Isto das sequelas tem que se lhe diga. A minha opinião sobre “O Espião Português” é muito positiva, quando terminei a leitura fiquei bastante ansiosa pelo próximo livro, o já anunciado “A Espia do Oriente”. Contudo, admito, tive sempre um receio em relação a este segundo livro, temi que a Espia e o Espião se envolvessem de forma romântica e que a componente de acção e espionagem ficasse em segundo plano, dando lugar a desenvolvimentos, para mim, aborrecidos e lamechas. Seria um caminho. Lógico e desejável (possivelmente) para alguns leitores, mas não para mim.
E foi um grande alívio verificar que isso não aconteceu. Não estou a dizer que eles não se envolvem, como também não digo o contrário, que é para não estragar leituras, apenas posso dizer que não há cenas que poderiam fazer descambar isto tudo em algo banal. Prova superada e ainda bem, que eu ía odiar não adorar este livro.
Mais uma vez a leitura é compulsiva, mesmo tendo este volume quase quinhentas páginas, nunca se perde o ritmo, e a vontade de saber o que vai acontecer fez-me ler as primeiras trezentas páginas praticamente seguidas. Terminado o fim-de-semana é mais difícil manter a cadência, mas os quatro dias que levei a lê-lo significam, para mim, que o autor, não só conseguiu manter o nível do primeiro livro mas também superá-lo. De facto as melhorias são notórias, tanto ao nível da escrita, que me mostrou um Nuno Nepomuceno mais palavroso, avançando em alguns casos para parágrafos mais longos, com uma riqueza de vocabulário acrescida, como ao nível das descrições das situações e cenários. Cenas de acção algo complexas, com intervenção de várias personagens, cada uma com o seu papel, a que assisti de forma quase cinematográfica, sem me perder.
A componente humana do André continua a ser, tal como no primeiro livro, fundamental. A Espia não lhe tira protagonismo, acompanha-o. Nota-se claramente a preocupação por parte do autor em que os livros possam ser lidos de forma independente, mas eu garanto que qualquer leitor retirará maior proveito lendo em sequência. Os livros completam-se, tal como esta dupla se completa na trama. Senti que se fecharam algumas pontas do primeiro livro, analisando as mesmas situações pelo ponto de vista da Espia. Aliás, é concedido várias vezes ao leitor o privilégio de saber o que cada um pensa acerca das mesmas coisas, há uma entrada directa para a as dúvidas, medos e inseguranças nas mentes das personagens, e não só das principais. Um trabalho bem conseguido, um bom exercício de escrita.
Dúvida. Confiança. Traição. Três palavras sempre presentes. Palavras difíceis de digerir. A traição é um murro no estômago, a dúvida desorienta, a confiança é frágil na presença das outras duas. Identifico-me muito com o André, confesso, acho que assim será com a maioria das pessoas, ele enfrenta dificuldades e medos comuns a todos nós, desde problemas no emprego a desilusões amorosas, passando por zangas familiares, tudo por acreditar e por se entregar. Claro que a um nível diferente, afinal o André é Espião, o que lhe confere um charme que poucos de nós terá (mas nós também não somos personagens de livros), só que ao mesmo tempo, é esse poder do terra-a-terra que faz com que se goste muito dele.
Não é que a Espia não mereça mas não vou escrever sobre ela. Apenas revelar que é uma personagem já presente no “Espião Português”, que sai do elenco secundário e toma agora o palco principal. Muito misteriosa, com uma sensualidade poderosa e um passado surpreendente, esta mulher eleva a “Dúvida. Confiança. Traição.” a um outro nível. Eu cá acho que devem conhecê-la.
“Vendo bem, acreditar nos outros sempre foi a sua maior fraqueza. (…) Gostava de ter tido a coragem de ser mau.” (Pág. 323)