a pôr o aparelho em acção, a acertar a agulha no sulco respectivo e a deixar tocar o Disco... Sempre igual, aliás."
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A polarização das ideias do autor é supramente interessante e centra-se em opor o mundo da inocência/ignorância (a floresta Branca que atravessa João Sem Medo) ao do saber e da bravura que o logra conquistar.
Mais do que o foco na efabulação que, podemos perceber, deu gozo ao autor fazer surgir, talvez devêssemos olhar de forma mais crítica um texto aparentemente fantasioso e tecnicamente engenhoso como algo ainda mais merecedor de elogio.
O meu fascínio pela sátira tem aqui, claro, o seu peso e não me permitiu escapar a ver semelhanças entre a intervenção do Teatro de Revista e os folhetins de Gomes Ferreira, essenciais para que o grosso da população nacional pudesse escapar ao regime Salazarista com o mínimo de danos possível e alguma da sanidade mental (cada qual em sua escala).